Deixe passar o meu povo!

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Tudo aconteceu ontem, exactamente quando Paizito perdeu o controlo diante das delícias oferecidas na ala dos noivos. O jovem não se conteve, lançou-se aos buffets e apoderou-se de um pouco de tudo o que havia na mesa e na sobremesa, sem pensar nas consequências da sua irresponsabilidade.

O seu talento deixou os convidados fascinados, chegou até a parecer que o fulano se sentia numa verdadeira passarela, quando ao ritmo de uma música clássica, daquelas que marcam o momento da ceia, desfilava sobre o grande tapete vermelho, deitado no meio do salão, com um autêntico Evereste equilibrado nas mãos, mostrando o verdadeiro sentido da fé que move montanhas.

Paizito caminhava normalmente, ligando o foda-se para olhares e comentários maltrapilhos. Em poucos instantes, transformou-se no centro de todas as atenções, até os noivos perderam o protagonismo. Em vez das indumentárias e outros detalhes que dão cor ao ambiente festivo, já se analisava a fisionomia humana, procurando entender que parte do corpo seria capaz de armazenar tanto conteúdo de uma só vez. Alguns, os mais cépticos, cochichavam que, na verdade, uma fracção daquele alimento era destinada aos antepassados, pois, segundo estes, aquele homem representava a ligação entre os vivos e os mortos da família.

Mas outros, aqueles que já o viram actuar noutros palcos, esperavam, ansiosos, pela verdade sobre o que estava prestes a acontecer. Conheciam, e bem, as habilidades de Paizito e não duvidavam das suas capacidades.

A ocasião serviu, igualmente, para Paizito provar a real funcionalidade do estudo das análises combinatórias, já que conseguiu aglomerar diferentes sabores e aromas na mesma equação. Depois da apresentação, o jovem acomodou-se e logo começou o verdadeiro show. Paizito destruiu aquele grande Evereste, em público, usando apenas a força de suas mãos. Cada colherada sabia à incredulidade dos olhares que vinham de todas as direcções, mas, nem por isso, deixou-se abalar. Continuou empenhado na sua nobre missão (afinal não roubara nem fizera mal a quem quer que fosse) até ao fim.

Ao terminar, Paizito levou a mão à testa, sentiu o seu corpo a aquecer. As suas rodovias intestinais ardiam em chamas de pneus e barricadas montadas por cidadãos que faziam greve, reclamando a liberdade, como a única forma de escapar à calamitosa conjugação de carnes (e outras comidas oleosas) com frutas e o tradicional sumo de farinha, comummente usado em festas no sul do país para satisfazer os estômagos mais exigentes.

Tentou resistir, não deixar que os seus admiradores se apercebessem da situação dramática que enfrentava, mas sem sucesso. Olhou ao seu redor, percebeu que a sua legião de fãs ainda existia e continuava com as atenções fixas nele, pois restava saber como é que aquele homem colocaria o seu corpo em pé, após ter sido protagonista de um acto inédito (engolir o monte mais alto do mundo). Dentro de si, os manifestantes marchavam, determinados, exigindo a paz.

A situação complicava-se a cada instante. Paizito transpirava, sentia os grevistas mais próximos da saída. Decidiu levantar-se e, finalmente, ceder diante do caos instalado. Mas já era tarde demais, Paizito foi ao WC acompanhado de moscas que, com os seus zunidos, anunciavam a saída, em debandada, de um povo cuja liberdade outrora tinha sido alienada.

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