Poesia de ser ou o sublime existir de uma ave sobre o Índico

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De Belmiro Adamugy

Singular. Essa é a definição primeira que me visita quando o tema é Eduardo White. Nele o tempo sempre pareceu perder o seu significado para ganhar contornos insondáveis como o universo. A escrita – quase um eterno marulhar – alvitra nele uma singular forma de dizer, de anunciar, fundamentalmente pela omnipresente necessidade de evadir-se, espalhar-se e finalmente encontrar-se num atalho que, invariavelmente, nos remete para essa busca de Moçambique nas diversas etapas da história e do encontro de culturas.

Embora conhecido pelo espírito livre, é impossível não perceber o tom de tristeza que permeia os seus versos, enfatizando o eterno sentimento de perda que devasta a alma humana e a necessidade urgente da auto – afirmação.

Com uma imaginação sem limites, White investia nos aspectos linguísticos diversificados e preciosos, enquanto os temas abordados eram e são tão complexos que desafiam, bastas vezes, a nossa compreensão. Há na sua obra, uma certa esfera mitológica impregnada de elementos reais inspirados pela brisa do Índico.

Em White, o mito deve ser entendido como uma narrativa lendária, pertencente à tradição cultural de um povo, que explica através do apelo ao sobrenatural, ao divino e ao misterioso, a origem do universo o funcionamento da natureza e a origem e os valores básicos do próprio povo. O mito, aqui, joga o papel de contador de verdades.

Mas é o outro Eduardo White que me prende; o Eduardo livre. Livre para dizer um poema para ninguém em plena tarde de um domingo qualquer na baixa da cidade. Livre para falar com as almas esvoaçantes do mundo. Retenho, passam pelo menos 7 anos um desses muitos encontrosfortuitos. O último por acaso com o poeta… Ele estava só. No ar, ainda ecoava em mim, a obra resultante da sua obsessiva escrita vertida na peça teatral “O Libreto da Miséria”, para mim, um verdadeiro grito do moicano.

A peça fizera um estardalhaço incrível. O seu nome estava nas parangonas da Comunicação Social nacional… e, apesar de todo o sucesso, Eduardo White era capaz de gestos de uma humildade arrepiante. 

Como jornalista e aficcionado pelas artes e cultura me penitencio por nunca o ter entrevistado. Falha grave e imperdoável. Uma mancha na minha estrada. Ficam, entretanto, as conversas circunstanciais que tive o grato prazer de ter com ele. A última, repito, foi na baixa da cidade. Estava eu com a minha família. Meu pequeno guerreiro reparou num homem que, aparentemente, estava a falar sozinho. Me lembro de dizer: filho aquele senhor é o Eduardo White, um escrevinhador de seres, lugares, corese mares.

O que se seguiu foi simplesmente surreal. White estabeleceu com o menino uma longa conversa. À distância, dava para ver o brilho fascinado nos olhos do meu filho. White, com gestos amplos, escrevia mundos e céus na imaginação do petiz… não o soube de imediato, mas anos depois descobri no meu filho o gosto pela leitura.

Essa memória de um homem com uma Escrita Desassossegada, muito a frente do seu tempo, mas totalmente disponível para a vida, para o amor e pelo Índico ainda me convoca para uma viagem pelo interior de mim mesmo. Há sementes que se plantam sem intençãonenhuma; como quem planta uma tamareira. O importante, no fim de tudo, é que deem frutos. Acredito que esse é um legado só possível na engenharia de ser Homem descoberta e revelada ao longo da dezena de livros que Eduardo White, lá do alto da Janela para Oriente, garatujou para o mundo!

Belmiro Adamugy é jornalista, cronista, docente de Jornalismo entre outros.

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