VIAGEM NA POESIA DE EDUARDO WHITE (I)

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De Ana Mafalda Leite

em mim não ambiciono nada em definitivo se não a magia de viajar   Eduardo White

A simbolização elemental terra/mar e terra/ar que encontramos no registo poético de vários autores moçambicanos revela a partilha de culturas de origens diversas que confluem no Índico se entroncam, refeitas, nesse entrosamento dialogal das culturas do país.

Luís Carlos Patraquim no prefácio do livro Para Fazer um Mar de um outro poeta moçambicano, Virgílio de Lemos, aponta para aquilo que se pode designar como um conceito de indicidade, ao referir a abertura e integração da lírica moçambicana nessa espécie de arquipélago literário, em várias línguas, do swahili ao inglês, que percorre países como o Quénia, Tanzânia, Maurícias, Scheichelles, numa constelação poética de matriz particular, que exprime a saga do desencontro de várias civilizações, a bantu, a europeia, a árabe, a javanesa, a indiana.

Esta convocação de uma partilha de percursos culturais ganha na poesia de White uma particular forma de enunciação, nomeadamente pela escolha do tema da viagem e de formas conducentes à caracterização de uma escrita de viagem. Os seus roteiros são, ora expansivos, em geografia referencial, veja­‑se Janela para Oriente, ora íntimos e reflexivos, apontando para a consciência do labor poético, em processo de achamento.

O poeta, estreado em 1984 com Amar sobre o Índico, publicou posteriormenteO País de Mim(1989) uma provocatória resposta intertextual aoPaís dos Outrosde Rui Knopfli, restabelecendo o fio condutor de uma tradição poética, através da recriação de um tema, o do país/nação, assumido e inte­riorizado pela posse erótica da terra, nacionalizando­‑a pelos sentidos, pelo amor e pela paixão.

Eduardo White marca um trajecto próprio com este segundo livro, afirmando o erotismo como pulsão maior que energiza a força amorosa em expansão:

Todo o amor tem sentido/ até mesmo o dos pederastas/Todo o amor é sublime/e só por si vale/não o esvazies/não o aprisiones./Todo o amor/ merece todo o amor/ por isso/deixa­‑o impune/ deixa­‑o sem rédeas/ deixa­‑o viver até, do seu próprio cansaço (PM, p. 45)

Semelhante louvação do amor em 74 poemas, que arquitecta O País de Mim manifesta o desejo de conhecimento e de dádiva do sujeito – “eu quero doer de criar – doer de dar o meu amor” (p. 58) – em atitude genésica e de receptividade amorosa. O País, retoma o ventre amoroso do sonho que cresce, e o sujeito lírico funde­‑se no sujeito plural da sua terra:

Não sei se agora/era um corpo que escreveria/ ou um país como é este que é o meu/com feridas fundas/e vozes de sangue por entre os dentes (…) Sei que é hora de continuar/cuidando da nossa colmeia/como certas abelhas/ e levantar as antenas/ as espadas infalíveis/ e prudentes. (PM, p. 32).

Por outro lado, neste segundo livro as metáforas do Índico e do mar transformam os corpos em lugar de viagem e de encantamento, em desejo de expansão e de conhecimento emocional/cultural diverso:

Talvez pudesse cantar­‑te assim:/ – És o Índico (…) teu corpo é de água/ e de vagas e de espuma/ teu corpo que eu habito/como quem procura/ a verde memória das algas/ a doçura, a loucura, a poesia. (PM, p. 27) Teu corpo lembra­‑me certos navios/que chegam/ pela mão das correntes (…) Quando te canto/ é como se quisesse o mar por estrada. (PM, p. 19)

A noção de viagem começa por desenhar­‑se de forma harmoniosa e nítida no primeiro e no segundo livros de poemas de Eduardo White através das metáforas do mar e do navio. Mas é sobretudo, a partir do livro Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave(1992) que ganha força maior, nesta espécie de manual de arte do voo. O livro concretiza a demanda de um espaço simbólico mais amplo, em que o percurso do sujeito se expande agora, não pelo mar, mas pelo ar, procurando a liberdade do sonho, da imaginação e da poesia.

