A velha que apanhava milhos

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Sem título, de autor desconhecido

Por: Pedro Pereira Lopes

Havia uma velha dos seus sessenta e tal

ou setenta e poucos anos,

que era viúva. A sua residência era uma pequena palhota em forma de cone, com um só cómodo, sem água e sem corrente eléctrica. Mas talvez isso não fizesse diferença para si, de onde vinha, dos tempos de onde vinha, a vida tinha sido sempre assim.

Não se sabe se a velha viúva tinha nome, provavelmente sim, mas todos a chamavam Madalena, pois desde que se lhe morrera o esposo, aos seus vinte e tal

e sem ter plantado nela uma semente

que se entregara ao Cristo.

Casei com a fé, sou a puta Madalena, dizia ela, a puta que mereceu um poema do Cristo.

Trabalhou a vida inteira para os outros, lavou roupas, cuidou de crianças e moeu cereais. Agora que tinha a idade que tinha, trabalhar para comer era um problema. Ou talvez não.

Com alguma frequência, Madalena era vista no mercado local, na secção onde se vendia o milho, com um saco nas mãos, apanhando os grãos que se espalhavam pelo chão. Todos os dias, dezenas de camiões entravam no mercado, descarregavam sacos e mais sacos de milho, depois os sacos eram abertos, o milho separado, misturado, re-ensacado, exposto

e nesse processo

algum milho ia parar ao chão. Apanhá-lo não era crime ou sequer pecado.

Dona Madalena, para que é esse milho, perguntava sempre alguém quando a visse atarefada, inclinada.

É para tu comeres, filho da puta.

Um dia, o padre mandou chamá-la. A paróquia, solidária com o seu sustento, tinha ajuntado algum dinheiro. A viúva Madalena gritou ao padre:

Depois de tantas décadas, é só hoje que o Cristo resolveu mandar sustento?

O padre, que tinha muito bom senso de humor, sorriu:

Ora, ora, Dona Madalena, e o milho que a senhora apanha no mercado?

Milho? Oh, santo padre, disse ela muito trocista, já comi bastante milho nessa vida. Não tenho saudades. Eu junto os grãos e depois entrego aos vendedores a um preço baixo.

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