“Minha música é de intervenção pessoal” – Kloro Killa

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Foto registada por Mário Cumbane no Museu Mafalala

No princípio dos anos 90, regularmente Zito Dogstyle, de big jeans e camisas largas tocava a campainha da dona Guilhana, para falar com o seu amigo e companheiro da Rappers Unit, Hélder Leonel. Sempre à espreita estava o irmão mais novo do Hélder, o Danilo Malele. Nas saídas para os encontros no Txova, o Zito levava o seu sobrinho que já 97 formava com Kaus e Kloro, como ficou conhecido Danilo Malele, a Trio Fam.

Guiados pelos pioneiros do hip-hop em Moçambique, Rappers Unit, em 1997 já atraiam a atenção nos freestyles no emblemático “Clássico Hip-Hop Time”, na Rádio Cidade e em 1999 lançaram o single “MCs & DJs”.

Numa manhã de sol brando, as acácias da avenida Filipe Samuel Magaia, na fatia entre as avenidas 24 de Julho e Ahmed Sekou Touré, encontramos Kloro Killa para contar-nos sobre os passos a solo.

Subimos alguns andares do prédio da antiga Samirana para instalarmo-nos na varanda traseira da flat onde o rapper de 38 anos de idade mora e muitas vezes, possivelmente, a Rappers Unit, reuniu-se. Sentamo-nos para meia hora de conversa, cujos excertos poderá ler nas próximas linhas.

Quem é Kloro?

Eu sou um rapper humanista e progressista. Tive muita influência do movimento humanista e participo de atividades com esse propósito, numa cena de transformação da consciência do ser humano para que paremos de sofrer, conhecer o propósito de vida, sabermos porque estamos aqui. Quero contribuir para um mundo mais humano, minha cena é essa. E isso reflecte-se no processo.

 A minha música reflecte esse propósito de querer mudar a sociedade, provocar a consciência.

No paços do Museu Mafalala

Encaras a “coisa” nestes moldes desde a época da Trio Fam [grupo composto por mais dois rappers, Cinzel e Kaus, com o qual se projectou] ou foi ficando mais claro à medida que foste crescendo no movimento rap?

Já existia uma semente, há muito tempo. Recordo que algumas das minhas primeiras letras e freestyles já tinham algumas cenas que levavam o people a reflectir. Mas com o crescimento e maturidade que vamos ganhando, a coisa ficou mais consciente e consistente. Claro que cruzo os pensamentos do humanismo com a minha experiência pessoal…[porque] não podemos falar de coisas que não sabemos.

Também sempre tive um goal de que se fosse seguir uma carreira a solo, a minha relação com o humanismo seria mais firme. Quando estás num conjunto, tens de respeitar a cena dos outros, o que foi fantástico tanto na Trio Fam, como na Track Records [label que nos na década passada integrou vários projectos de rap e r&b relevantes para o cenário, entre as quais a Trio Fam], Rappers Unit.

Então quando comecei a trabalhar no Xigumandzene, estava ciente de que aquela era a oportunidade de fazer o que sempre estive busy. É engraçado porque na altura, na verdade eu queria parar de cantar e focar-me no negócio da música para partilhar a minha experiência com a nova geração porque sinto que não temos a cultura de passar informação sobre o que já foi feito…mas [ocorreu-me que] a melhor forma de mostrar a coisa como acho que tem de ser é fazendo… e também um gajo grama maning de rap, de escrita, tenho um love especial por palavras que são uma cenas maning nices para explorar e entender.

Esta tua relação com a palavra que agora partilhas, em parte, terá alimentado a opção por duplo sentido nas tuas letras, o punchline….

Eu sinto que a educação não põe o people a pensar e isso não é uma particularidade de Moçambique. A cena do duplo sentido é um estimulo às várias possibilidades que uma palavra, em dado contexto, pode significar…esse processo de compreensão é o momento em que a pessoa está a pensar.

A escolha das palavras para os duplos sentidos não é ao acaso. É punchline justamente pelo impacto que têm nas pessoas. Mas também tem a cena de criar interesse e é a cena que anima no momento de escrever.

