TODAS AS FLORES PARA HORTÊNCIO LANGA

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Escrito por Celso Muianga

(Manjacaze, 23 de Março de 1951 – Maputo, 12 de Abril de 2021)

«Só perguntamos do mais fundo do espanto o motivo da escolha do Anjo da Morte»

Fernando Leite Couto, UMA INSISTENTE PRESENÇA EM REDOR

O estrondo da notícia ainda cerca-me as emoções. Não posso fazer de outra forma. Vou tentar rabiscar alguma coisa para tatuar este silêncio que me custa mastigar. Custa-me compor em palavras o vazio, o sentimento, este rosto que se transformou nesta nascente descontrolada de lágrimas.

Um dia deparei-me com MAGODA naquela livraria derramada sobre o passeio entre os sovacos dos vizinhos Mao Tse Tung e Kim IL Sung. Os meus olhos foram assaltados por uma curiosidade que foi crescendo à medida que folheava as páginas daquele exemplar do livro de estreia de Hortêncio Langa no quintal das letras moçambicanas. Depois de virar as páginas percebi que afinal de contas por detrás da tinta azul alguém que surripiara o livro havia borrado o afecto entre dois homens da cultura moçambicana, Albino Magaia e Hortêncio Langa, «não sei como é que o livro desapareceu» – disse-me mais tarde Lea Boaventura, a viúva de Magaia quando recebeu a informação do meu resgate. «Um autógrado mais caro que o próprio livro» – rematou Xixel Langa, a filha do autor. Não consegui resistir e partilhei o acto heroico por email com alguns amigos íntimos. Consegui ler um autógrafo que foi negado à vida, borrado repetidamente, mas o que é que a luz solar não vence, companheiros? Solar era o sentimento, o afecto partilhado destes dois gigantes:

«Ao Albino Magaia

Invisível fio do destino

introduziu-me a ti, em busca de

uma apreciação, um conselho maduro

sobre as minhas traquinices literárias.

Durante o teu mandato como S.G da AEMO,

os doutos da escrita deram o voto de valia à minha prosa.

Hoje, agora que rabisco estas linhas

reparo que, não sei por que espíritos, prefaciaste o meu livro!

Como te agradecer esta  vontade dos «outros»?

Teu amigo,

 Hortêncio Langa

3/7/95»

«Maputuuh, u xonguile demais. Teu beijo de flor/ dá todo o calor/ à quem chegou para ficar (…)»

A voz inimitável  do ex-rapaz de Manjacaze que cresceu em Chibuto e veio a Lourenço Marques na flor da juventude até fazer-se um homem verdadeiramente admirável. A família Langa foi viver  naquela região onde as árvores «têm folhas como se fossem notas de dinheiro», assim reza a canção de Eusébio Johane Tamele – ZEBURANE. Em Chibuto também cresceu outro senhor da música – Wazimbo. Ao segurar O FIO DA MEMÓRIA de João de Sousa, outra personalidade da cultura que partíu irremediavelmente para a eternidade: «OS REBELDES DO RÍTMO  foi 1.º o grupo musical em que faziam parte Hortêncio Langa, na gaita e voz, Wazimbo a cantar e Miguel Matsinhe a tocar congas». Em conversa com Fernando Manuel, o cronista de MISSA PAGÃ  revelou-me que Hortêncio Langa disse que ele e amigos, ainda imberbes, cantavam num «inglês macarrónico», transformando «I got dreams to remember!» para «I ga drimiss tu rememba»…

«Eu sou um documento, sobrinho» – afirmou em conversa, por várias vezes na GUIDA, João Cabaço, uma das torres do trio Alambique, esse outro documento que a morte levou. As conversas animadas com aquela biblioteca prolongavam-se por inércia, ali na rua Malangatana na cidade da Matola. Este recorte foi depois do sarau de lançamento do livro HÁ NEGROS NA BÍBLIA?, da autoria de Arão Litsure, um outro documento que permanece entre nós,  um B.I  do trio de gigantes.

O Poeta Luís Carlos Patraquim escreveu-me na esteira deste vazio que se abriu entre nós:

«Companheiro Celso, que mais dizer? Muito triste pela maldita notícia. 

