A ARROGÂNCIA DO SIGNIFICADO

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Escrito por Dionísio Bahule

Espero ha meses pelo Cronotopo do Bakhtin. A última vez que Leonel Matusse cruzou o canavial à entrada da casa passando pela torneira plástica de outro lado das Mangueiras – foi pela CECAC. A que antecede a esta – a esposa estava ainda em Inhambane. Foi um dia de loucos.

Foi maldito.  Eu. Leonel. Depois lá para o final-da-tarde, o Ventura Mulalene e o Ernesto Guambe – o invertido menino do Sul; o nosso Basquiat. Há vezes que penso nele com a mesma intensidade com que olho para o Rapaz Mal Comportado de Eric Fischl; é uma ácida denúncia; um ataque frontal contra a oculta corrupção e decadência do estilo de vida suburbano da classe média – nossa novíssima  classe burguesa; o novo rosto capitalista da cidade. Uns pensam no Mudungaze, mas para mim, não. Ele é um acertado nome da instalação junto com outros. Gonçalo Mabunda, por exemplo.

Vasco Manhiça na onda da colagem – herança dos dadaístas. Os rapazes da dissolução da poética prescritiva; consagrada e que se deixa apreender pelo colectivo. É interessante – eles dão-nos a certa ideia de obra aberta de Eco – consagrando o pleno panfleto do esvaziamento que determina a arte na categoria do objectivo, isto é: do genitivo reduzido apenas ao objecto. E como pensarmos o significado nisto tudo.

Bila, depois de: e se todos criássemos a rebelião pediu-me esse exercício de doar sentidos ao projecto dos Thikyt. Mas como pensar nisso se Matusse ainda nega-me a leitura de Bakhtin? Lembramos quase sempre daquele dia. Alguém. Sozinho. Com uma James. O que se pode esperar? Como não tinha o contacto da esposa – virei o final-de-semana todo com ele.

Por vezes lembro-me disso; do momento em que me acorda a uma da madrugada para levá-lo a paragem. São mesmo coisas de um asmático em sonâmbulo. Para além disso – vi ainda a densidade da perda. E mais um fingimento solidário. Mas pensar o significado é pensar o tempo; pensar o espaço; pensar o indivíduo.

Será possível uma arte fora disto? Alguns falam de arte pela arte; desse universo anárquico; de sair pelos fundos sem dar voz à colectividade; a essa demissão da prescrição social. Eu não sei. Mas acho que concordo com Burguer – pensar a arte nesta categoria – para além de ser isso uma mera ilusão de criatividade humana, é negá-la a participação no desenvolvimento histórico.

Até podemos chegar a pensar nisso forçados pela nova dinâmica de consumo; de buscar sem compreender só para tomar parte do status. Modernidade? Continuo ainda não sabendo.

Mas moderno em relação a que proposta estética? Escuto por exemplo guidjane e fame with no money do Hassan’ adas. Penso num exercício narrativo que nos força a retomar o ritual de passagem para a fase adulta; dessa necessidade de saída da mulher para pensar a colectividade pela formação de dois; mas há igualmente a denúncia de rebeldia – esse teatro todo de demora pela aceitação dos mais velhos. E podemos olhar a mesma denúncia no fame with no money que repõe o drama do êxodo. Gosto ainda de pensar nisto khassa enela do Jaco Maria – um exercício de pensar o comunitário na perspectiva radical do conceito como lugar de doação e partilha. E o que será para nós – o contemporâneo?

O trajecto temporal ou a dissolução estética em nome de uma vulnerabilidade inconsequente. A formulação do significado prende-se nisso. Nestas coisas todas com seus resíduos. Com sequelas e maldades; sua mentalidade e mazelas – afinal – o processo de criação se nutre disso; dessa escuta do momento.

De um momento também contaminado por outras relações de um antes. Há uma expressão linda do Medvedev – a escritura.  Coloca nela uma outra: literária. Mas eu substituo por arte. Tudo isso que diz respeito a escritura como acto para sua concretização – penetra no incondicional laboratório social; é lá onde até os defuntos têm algum exercício. Choramos por ele. Criamos doenças; por vezes até nos retiramos do convívio. Mas isso – são excepções.

Afinal – há festa nisso tudo. Por isso: o contextual e a situação maquiam o significado como contextual  e situacional – determinam o exercício da criação; é no condicionalismo dado pelas fricções da época que se busca a vitalidade da arte.
Aliás, para além disto – é maldade demais pensar o significado. Depois da arrogância – faremos uma marcha para espiarmos as nossas respostas. Que não são poucas. 

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