Como é que chegas ao Hip Hop?

O Hip Hop é uma cena que costumo dizer que veio ter conosco devido as suas características particulares. É um estilo de vida em que o rap é uma manifestação que tornou possível pessoas sem condições para aprender instrumentos musicais, por exemplo, expressarem-se através da música. Há que, no entanto, dominar a palavra. O rap, hoje popular, surgiu nos subúrbios como a arma mais fácil de se expressar. Não é um estilo em que tens de ter ido à escola de música.

Por acaso em Moçambique o rap chega pelas elites e prolifera-se nos meios urbanos…

Vindo dos Estados Unidos de América, na década 90, a única forma da cena entrar era por via de quem tinha MTV; quem tinha condições importar música. Os gajos da Sommarchield é que tinham a esses links. No meu caso, por exemplo, apesar de que eu não morava lá a minha mãe foi aos EUA em 1992 ou 94 e trouxe cds de rap. É a partir dessas idas e depois cópias que os jovens iam-se emprestando. Para nós não tinha outra forma.

Quando é que o Danilo percebe que quer fazer rap?      

Foi uma cena natural, através do meu irmão mais velho, o Hélder Leonel. Ele e os amigos criaram um movimento intencional ao notarem que gostavam de rap, de propósito, deram o nome de Rappers Unit. Eles foram inteligentes ao unirem-se.

Eu só acompanhava meu irmão e, entre 1996 e 97, sem dar por mim, o Cizel, sobrinho do Zito Dogstyle [que integrava a Rappers Unit], convidou-me para fazer rap. O gajo é que escrevia para mim. Fomos convidados para um freestyle na Rádio Cidade e a resposta a nossa primeira aparição na rádio nos bateu a consciência. O people admirou, o que nos levou a pensar que tínhamos uma cena especial. Ao perceber o feedback assumimos a responsabilidade de fazer a cena e daí a Trio Fam.

De 1997 para cá o rap atravessou vários momentos. Entre 2007 e 2009 a “Nova escola” recebeu muitos novos grupos, novos rappers em todos os cantos da cidade. Como foi esse momento?

Na verdade, aquele foi um time de descobertas e o que nos movia, na verdade, era love. A cena é que a nossa competição era pela street. A preocupação era de quem seria a próxima melhor música. Era uma brincadeira nice, que hoje sinto que nos falta. Depois nos apegamos maning ao sucesso, que bloqueou a criatividade. [Para muitos] já não é pelo rap. É mais pela fama e imagem social. Isso não seria problema se ao menos nos focássemos no negócio.

Agora é que se está a perceber a parte de gestão, de fazer um plano de negócio, entender a cadeia de valores e o valor do produto. A maioria de nós ainda não tem essa cena clara. E isso dá a ideia de que esta cena não dá.

Acho que é uma cena geral na cultura em Moçambique, em que se diz que não há sustentabilidade. Não é porque não há, nós é que ainda precisamos de aprender as voltas que se dá.

Nessa época que te referes, desenvolvemos a parte artística e desse contexto surgiram artistas que já não têm nada a provar como Hernani [da Silva Mudanice], Duas Caras e esse cenário culmina com o lançamento em 2007 do álbum “Babalaze” de Azagaia.

A tua saída da Trio Fam…

Eu não sai da Trio Fam, nós paramos por razões de crescimento e assuntos da life. A cena engraçada é que somos muito amigos. Começamos a cantar juntos depois de termos construído uma amizade, por exemplo tinha uma relação com o Kaus do [colégio] Kitabu e com o Cizel através do Zito Dogstyle. Ainda nos encontramos, se calhar só temos de reactivar. Vê só que no ano passado fizemos dois shows

Entrando para o Xigumandzene…

Sempre tive uma gana de quero fazer O ÁLBUM. A cena tinha a ver com o facto de eu ter percebido que somos maning preguiçosos na cena de consistência e de qualidade. Uma gana de mostrar que: brothers essa cena de estarmos a dormir, de ficarmos a reclamar que as pessoas não gostam da nossa música em Moçambique e por isso não vão aos shows é uma pura mentira. Nós temos que parar de nos mafiarmos.