E a memória, SEMPRE!, do Hortêncio, assim raptado ao canto, ao texto, à vida. NOSSO AMIGO. Excelente tudo: músico, cidadão, HOMEM DIGNO.

Um grande e sentido Abraço a todos. À Família, se o puderes fazer, da minha parte. Porque estou sempre em Maputo.

O Hortêncio escreveu um belíssimo “fado” para a Revolta da Casa dos Ídolos, com letrinha minha.

Abraços, 

Luís Carlos»

Fomos assaltados e sacaneamente roubados pela morte. Ninguém merece. A festa dos 70 anos ainda nem sequer tinha chegado à metade do convívio…

Hortêncio Langa nascido em Manjacaze, era oriundo de uma família de músicos. Ele era um artista multifacetado, músico, compositor, escritor, pintor, professor universitário, de um activismo social admirável, sempre disponível para marcar com o seu brilho, a voz única, a inimitável maestria na guitarra, etc e tudo. Um documento, como carimbou João Cabaço!

«Khanimambo, Kanimambooo. Hortêncio Langa, khanimambooo». E agora, meu velho Langa «como te agradecer esta  vontade dos «outros»???

Khanimambo! Foi assim que muitos músicos moçambicanos agradeceram ao apoio dos irmãos de Portugal há 30 anos. Hortêncio fez parte desse grupo. Vénia prolongada para ti, meu velho!

E a música invade o meu silêncio «A lizandzu dzi fana ni nhunguêêê/ vongo dwala missaveni. Dzi mila, dzi thluvuza dzi huma tinhungue ni mi handzôôô», fazendo tradução de corta-mato: «O amor é como uma semente. Planta-se. Cresce, dá flores que dão frutos e por sua  vez dão outras sementes». Um ciclo permanente da vida que agora chegou a esta parte irremediável, de uma forma  inesperada. Triste são as nossas almas desacostumadas a esta ausência definitiva.

O telefonema mudou de sentido. Se antes recebi uma chamada do mestre Luis Loforte tomei a dianteira para saber se ele sabia da notícia. E de facto sabia, até mais do que eu julgava saber. Falou-me de um Comité de Curadores do Museu da Música Moçambicana, isto foi há 15 dias. Depois o patriarca Langa foi internado  numa unidade hospitalar. O céu esse grande egoísta continua  com a mania de alimentar-se de estrelas. E neste 2021 nunca o vi tão egoísta como sempre  tentou não demonstrar. Não foi esse o combinado, amigo!

«A ku sukela ka tolo u waku lova xikoluene. Ka u djikele kwini mwanhana(…)» «U mwatinbanguêêêhhhh. U sukela madjodjoooohh», outra canção que não me larga esta noite. Hortêncio sempre atento aos desvios sociais, narra com a mestria com que nos habituou um caso comum, sobretudo na juventude. Langa questiona o rumo que leva a vida de muitos jovens, de ontem, de hoje e de amanhã. Faz uma radiografia sobre os desvios sociais associados aos malefícios da álcool, as drogas que dão uma rasteira cruel à miudagem.

Até agora não sei virar o disco. Se mantenho KUDAKABANDA, RABADABBZAMTHÁKA  a tocar. Ou se toco canções interpretadas só pelas três torres do ALAMBIQUE, com João nas congas e Arão e Hortêncio a cantar. Foi assim numa noite, naquele concerto que foi aberto pelo meu amigo Alfa Thulana e seus pares. João Cabaço acabava de perder a mãe Hagar Mpfumo, mas o amparo dos amigos, aqueceu-lhe a alma, ao ponto de cantar, já a fechar, um dos seus hinos «MAMANA». Outras músicas ficaram  por tocar nessa noite carregada de silêncio e esta angústia vadia, como disse o poeta. Vou tocar AMANHECER ou simplesmente HODI,  a canção do King Fany Mpfumo, num tributo feito por vários músicos e, neste número em particular, com Hortêncio Langa e Nando, a magicarem as vozes de veludo.

Quando vai sarar esta ferida que canta, desgraçadamente, companheiros?

Saravahhh, Mestre Muito obrigado, Hortêncio Langa!

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