COVID-Makonde de Lauro Munguambe

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O vírus infectou-nos a todos. O medo instalou-se e percorre-nos o corpo, a espinha. Nalguns, como se visualizassem a materialização do apocalipse, deixam-se consumir pelo pessimismo que os afunda numa depressão profunda. Noutros, brota a esperança, aquela crença em de que depois da chuva, de noite, com o dispersar das nuvens, as estrelas voltarão a brilhar, sorridentes.
Os optimistas, em diferentes momentos da História, usaram-se da arte para expressar-se. Ainda que exteriorizando uma distopia, o propósito é sempre optimista. É neste espírito que Lauro Munguambe foi levado a criar estas ilustrações e a escrever este grito.
A proposta neste cruzamento de linguagens e pretenso intercalar de signos é pensar a pandemia que assola o globo e os ataques terroristas de que Cabo Delgado está a ser vítima, diante de um silêncio cínico de quem deveria apresentar-nos as soluções.
Os Macondes que não tendo se curvado aos árabes e depois aos europeus até princípios do século XX, quando foram dominados pelos portugueses, e que mais tarde participou activamente na expulsão do regime colonial, é o bode expiatório que o artista encontrou para nos fazer ver com olhos de ver, o perigo que nos ronda.
É a partir de um símbolo de resistência, de virilidade, de força, da nossa heroicidade que Lauro pensa a nossa fragilidade. É através de um personagem supostamente inabalável, que Munguambe denuncia a nossa condição.
O receio pela extinção desta etnia ilustre na nossa narrativa é um grito de desespero, de uma voz que sente estar no limite. E que embora visualize o deserto em que se vão tornando os distritos de Cabo Delgado, devido a fuga das populações para lugares seguros, onde não irão acordar com homens armados a decapita-los pela simples razão de existirem e estarem ali, naquele momento…não perde a esperança.
Este questionamento a nossa resiliência, embora descreva o caos, chore dores reais, não deixa de ser um manifesto de esperança. Até porque no texto esclarece que espera pelo dia que isto tudo vai acabar.

*Este texto faz o prefácio do ebook desta exposição online

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