A linda tristeza do cronista

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Fee bearing image – Cape Town – 140329 – Jaco Maria’s playing at the Kippies stage in the CTICC for the 15th Capt Town Jazz Festival. Photographer: Armand Hough

O manhambana Jaco Maria, vocalista radicado na Cidade do Cabo, é um cronista por excelência, disso é exemplo o álbum The story teller (contador de estórias) – creio que o título seja elucidativo.

O homem contraria os preconceitos de avarentos que pesa sobre a boa gente da minha terra, Inhambane, ao dar tudo de si na música.

O conceito deste álbum é o retrato da sua perigrinação entre as encruzilhadas da vida. É, em certa medida, autobiográfico. Há um incessante humanismo a transbordar nas suas composições, “Khassa Enela” é disso exemplo.

As tramas narradas por Jaco Maria são circunstâncias com as quais, facilmente, se pode esbarrar. “Khassa Enela” é um acto de solidariedade para com um vizinho, igualmente pescador, que a rede hoje foi ao mar só a passeio. Jaco Maria empresta sua voz a um sujeito que diz ao irmão que pode levar parte do seu pescado para alimentar a sua família. Simultaneamente, pode ser a denúncia da precariedade. É como já dizíamos: é apenas a narração do quotidiano.

Várias vezes este cronista foi convidado a emprestar sua voz em projectos de outros músicos, que apostam no estilo Jazz e afro jazz para no seu jeito característico c(o)antar o que vê.

Disso são exemplo, entre outros, Moreira Chonguiça, Cremildo Caifaz, John Hassan, Frank Paco.

Porém é “War and Starvation”, tema integrado no álbum “Echoes from the past” (1997) de Jimmy Dludlu que nos leva a estes apontamentos.

O piano dá a nota introdutora, num estilo de música clássica. Na sequência o prato é tocado de leve, a guitarra vem suave, a voz de Jaco Maria roça a melodia, enquanto a percurssão se faz sentir.

A bateria entra em sintonia, um universo de sons se mistura para um diálogo.

A guerra desta música, resume-se ao conflito de lágrimas divididas entre o prazer de deliciar-se da sonoridade e a dor que a mensagem carrega.

A voz de Jaco, já em pleno, brota a alvorada melódica de uma sonoridade que mexe com a alma, a espinha. A precisão daquela voz pinta a escuridão com notas jazzisticas.

A estória trazida pelo nosso cronista nessa peça é de um contexto de guerra e fome, das consequências que estas trazem consigo. O facto de gente inocente morrer “(be) couse of war – por causa da guerra”, a hipoteca que esta realidade faz do futuro das “little childrens”. Jaco pede paz, que as pessoas se entendam : “let’s forgive and forget what as be done, call me brother and let’s be one”.

Para melhor percebermos o contexto, o cronista anuncia os palcos dessas atrocidades “Ruanda, Burundi, Palestina, [Faixa de] Gaza […]”, despertando aqui que o fenômeno é universal.

Como é seu hábito depois do inglês, a língua universal, volta-se a nós, aos nossos idiomas, ao Chichangana – língua da província de Gaza, sul do país – para tentar elucidar ao ouvinte que há crianças a chorar de fome, “ni pão adzi khoni dza ku khueva tchani a loku dzichilé- nem pão tem para tomar chá ao amanhecer”; os adultos estão a lutar, sem esperança. Denúncia Jaco que ” a tiko dza hellooo”, os irmãos estão a matar-se, conduzindo-nos as imagens bíblicas do apocalipse, (um) do(a) fim(ns) do mundo. O resto da música fica ao cargo da guitarra de Jimmy Dludlu e dos prestimos da sua banda, que a emprestam ainda mais angústia, melancolia.

Esta crónica de Jaco Maria, no álbum de Jimmy Dludlu é hoje o retrato de Cabo Delgado e da região centro de Moçambique aterrorizados pela insurgência/terrorismo e as forças do Nhongo.

Os traumas da guerra dos 16 anos ainda estão vivos em milhares de moçambicanos e depois de quase vinte anos de estabilidade foi a “parte incerta” que agora prossegue com outro rosto e, para agravar, oportunismos religiosos, políticos, ideológicos – sempre a volta do capital – trazem o cantar do cano quente, da catana… Espero pelo dia em que “War and starvation” será apenas uma música de uma memória triste e, ainda assim, bonita.

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