Então eu disse brother eu vou fazer um álbum, dar shows e promover. Na verdade, eu tenho essa cena desde os tempos da Track [Rercords] mas mesmo lá, as vezes não me compreendiam. Até poque eu sempre fui olhado como alguém ingênuo, cheio de ideias, que deveria pôr os pês no chão.

Sim, pode ser, mas vamos lá experimentar [porque] há coisas que estamos a reclamar mas nunca tentamos. Vamos experimentar ser gajos sérios, ensaiar, preparar as performances, ser artistas.

A minha teoria [para os artistas] é a seguinte: o que te faria comprar um disco, pagar um show? E a resposta que cada artista dá é a que ele deve aplicar para atrair pessoas. E funciona.

Na verdade, pela humildade do moçambicano, muitas vezes não percebemos que a malta é muito exigente e isso é bom. As cenas medíocres daqui e de fora não são consumidas porque o people sabe o que é bom.

Temos público e potenciais compradores. É só ver o número de pessoas que vão ao [festival] Azgo [por exemplo]. Eu penso que eu só tenho que fazer meu job. Sou da opinião que temos de parar de culpar aos outros, nós temos que dar uma cena nice. Temos exemplos, os Ghorwane, o Azagaia, quando dão shows enchem e as pessoas vão pela qualidade. Fiz o álbum consciente do que queria atingir e que nível de exigência necessário para atingir. Vendi as 1400 cópias e nisso percebi que as pessoas compravam pelas músicas.

No Xigumandzene, mais do que em trabalhos como “A Caminho do Txova”, mixtape que gravaste com a Trio Fam, o seres de Maputo é concreto, o que se percebe nas figuras de estilo das tuas letras…

A cena é que nós não estamos conscientes do valor das cenas a nossa volta. Acho que temos de evidenciar que as nossas cenas são nices e parar de inventar, de ser americanos porque isso afasta-nos das pessoas. Temos de usar referências daqui, com as quais as pessoas se identifiquem. Há que entendermos que a nossa localização geográfica, a comida, as relações humanas têm valor um valor único, só nosso e que devemos ser nós a celebrar essa particularidade.

Faixas como “Sonhos” e “Não posso esperar”, por exemplo, tem um sentido de emancipação…

No Xigumandzene, no essencial, todas as músicas falam da necessidade de mudarmos, transformamos e progredirmos seja em assunto de festa, seja no assunto de família. E há sempre uma cena de motivar.

Capa de Xigumandzene

O discurso dominante de Xigumandzene é no sentido de que a diferença, a transformação depende da acção de cada um, que é uma tendência actual na lusofonia se olharmos, por exemplo para rappers brasileiros como Emicida, Projocta ou Rashid Costa, ou o português Jimmy P. É, de certa forma, uma mudança daquela corrente que acusava aos outros pelos fracassos sociais e individuais, ignorando que cada um faz o todo. Esta leitura é equivocada?

O mundo está a mudar e as pessoas estão cada vez mais conscientes das coisas, é natural que a cena se reflicta no rap porque os rappers em termos de mensagem estão sempre na linha da frente, nós seremos pegos como exemplo.

Acho que Moçambique vai ser o país a mudar o rap lusófono nesse caminho, [para tal] nós só temos de nos assumir. O problema é não sermos aventureiros como os outros que vêm para o nosso país voluntariamente mostrar o seu trabalho.

O rap moçambicano é maning consciente, a maioria dos rappers tem algo a dizer. Mas esses estão adormecidos e os outros [com pouca ou nenhuma substância] não estão, o que fica a dar outra imagem.

Se nós todos nos agigantarmos, fazermos programas de lançamento, criarmos uma pequena indústria, teremos uma palavra a dizer no rap lusófono. Eu sinto que nós somos os gajos que vão juntar a todos porque consumimos a todos e os entendemos.

Mas também há questões existenciais nalgumas músicas…

De facto mas uma coisa que tens de entender é que faço isso de forma consciente. É que eu penso que se o rap não for essa cena, que é para transformar a vida das pessoas, então estamos a perder tempo.

