COVID-Makonde de Lauro Munguambe

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O vírus infectou-nos a todos. O medo instalou-se e percorre-nos o corpo, a espinha. Nalguns, como se visualizassem a materialização do apocalipse, deixam-se consumir pelo pessimismo que os afunda numa depressão profunda. Noutros, brota a esperança, aquela crença em de que depois da chuva, de noite, com o dispersar das nuvens, as estrelas voltarão a brilhar, sorridentes.
Os optimistas, em diferentes momentos da História, usaram-se da arte para expressar-se. Ainda que exteriorizando uma distopia, o propósito é sempre optimista. É neste espírito que Lauro Munguambe foi levado a criar estas ilustrações e a escrever este grito.
A proposta neste cruzamento de linguagens e pretenso intercalar de signos é pensar a pandemia que assola o globo e os ataques terroristas de que Cabo Delgado está a ser vítima, diante de um silêncio cínico de quem deveria apresentar-nos as soluções.
Os Macondes que não tendo se curvado aos árabes e depois aos europeus até princípios do século XX, quando foram dominados pelos portugueses, e que mais tarde participou activamente na expulsão do regime colonial, é o bode expiatório que o artista encontrou para nos fazer ver com olhos de ver, o perigo que nos ronda.
É a partir de um símbolo de resistência, de virilidade, de força, da nossa heroicidade que Lauro pensa a nossa fragilidade. É através de um personagem supostamente inabalável, que Munguambe denuncia a nossa condição.
O receio pela extinção desta etnia ilustre na nossa narrativa é um grito de desespero, de uma voz que sente estar no limite. E que embora visualize o deserto em que se vão tornando os distritos de Cabo Delgado, devido a fuga das populações para lugares seguros, onde não irão acordar com homens armados a decapita-los pela simples razão de existirem e estarem ali, naquele momento…não perde a esperança.
Este questionamento a nossa resiliência, embora descreva o caos, chore dores reais, não deixa de ser um manifesto de esperança. Até porque no texto esclarece que espera pelo dia que isto tudo vai acabar.

*Este texto faz o prefácio do ebook desta exposição online

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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