O percurso ascensional das aves, asas, nuvens e céus, cria as condições, na obra, para uma reflexão sobre o fazer poético e sobre o renascer do sujeito em viagem. O movimento aéreo reclama a posse de um universo livre, transcendente. Aqui se inicia, pensamos, a vertente mística da poesia de White, que é alcançada por uma espécie de paroxismo erótico­‑amoroso. O onirismo do voo e da dádiva de um corpo, em metamorfose iluminada, refaz o sujeito poético em entidade espiritualizada e em energia cósmica, universal:

Na verdade julgo voar. Ergo a cabeça, os olhos chamejantes, toco a longuíssima garganta do espaço (…) dá­‑me a vertiginosa tontura dos cometas, a loucura brilhante das suas cabeças, dá­‑me aquela secreta mão de Deus/ que turbilhante e clandestina os combustiona e acende (PCV, p. 158)

Também neste terceiro livro se esboça o início da oscilação entre o verso e a poesia em prosa. A tentação discursiva experiencia­‑se e abalança­‑se em movimento ascensional numa obra que se pretende uma arte do voo. Encontramos aqui um momento de eleição sobre a consciência do fazer poético, uma reflexão demorada, diria iluminada (à ma­neira de Rimbaud nas Illuminations) sobre a escrita e a revelação, quase iniciática, de um percurso de viagem.

Porque se trata de uma escrita de viagem aérea, e sem fronteiras, abrindo­‑se em potencial infinito, manifesta­‑se, talvez por isso, uma reacção ao espartilho do género literário. Como se sabe, a narrativa de viagens, a escrita de viagem permite a exploração de géneros discursivos múltiplos. Com efeito, a crítica da literatura de viagens é unânime em reconhecer o aspecto polimorfo dos textos, que ora se prendem ao registo epistolar, à ficção, ao diário, à autobiografia, às memórias, às crónicas.

A narrativa de viagem convoca a elaboração de uma forma discursiva, em que surja, mais ou menos tendencialmente, a narração. Por isso, a partir deste terceiro livro de White, que considero de charneira, no conjunto dos seus livros, vamos observar que o verso se distende em prosa e tende, transversalmente à narração de viagem.

A escrita centra­‑e em torno de um sujeito que se esvazia de identidade, para assumir o trajecto de sucessivas alteridades, provocadas pelos diferentes percursos de viagem, interiores e exteriores, em que as paisagens reconfiguram, em acréscimo cultural e escriptural, a noção de sujeito.

Para onde vamos, com tanto vagar, entre estrelas, a luz e o vento? É tão remoto o chão, tão sem memória (PCV, p. 13) Quando hoje for noite podes levar o lume na cintura e a boca a piar. Estende o rosto sobre as estrelas e na cabeça uma constelação sirva de diadema. (PCV, p. 23)

A escrita de viagem tenta dizer­‑nos, mesmo que assente numa experiência subjectiva, alguma verdade acerca dos espaços percorridos. A organização deste tipo de narração oscila entre a expressão de uma objectividade e a procura de uma subjectividade. Ora, no caso do texto de Eduardo White, a ambiguidade centra­‑se entre a expressão de uma subjectividade e a procura, ainda que indelével, de marcos, ou referências objectivas.

O texto de viagem revela um carácter misto e apela à retórica dos lugares, topoi, que pressupõe a retoma de esquemas clássicos de descrição do espaço. Entre o locus horrendus e o locus amoenus, entre a ascensão aos céus e a descida aos pesadelos, a liberdade do escritor é balizada pela sua capacidade de invenção do olhar, pela sua reflexão imaginária e pela sua relação apropriativa do espaço.

Ana Mafalda Leite no Festival de Literatura Resiliência III. E.Q – Arquivo da Revista Literatas

ANA MAFALDA LEITE é ensaísta, docente e principalmente poeta, com mais de 30 anos de trajetória criando versos: seu primeiro livro de poemas, Em sombra acesa, foi publicado em 1984. Nasceu em Portugal, mas cresceu e fez os primeiros estudos universitários na Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo, Moçambique.

É docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com Mestrado em Literaturas Brasileira e Africanas de Língua Portuguesa e Doutora em Literaturas Africanas, sua área principal de investigação.  É Professora Associada com Agregação da Universidade de Lisboa, pesquisadora do ISEG do CEsA, com bolsa da FCT.

Desenvolveu pesquisa de Doutorado e Pós-Doutorado, na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres, na Universidade de Roma e na Universidade de Dakar.

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