VOZES DO NOSSO TEMPO: UM TEXTO UM CAMINHO J. MUNGUAMBE & H. JOSHUA (I)

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«Quer se trate da irregularidade de Baudelaire, da surpresa de Apolinaire, do assombro de Perse, em todos os casos é um desligar de um certo olhar, de uma certa resignação temporal, de um certo enclausuramento do ser que a poesia propõe.»

J. BURGOS, Pour un poétique de l’ immaginaire. Paris. 1982.

Escrito por Dionísio BAHULE

Proposição II

«O que quero dizer com o poeta-em-um-poeta é aquilo que, mesmo no maior dos poemas – Rei Lear ou Paraíso perdido – é a própria poesia e não outra coisa. […] O poeta-em-um-poeta seculariza o sagrado, fazendo com que busquemos análogos explicativos.»

H. BLOOM, A anatomia da influência – Literatura como modo de vida. RJ. 2011

I

Parece-nos impossível pensar a poesia fora do seu carácter criador. Aliás, é isto que a etimologia desta palavra nos manda dizer – poesis – como espaço onde a sensibilidade toma seu grau de restauração – digo: o ser. Retalha-se e, depois, recompõe-se com pormenor que ainda aos grandes é capaz – olhando nisso a perspectiva de Bloom que, o levando a construir o conceito de poeta-em-um-poeta como categoria de impermeabilidade ideológica – remodela-se continuamente no complexo jogo «entre a enunciação metafórica e a transgressão regrada das significações usuais de nossas palavras[1]». Este é um polo. O outro, o que fez de Aristóteles a paixão de muitos e, talvez, rudeza de historiadores – é ter pensado a poesia como «algo de mais filosófico e mais sério do que a história», porque a ideia do universal só é possível enquanto pensada na poesia como atmosfera da reinvenção e utopia e, na História – o particular – porque a ela – reserva-se-lhe o exercício de «mostrar como uma coisa levou a outra; (…) como algo veio a acontecer, ligando a situação inicial, o desenvolvimento e o resultado de um modo que faz sentido»[2] Ao poeta é expressamente proibido pedir-se-lhe a narração do que foi, mas podemos, nós como humanos, pedi-lo que nos faça sonhar continuamente, isto é: dar-nos a coragem de aceder a metáfora da navigatio vitae – aquilo que abrindo o sujeito ao desconhecido – traduz-se no paradigma de Ulisses[3].

Ora, não será esta abertura à totalidade do ser, ao assombro – esse «momento inicial» que indica o estar profundo do homem que torna Platão irritado relativamente à poesia? Ou: não terá sido por aquilo que, mais tarde, Nietzsche fez gravitar ao contrapor Apolo [o deus da perfeição e do homem] e Dionísio [o deus da embriaguez e da vontade de poder]? Acho ser esta, a segunda opção, que fez Platão no livro X da República afirmar: «A cidade cujo princípio acabamos de estabelecer é a melhor, sobretudo em virtude das medidas tomadas contra a poesia.» Para conceber o colectivo em termos cognitivos, Platão pede que a poesia[4]seja aniquilada; expulsa para fora da humanidade – da casa – lugar que congrega – porque ela é a «ruína» dos que a «ela» dedicam a sua atenção; a escutam e se deixam penetrar – catharsis – deposição da alma e das paixões.

Sendo a poesia, como toda arte lugar, da mimesis fantástica – nega o que se pode chamar de representação ontológica, no sentido de identificação. É aqui onde para Platão, o «princípio político» nasce pela total «exclusão do poema»[5]. Mas o que será a politeia senão o colectivo; a casa; a humanidade do homem? Ou: o que será a politeia senão a centralidade da subjectividade humana – poesia? É admissível pensar a poesia como lugar da linguagem – «recinto, isto é: a casa do ser». Pensar desta maneira é admitir que o poeta «é o que se encontra mais perto da habitação do ser». É na casa onde a invocação ao âmbito mais profundo acontece – o ser; onde o Topos – pedindo o termo a Aristóteles, realiza-se. Este lugar-comum que nos pode levar a renovação da Lógica Jurídica de Perelman – mostra a transposição de um cogito cartesiano para uma pragmática de valores que anula o estático da dimensão lógico-formal que Platão pede para a poesia – a dianoia­ – «o labor do logos calculador[6]».

