Enlatados

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Camaleão, de Leah Newton

Por: Pedro Pereira Lopes

O país estava em pós-guerra e soerguia-se tímido, como que desmerecedor de coisas boas. O povo votaria pela primeiríssima vez. À ONUMOZ estava confiada o cultivo da paz e o desarmamento das partes.

Muche tinha doze anos e nunca tinha estado numa sala de aulas, mas sabia contar, sobretudo moedas. Era fabricante e condutor de camiões de fios de arame e às vezes sonhava ser branco, só para ser rico. Numa manhã, Muche decidiu ir ver de perto o acampamento da ONUMOZ, e, para seduzir os capacetes azuis, levou um gordo e adulto camaleão como passageiro do seu 4×4 de pneus de lata de cerveja importada. O réptil, coitado, mudava o mais que podia os tons da sua pele, camuflava-se para ficar invisível. Apaixonado pelo rapaz, um dos soldados da paz comprou-lhe o animalzinho por cinco dólares e um sorriso sincero.

Duas vezes ao mês, e porque o hábito faz o monstro, Muche levava um camaleão para o seu amigo, que lhe dava sempre cinco dólares e um sorriso sincero. O que o homem fazia com os bichinhos, ele mal tinha como adivinhar, mas tinham-lhe dito que camaleões eram matéria-prima para os enlatados de carne

que eles traziam sabe-se lá de onde.

Quando a sua missão terminou, o soldado da ONUMOZ deixou, a cuidado da natureza, um grande circo de camaleões.

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