Por trás das câmaras

0
161
Mário Cumabane a gravar um vídeoclip da Selma Uamusse

É fotógrafo, director de vídeos e criativo. Entrou para este universo seguindo o curso natural da vida mas com as imagens, a arte sempre a orbitarem no seu mundo. E para conhecer Mário Cumbana, que já vai apresentar o seu primeiro documentário, no Kugoma, o “Mbenga” registou uma conversa de meia hora, cujos excertos pode ler nas próximas linhas.

Acordou indisposto, na localidade de Nhancoja, no interior de Jangamo, distrito da província de Inhambane. A família preocupada, levou-o para a Cidade de Inhambane. “Nós vivíamos numa zona em que não havia um hospital em condições”, disse o fotógrafo Mário Cumbana. Foi nessa ocasião que pela primeira vez, o rapaz com então sete anos de idade, viu um videoclip e é, no essencial, disso que vive hoje.

Já em “Céu”, na casa do primo que o acolheu, teve o primeiro contacto com a televisão. “Então eu vi um vídeo na TVM e fiquei tipo: poxa, como é que isto é possível?..e deixou-me curioso”, recordou. E mesmo sem o mínimo de condições “para começar a fazer coisas… mas acho que a cena começou ai”, assumiu.

Conversamos na Avenida Lucas Luali, por trás da Escola Secundária Eduardo Mondlane, no bairro Alto Maé, em Maputo. É um dos pontos mais frescos da urbe. Era uma tarde cinzenta, como aliás, habitualmente as são em Julho, com o diferencial da atmosfera deste ano estar infectada pelos receios da pandemia.

O olhar fugidio não disfarça a timidez do jovem de 32 anos, dread locks, estatura média. Gestos espontâneos e outros traços vão nos revelando a simplicidade de Mário Cumabana que, com Ademar Chauque fundou a MAC Creative lines – sobre a qual falaremos mais adiante.

Outro acaso que abriu-lhe portas para prosseguir rumo a esta arte de registar os momentos, eternizar semblantes, foi quando ao perder vaga para continuar a estudar, tinha concluído o nível médio, mudou-se para Maputo.

“Meu irmão fez de tudo para que eu não ficasse lá, desnorteado”, continuou, a contar como sai de Jangamo. Muito cedo o irmão notou a queda de Mário para as artes e matriculou-o na Escola de Artes Visuais.

No recinto escolar, Mário percebeu que haviam pessoas semelhantes a si, com um tipo de sensibilidade menos vulgar. Descobriu-se e permitiu-se ser.

Os fins de semana, alguns no bairro Ferroviário, periferia de Maputo, reunia-se com amigos a gravar vídeos das músicas que gostavam, com telemóveis, essa era a diversão da turma.

“Eles já estavam fartos mas para mim, todos finais de semana eram para filmar” – conta a rir-se ao recordar as primeiras edições, que eram cheias de efeitos desnecessários, comuns nos primeiros passos de qualquer percurso. Nisso aparece um amigo com uma câmara digital, a quem Mário sempre pedia emprestado.

Mário Cumbana trabalhou neste vídeo de Selma Uamusse, gravado em Maputo

A formar-se em Artes têxteis, o criativo iniciou-se no universo das artes, que foram o despertando para outro olhar sobre a realidade. E é na dança que encontra conteúdo para trabalhar a sério.

Era engraçado, recorda. “A minha parceira na dança as vezes chateavam-se porque durante a apresentação, eu estava preocupado com a câmara de filmar, queria ter a certeza que estava a gravar”, contou.

“Nós viajávamos muito para campeonatos fora do país e eu fazia documentários das viagens”, prosseguiu. Trata-se de registos da biografia da Associação dos Atletas de Dança Desportiva – da qual é membro – que escalou Botswana, Lesoto e outros países da região.

Para os olhos brilhantes do apaixonado Mário Cumbana, os ensaios, as viagens tudo era matéria para captar com a câmara. Ainda com a máquina emprestada pelo amigo, que depois foi substituída pela da namorada.

Mário no meio do trabalho

O então professor de artes visuais ia sendo levado pela fotografia, pelo vídeo e nisso percebeu que, como aquele chamado dos espíritos para o curandeirismo, só lhe cabia aceitar o seu destino.

Mário abandonou o emprego estável, o salário fixo e a carreira de professor para libertar essa aptidão revelada na infância, ao ver um vídeo na Televisão de Moçambique.   

Ademar Chauque, colega de dança, ao notar a relação de Cumbane com as imagens sugeriu-lhe a criação de uma empresa e ir a busca de clientes. Nesta conversa e posterior legalização da MAC Creative Lines – que é Mário Cumbana e Ademar Chauque – selava-se um novo começo.

Os primeiros meses foram difíceis, havia se reduzido o rendimento, era preciso fazer cortes nas despesas de casa. Já morava com a parceira. O trabalho e a crença de que era possível viver do sonho foram o combustível para o motor não parar.

Registar concertos

Por uma inclinação natural – “eu sempre gostei de música”, disse – começa a fotografar espectáculos de música. Antes da pandemia era comum vê-lo nas noites do Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo, com a máquina em punho, a caçar o momento do click. Tal qual um sniper, atento a luz, o evoluir da banda, a emoção de cada artista em palco, o calor da música e a reacção da audiência.

“É muita coisa em simultâneo”, reconhece, talvez por isso seja “o trabalho mais intenso que eu faço”, assumiu. É uma labuta que com o passar dos anos vai-se tornando cada vez mais responsável pela consciência de estar a registar ídolos, a documentar a história da música moçambicana.

Documentário sobre música

Reduzi-lo a fotógrafo foi apenas para não ter um intertítulo longo. É que Mário Cumbana dirige vídeos, regista momentos distantes dos palcos.

Com efeito, este ano, irá estrear o seu primeiro documentário, no qual conta a história de uma banda nacional.

Trata-se de um registo que retrata alguns marcos da música urbana nacional, evidenciando a série de influências e caminhos que os moldam, a partir de uma experiência particular.

Sem muitos detalhes, disse-nos que os próximos passos são instalações de vídeo, documentários na direcção de quem pretende edificar uma carreira artística.

“Há coisas que quero fazer há muito mas não me dava tempo, algumas ideias que eu tenho aqui comigo e já não as consigo guardar”, assumiu na entrevista que concedeu ao “Mbenga”.

Desde a revolução de “Thriller” de Michael Jackson, em Dezembro de 1983, quando lançou os 12 minutos de curta-metragem que o vídeo é para os músicos uma extensão independente da sua obra. A produção de um discurso que sustenta a música através de imagens em movimento de lá para cá vai se tornando incontornável.

Com a pandemia, observa Mário Cumabene, muitos artistas perceberam a importância de um vídeo que os apresente, que dê visibilidade ao seu trabalho e a obra. Não obstante a força que o Youtube revelou nos últimos anos, havia músicos que continuavam a ignorar a importância de se divulgar e criar um perfil digital.

“Há casos de músicos que nem uma página de Facebook decente têm”, observou a contar que nota actualmente uma preocupação maior com essas questões. O que, certamente, irá crescer nos próximos meses.

A internet foi uma das maiores beneficiadas pela pandemia da Covid-19. Os artistas, com efeito, passam a, por uma questão de sobrevivência, elaborar melhor a sua presença online.

Além da música, Mário Cumabane tem trabalhado com outros tipos de filmes, virados para outras áreas de interesse, o que, assume, amplia a sua visão do mundo.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here