Este é o agrado que tenho em pensar «Os Ângulos da Casa» como possibilidade de ida e de busca; aliás: como simplesmente – caminhos variados que nos abrem a possibilidade de caminhar ao nosso domicílio – casa; ao lugar-primeiro de permanência – nosso habitat. Olhando para os textos da Hirondina Joshua, há uma rápida denúncia que fica a espreita – aquele contexto filosófico-literário que o chamo de poetologia existencial; encontra os seus movimentos na existência de duas abordagens possíveis: [I]: na negação de todo e qualquer estágio de metafísica; está na estrada de quem diz – o que não passa por um estágio de mensurabilidade nada diz. Quem aí está para senti-la? Pergunta renovando, por outro lado, toda uma tradição que nos remete à ideia da visão e da temporalidade. Faz-nos voltar a Orfeu – que matou a sua Eurídice pelo olhar; Psique que se perde ao ver Eros; Narciso – que morre ao contemplar a sua própria imagem numa mistura de negação do incalculável e a crítica ao logocentrismo cartesiano.

[…] os móveis desarrumados tornam-se Imóveis/diante dos olhos e suas veias/na estante, o tempo rói o dorso do osso

Nestes três versos, H. Joshua leva-nos a requalificar a mitologia do olhar, ao dar à janela um grau de acesso à mundividência pelos olhos; a dar créditos àquilo que celebra a cultura visual que, encontrando o seu ponto de viragem no Pós-Segunda Guerra alcança a sua realização na imagética da comunicação[7], principalmente, depois de Maio de 1968, na França, quando o teatro encontra a sua nova fundamentação para desocultar por meio do corpo e do grito o outro passivo no tradicional modelo dramatológico[8]. Mas também, traduz uma constante temporal: «na estante, o tempo rói o dorso do osso». Entra aqui o segundo ponto do que chamo de Poetologia Existencial ao grande exercício dos escritores do Pós 2000 ou àqueles que abrem o novo século.

O segundo movimento aparece quando a: [II]: existência na experiência – actual ou possível – por oposição a uma constante indefinição própria do Da-sein,enquanto projecto, cria no sujeito poético uma visão dramática da condição humana – o vazio como «O Grito» de Munchi, a «Mulher em Pranto» de Picasso e «A PIDE» de Alberto Chissano revelam. O homem que se torna pelo tempo e pela circunstância. Os «móveis desarrumados» traduzem na velha fórmula da metáfora – o deslocamento e, consequentemente, a substituição – revelando o estado interior da voz poética; como também, da revelação do momento.

A terrena condição, fusão da química e física ou electrões e a/gravidade. Bem se vê: a verdadeira gravidade é a porta que canta/com tons graves a aguda substância da existência./E quem aí esta para ouvi-la?

Quem aí está para senti-la?/Os dedos se foram, a cabeça se foi,/toda biologia se foi./Toda ciência se foi. Resta a «aicnêic», cá/por mim o inverso vale, se é que a isto podemos chamar de:/conhecimento sistemático; pondo a coisa motora da metafísica abaixo.


[1] RICOEUR, Paul, Tempo e Narrativa 1 – A intriga e a narrativa histórica. Ed. Martins Fontes. S. Paulo. 2019:3

[2] CULLER, Jonathan, Teoria Literária – Uma Introdução. Ed. Beca Produções Culturais Ltda. S. Paulo. 1999: 27

[3]  «Herói que muito viajou e muito sofreu e que, justamente por isso, é capaz de orientar a sua perigosa rota através de todos obstáculos divinos e humanos que se lhe interpõem», BODEI, Remo. A Filosofia do Século XX. 35ª ed. Lisboa. Edições 70.

[4]   «Antes de se fundar no conteúdo imoral das fábulas, a proscrição platónica dos poetas funda-se na impossibilidade de se fazer duas coisas ao mesmo tempo. A questão da ficção é, antes de tudo, uma questão de distribuição dos lugares», RANCIÈRE, Jacques. A Partilha do Sensível – Estética e Política. Ed. Editora 34. S. Paulo. 2018

[5]  «Ou pelo menos daquilo que Platão chama a dimensão imitativa do poético. O destino da política verdadeira repousa sobre a firmeza da atitude com relação ao poema», BADIOU, Alain. Pequeno Manual de Inestética. Ed. Liberdade Ltda. São Paulo. 2002

[6] Cf: HENRIQUES, António. Argumentação e Discurso Jurídico. 2ª. Ed. Atlas SA. São Paulo. 2013

[7] Há neste mesmo período um grupo de pensadores da Escola de Oxford [Gilbert Ryle, Peter Strawson, John Austin e John Searle] que, saindo da pergunta sobre o que é a percepção, sedeslocam para compreender o edifício semântico-perceptual, isto é: «sobre a maneira como utilizamos os termos e as expressões decorrentes do campo semântico da palavra percepção ou espírito, BAHULE, Dionísio. Código Paralinguístico – O Velho Lugar das Convenções da Comunicação. Inédito

[8] Cfr: RYNGAERT,Jean-Pierre. Ler o Teatro Contemporâneo. Ed. Martins Fontes. São Paulo. 1998

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