As palavras divinas

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The Hand of God de Yongsung Kim

Por: Pedro Pereira Lopes

Numa terra do interior, durante o auge da ocupação colonial, as famílias trabalhavam, sem soldo, nos campos de algodão. Então, o recrutamento não costumava ser pacífico. Por exemplo, um sujeito do antigamente, magro e ocioso, tinha cortado as largas margens do rio local a nado, só porque não lhe tinha apetecido lavrar a cultura obrigatória, abandonando a povoação e escondendo-se algures. A sua fama era um hino de resistência.

De modo a se desincentivarem mais rebeliões, o administrador mandou instalar uma igreja, que teria os papéis de educar, converter à fé cristã e, em particular, transmitir a cultura de trabalho. Quando a missão ficou pronta, as famílias foram forçadas, também, a assistir às missas, primeiro aos domingos e depois, tantas quantas as tidas por necessárias. Aconteceu que, de uma dessas famílias, achou-se um prodigioso rapaz em assuntos eclesiásticos. Num ápice foi baptizado e passou a ser chamado, por ironia, de João Baptista.

Duas colheitas depois, o novo João Baptista foi enviado para a África do Sul, onde aperfeiçoaria as suas habilidades para servir com melhores habilidades ao sacerdócio. O administrador, em sua própria pessoa, tinha conseguido os apoios necessários: É estratégico ter um padre pretito, dizia ele, feito um mecenas. Sete verões transcorridos, feito homem, João Baptista voltou à missão onde tinha aguçado a iluminação. Mas não era mais o mesmo, tinha outra vez renascido, nascido pela terceira vez.

Aos domingos, quando substituía o padre principal, as palavras que dizia provinham da velha bíblia, mas tinham um tempo e sabor diferentes. Foi então deposto o jovem clérigo. Motivado, fundou a sua própria congregação. E passou a ensinar que Jesus era africano e que eles, os pretos, eram descendentes de Moisés, o profeta e portador das leis de pedra, portanto, eram o povo escolhido. Um dia, jurava ele, nasceria dentre eles um messias e também os pretos seriam aliviados das plantações de algodão e sisal. O administrador, com os tímpanos em ardência e magoado porque se sentia atraiçoado, ordenou a prisão do clérigo preto.

Sete dias depois, o novo João Baptista era julgado e morto com um tiro de espingarda que lhe desmanchou a cabeça. Foi exarado nos autos: É um corruptor das palavras divinas.

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