As perguntas que me faço é que problemas sociais nós temos, costumo dizer que as minhas músicas são de intervenção pessoal. É para mudar as mentes.

Nós somos um país que precisa de conquistar a independência econômica e para isso temos de produzir, penso que essa é a cena que temos de cantar, o Azagaia faz bem isso. Para mim, a mudança está na consciência e o nosso papel é influenciar as mentes, lançar a semente ainda que só tenha efeito 15 anos depois.

Por exemplo, lancei em 2016, mas nunca dei de borla e perseguia os blogs mas só agora é que começa-se a discutir essa questão. E isso começou com Joe. Se nós todos tivéssemos percebido naquela altura já teríamos resolvido esta cena. As pessoas não compram por falta de hábito. Nós temos que sair da sede de ser famoso, de bater mas bater não é nada, Bro.

“Revolução Cultural”, seu próximo álbum, é uma continuação do projecto anterior?

No Xigumandzene ainda havia um egotrip um pouco misturado e eu estava revoltado com a situação em que me encontrava de falta de dinheiro. Foi uma mistura de muitas coisas.

Agora, na “Revolução Cultural”, já tenho sólida a experiência de paternidade, no álbum anterior a minha filha tinha cinco ou seis anos, e eu mudei muito como pessoa. É um álbum que se estende aos valores que nos damos como moçambicanos e qual é a importância da cultura para resolver as nossas necessidades. É para fazer o people perceber que solução está conosco.

O people relaciona cultura com outras cenas mas na verdade cultura é hábito, é tudo, como conduzes, como constróis uma empresa.

Ivan Laranjeira no tour da Mafalala com Kloro e Ademar Chauque

O lançamento deste álbum está no centro do Running From The Urb que te associa ao Museu Mafalala. Queres explicar o que é esta iniciativa?

Eu já tinha o projecto “Revolução Cultural” e nisso surgiu a proposta da Creative Lines. E ao fazer o tour com o Ivan [Laranjeira na Mafalala], fascinou-me a forma como ele explicou, a preocupação que ele tem de procurar abrir mentes.

Vi que estamos na mesma cena mas cada um a fazer na sua perspectiva. As músicas especificamente não têm uma relação directa com o bairro mas o objectivo é o mesmo, que é a valorização do que é nosso, aproveitar a História para nos inspirarmos.

Identifiquei-me com o trabalho do Museu Mafalala e a visão da Creative Lines. Espero que possamos influenciar a forma como as pessoas olham para os suburbios e cada vez mais acho que os shows devem sair do centro [da cidade], levarmos para Choupal (25 de Junho), por exemplo.

Por outro lado, eu conheço muito bem o meu público e sei que eles não têm conhecimento sobre a Mafalala, tem que vir entender qual é a cena e visitar o museu. A cena é multiplicar o número de pessoas conscientes.

Este projecto não deixa de ser um tributo a poesia moçambicana se pensarmos em José Craveirinha, Noemia de Sousa, Virgilio de Lemos…

Outra cena é essa é que, infelizmente, não há clareza sobre isso. Se perguntas a um jovem comum, talvez ele não saiba sobre esses nomes. Há certas cenas em que tem de haver clareza porque ajudam no pesnamento.

Nós quando “marramos” essa cena na escola parecia uma cena meio despachada. Eu depois de fazer o tour pensei que tenho de trazer a minha filha de nove anos para aqui, para conhecer esta parte da história, não acho que ela deva esperar até ter 18 anos para isso. É isso que temos de começar a quebrar, a mostrar ao people o que realmente importa.

Serão quantas faixas e quais são as colaborações?

Já tinha o álbum feito, agora estou a actualiza-lo para não ficar fora do contexto. São 12 músicas e deixo as participações para surpresa. É certo que há vozes habituais como Ubaka, Hot Blaze, Exodus. Mas também trarei artistas novos, acho isso importante porque há people a trazer cenas nices.

Vai ser um álbum mais musical?

É uma mistura de um pouco de tudo , mas é musical e rap…

O boom bap tradicional?

É musical e modernizado mas eu sou maning conservador em relação ao boom bap.

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