Um abraço à Velha Chica

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No jornal Público, Miguel Luís chora todas as dores de estar condenado pela cor da pele. Na Revista Expresso, Clara Ferreira Alves chora Beirute, que podia ter sido Beira, talvez. São, certamente, Eugénio Lisboa, crónicas da peste. Acabava de lê-las quando vi a primeira fotografia, que ignorei. Já bastava de desgraça.

O dia 10, segunda-feira, foi correndo entre gravações de uma conversa no Centro Cultural Franco Moçambicano e uma entrevista no Jardim Dona Berta…pequenos escapes. À noite, contra a minha vontade, tomou forma. E o teu rosto novamente nas fotografias do IPhone: Waldemar Bastos (1954-2020).

De súbito voltei a 2013, quando, casualmente te conheci, pela Rádio Cidade. Estatelado no colchão estendido no chão, no quarto da Karl Marx, enquanto o fogão a resistência aquecia a massa com sardinha, ouvi-te.  Lembro-me de levantar-me encantado com a tua poética, a tua guitarra, a tua voz, a tua forma de ser triste.

“Não há poema mais lindo

Não há pintura mais bela

Não há sonho que descreva o pôr do sol da minha terra”

cantavas em “Pôr do sol”, inclusa na compilação “Classics of my soul” (2010), gravado em Londres, sob a direcção do maestro Nick Ingman. Era um quadro que me transportava para Chalambe, para Prancha, que eu acabava de deixar para trás.

Chegaste e entraste numa casa em que, na altura, imperavam as vozes de Mia Couto, Rubem Alves e Caetano, o pai do Zeca Veloso. O Jaco Maria ainda não tinha chegado. Mas não era propriamente para Inhambane que eu ia embriagado pela poética, era para dentro de mim e aquelas eram as paisagens que eu conhecia.

A “Teresa Ana” que cantaste, Waldemar, era muito parecida com a tia Maria, que vendia micates num mercadinho que desapareceu, em frente à casa da minha mãe, em Inhambane. O ruído dos carros da Avenida Karl Marx, em frente as Bombas em Maputo, por instantes silenciaram-se para contemplar as imagens que compunhas.

Nunca pude perguntar-te se conheceste Chalambe mas é quase uma certeza que não. Apenas conhecias a nossa forma de ser desgraçados, nos subúrbios das cidades africanas. As tuas composições autobiográficas eram retratos fiéis dos becos, da infância e da existência periférica.

Talvez o Egídio Alves se lembre de quem ia ao futebol com o calção roto no rabo. E tu, Bastos, desenhaste-me uma bola de meia, o nosso xipurri, e como nós, os miúdos lá do bairro que depois do jogo, às vezes, íamos mergulhar na Marginal ou na Prancha, no “Calção Roto”, contas que vocês iam a Lagoa. É uma música que canta a nossa precariedade que na altura não percebemos porque cansados a ser feliz, a ser criança.

Eugénio Lisboa, novamente. Num dos exaustivos ensaios da colectânea “Crónicas da Peste”, descrevia a figura Autor enquanto aquele que acrescenta, seguindo uma tradição militar romana. Não fui o mesmo depois de cruzar com a tua obra, novos imaginários revelaram-se.

Há músicos e músicas que a gente ouve, simplesmente. Outras há, que se acontecem em nós, num cruzamento repentino que se parece com um reencontro de amigos confidentes, muitos anos depois do último abraço. Aos requintes da The London Symphony, és, de facto, “Perto e longe”.

O New York Times reconheceu-te em 1999. Depois de ouvir o álbum “Preta luz [blacklights]”, afirmou: uma das melhores obras da época. Não há cá equívocos. Fizeste o poema. Senão o que é “Sofrimento”?

Outro screen shot confirma: Waldemar Bastos faleceu. Não quero mais saber de noticiários, tornaram-se obituário.

Miguel Luís e Clara Ferreira Alves, lacrimejando Cabo Delgado, Beirute, Bruno, Floyd e outros símbolos, são unânimes no fatalismo, na desesperança: “[sobre o racismo] Ignore quem quiser, mas a verdade é que aconteceu e continuará acontecendo até que, talvez, morra o último preto da face terra” – Miguel Luís.

“Talvez por isto Beirute seja uma cidade de que gosto tanto. Pela resistência, pela coragem, pela inteligência, a ausência de queixume. Os libaneses não se fazem de vítimas, seria uma lista demasiado longa de culpados a arrolar. Desta vez, não estou otimista.” – Clara Ferreira Alves

Waldemar Bastos, felizmente os poetas não morrem…um abraço à Velha Chica.

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