Os artistas negros começam a realizar exposições (Restauro II)

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Desenho de Joaneth
Desenho de Joaneth

Semanalmente, através do programa Conversa ao meio dia, produzido pela Plataforma Mbenga Artes e Reflexões e transmitida pela Rádio Cidade, contamos alguns episódios da História das Artes Plásticas moçambicanas, na rubrica Restauro.

Concebemos este espaço no nosso portal para a partilha, em forma escrita, do conteúdo breve, transmitido na rubrica supracitada.

Se a literatura tem ao menos o beneplácito da oralidade que com todos os vícios que o contaminam ao longo tempo, induzidos pelos contextos, pode ser transmitida de geração em geração. As artes plásticas não, estas precisam de testemunho. As pinturas rupestres, tidas como a primeira manifestação moçambicana desta disciplina artística, são disso prova.

Os historiadores estão em divida connosco. Falta esclarecer o que aconteceu da fase embrionária das artes plásticas moçambicanas até a década de 40 do século XX.

Estes anos 40, são marcados pelo repentino interesse pela Arte Maconde, feita no norte do país. E no centro e no sul, a arte moderna começa a ser praticada por moçambicanos negros.

Depois do controverso marco da exposição de 1918, artistas portugueses embarcaram em Maputo (então Lourenço Marques) influenciando o surgimento de artistas negros formados nos padrões ocidentais de artes, obedientes a estética e a técnica daquele padrão.

A década 40 marca a introdução da modernidade. Passamos a ter a figura do autor, a individualidade do sujeito criador da obra. No contexto anterior a arte era colectiva. Por exemplo, a autoria das pinturas rupestres é atribuída a etnias. O Sistema de arte passa a reconhecer a singularidade, peculiaridade, da técnica e da linguagem.

Em 1968, no livro Lutar por Moçambique, Eduardo Mondlane, tido como o fundador da FRELIMO, assume que o movimento de resistência ao colonialismo inspirou-se nas artes, num movimento que integrou poetas, pintores e escritores.

Eduardo Mondlane refere-se a nomes como os pintores Malangatana e Craveirinha (sobrinho do poeta), o escritor de contos Luís Bernardo Honwana, e os poetas José Craveirinha e Noémia de Sousa. Eram estas as referências que o intelectual e político viu a desabrochar na década 40 do século XX.    

A historiadora Alda Costa, no livro Arte e artistas em Moçambique diferentes gerações e modernidades (Marimbique), para além dos nomes já mencionados, sendo especifica com as artes plásticas refere-se a poeta e pintora Bertina Lopes, ao escultor José Chissano e pintores Samate e Shikani.

A esta lista – acrescentamos a partir do historiador António Sopa, no seu artigo integrado no catálogo de artes plásticas, produzido pelo Ministério da Cultura e Turismo, em 2017 – integra ainda Jacob Estevão, Agostinho Mutemba, Vasco Campira (de Tete), Luís Polanah, Mankew, Marcos Zicale, Mafenhe, Come, entre outros.

Este grupo de artistas, apesar de, como é o exemplo de Jacob Estevão ter começado a pintar em 1945, só recebeu apreciadores e visibilidade mediática no final da década de 50 e princípios da 60, quando começou a expor.

 Desse período alguns seguiram carreira mesmo no pós-independência. Bertina Lopes e Luís Polanah, entre outros, partiram para a Europa, onde prosseguiram os seus estudos superiores em belas artes e outras ciências sociais.

  Terá criado um ambiente favorável para este movimento o Núcleo de Arte criado em 1936, em Maputo, por ter formado artistas e os ter colocado no circuito que os permitiu realizar exposições.

Os anos 50, esclarece Alda Costa no seu livro, foram igualmente marcados, por parte de Portugal, pela mudança estratégica da imagem de um colonialismo imperial para uma Nação pluricontinental e multirracial.

A concretização deste objectivo dependia da inclusão da comunidade dos nativos em diferentes tipos de actividades outrora destinadas aos portugueses. As autoridades incentivaram alguns profissionais (assimilados) integrados na sua máquina a aprender artes.  

Alda Costa conta que é desse contexto que surgem Jacob Estevão, Elias Estevão, Vasco Campira e Agostinho Mutemba, que tiveram aulas com o artista português Frederico Ayres, que se destacou na paisagem e pintura de história.

Esteticamente, a primeira geração de artistas modernos de Moçambique seguia padrões e técnicas europeias, servindo assim ao interesse de dar visibilidade a imagem de uma colonização pacifica, de coabitação racial e social por parte do Salazarismo. Entretanto, esse contexto produziu Artistas que seguiram o seu percurso, alguns aperfeiçoado outros metamorfoseando as suas linguagens.  

Imperceptível para a leitura da altura, observa Alda Costa, eram os traços que Agostinho Mutemba, pouco mediatizado, seguia (e segue). Nele havia já uma certa busca pelo passado, pela África perdida, pelo Moçambique anterior à invasão colonial.

1 COMENTÁRIO

  1. Interessante!
    Não só os historiadoes, como também a-sociologia da arte, têm uma divida para-connosco.Portanto, também os sociólogos estão em dívida. Faz falta que estudemos esses tempos, esses espaços. Em termos da realidade sócio cultural, politica,econômica, e outras dimensões do fenomeno artistico: a obra, os artistas, os públicos e o papel do sistema colonial nesse fenómeno. Atenção especial penso que temos que dar ao pretensiosismo do lusotropicalismo, vis a vis a revolta dos intelectuais de que dá conta E. Mondlane no seu ” Lutar por Moçambique “. Temáticas, formas, materiais, legitimação dessa arte,etc, e por aí…

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