Joan e o Rei Julian

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Autor desconhecido

Por: Pedro Pereira Lopes

Joan já tinha estado em outros países africanos mas era sua primeira vez em Madagáscar. A sua filha, Margaret, uma rapariga loira de cinco anos, tinha-a avisado sobre o Rei Julian, o minúsculo lémure-de-cauda-anelada que governava a ilha como um déspota. Quando a mãe seguia para fazer o check-in, descobriram, nos olhos da menina, a particular humidade das árvores amazónicas:

Oh, mãe, tome mesmo muito cuidado com o Rei Julian, ele está sempre a enganar as pessoas, disse.

No segundo dia da sua missão em Antananarivo, Joan recebeu uma viatura enorme, com tracção nas quatro rodas. Ela praguejou, a geringonça, um modelo antiquado, era manual e tinha o ar condicionado quebrado. Ela, que era de corpo franzino, sempre que se sentava para conduzir, desaparecia, engolida pelo monstro mecânico. Num dia, teve que ir ao campo. A estrada parecia não acabar e o calor fazia a sua pele de cera derreter. Depois de uma curva apertada, Joan foi abordada por dois policiais. Eles acercaram-se da viatura monstruosa, conferiram-lhe o estado e, a seguir, exigiram-lhe os documentos.

Bom dia. Para quem a senhora trabalha, perguntou-lhe um dos agentes, enquanto examinava os papéis.

Joan respondeu, trabalhava para uma agência das Nações Unidas e estava numa missão para ajudar a resolver um problema que o país africano não conseguia resolver por si só. O outro policial aproximou-se do comparsa e sussurrou-lhe meia dúzia de palavras. O primeiro agente ficou ainda mais próximo da janela da condutora, devolveu-lhe os documentos e disse:

Temos um problema.

E qual é?

A senhora está a usar o cinto de segurança…

E isso constitui um problema?

Nesta zona, senhora, a velocidade permitida é de quarenta quilómetros por hora. Se a senhora está a usar o cinto de segurança, significa que tem intenção de ultrapassar o limite e isso constitui, em si, uma transgressão. O homem nem sequer sorria.

Joan tinha encontrado o seu primeiro Julian.

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