“A arte é o que fica”, Heny Matos

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Numa tarde amena, fria, com o sol a distribuir raios pelas janelas da sala. “Começou um festival de música”, disse Heny Matos, a contar a origem da Associação Kulungwana, agremiação de que é Directora Executiva.

A tela do Iphone exibia um rosto estampado por um riso entusiasmado, jovial. Através do Zoom Meeting, ouvimos sobre o Xiquitsi, olhamos para a Colecção Crescente e espreitamos o projecto Kurika.

“Oficialmente, foi criada em 2006, mas começamos em 2005”, contou Heny Matos, “para nos situarmos”, esclareceu. Referia-se ao Festival Internacional de Música de Maputo (FestIMM), cujo alinhamento era, no essencial, de música clássica e o jazz acústico.

Esta celebração da música que revela novos projectos musicais, manteve os mesmos traços curatoriais até 2013, quando a directora da Kulungwana deslocou-se a Lisboa para convidar a “professora Kika”, como era tratada Eldevina  Materula nos corredores do Cinema Scala, para “orquestrar” o projecto.

A oboísta moçambicana e actual ministra da Cultura e Turismo, lecionava nos Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (NEOJIBA), no Brasil, tinha estado na Venezuela para conhecer o projecto social El Sistema, que inspirou o que dirigiu em Maputo.

“[A iniciativa venezuelana é] o projecto-mãe, é nele que todos nós nos inspiramos para fazer este trabalho”, disse a então regente do Xiquitsi, na entrevista que nos concedeu e publicamos no dia 8 de Novembro, de 2019.

Sobre este projecto, de que a professora Kika é Diretora Artística, conforme a ficha disponível no respectivo site, integra jovens de bairros periféricos no universo das artes a partir da música clássica, irá ler mais adiante.    

Malangatana Valente Ngwenya, que esteve no grupo que organizou o FestIMM, em 2005, conta Heny Matos na nossa conversa no Zoom, foi um dos entusiastas da criação da associação. “Ele incentivou porque o primeiro correu bem”, lembrou-se. Dai a decisão de continuar e a decisão de seguir os trâmites legais.

 Não obstante os repentinos e repetidos cortes da conversa devido a conexão fraca da internet, a senhora reformada e cabelo branco, que trabalhou na educação, no Instituto da Indústria Local e em várias áreas nas Nações Unidas em Moçambique, lúcida, recuperava o fio da conversa. Em que momento paraste de ouvir? – perguntava-nos, para não dispersar.

“O Xiquitsi é o nosso maior projecto”, prosseguiu a directora executiva do Xiquitsi, a narrar que o FestIMM, sendo anual soava pouco, havia um sentimento de que podia fazer-se mais. Um festival com três temporadas, talvez.

Kika Materrula

Ao convidar a professora Kika, que já tinha actuado no FestIMM, a oboísta partilhou um sonho. “E nós apostamos no projecto social de formar adolescentes e jovens através de uma orquestra”, contou.

No essencial, a música é o pretexto para emancipar indivíduos que vêm de situações sociais e financeiras difíceis devido a pobreza, depressão entre outros males que afligem a sociedade moçambicana.

“Estamos a criar um cidadão para ser uma pessoa com muitas qualidades…não basta ser um bom músico [há outros valores]”, continuou Heny Matos, a fraca qualidade da internet já nos tinha empurrado para uma chamada no Whatsapp.

Um dos objectivos da “Kulungwana” é levar o Xiquitsi para as outras províncias, de modo a incluir mais moçambicanos na aprendizagem de música. Já houve sessões em Nampula, em Pemba e na cidade da Beira.

A “Colecção Crescente” na galeria na Estação Central dos Caminhos de Ferro

No Maputo pré covid-19, ao fim do dia, desde 2008, eram comuns lançamentos de livros ou, com mais regularidade, a inauguração de uma exposição de fotografia, pintura ou esculturas.

Em frente a, nalgumas vezes, perto de uma centena de pessoas, Heny Matos tomava o microfone para desejar as boas vindas a galeria da Associação Kulungwana, na Estação Central dos Caminhos de Ferro de Moçambique.

“No início era para dar espaço aos artistas, ser um cartão de visitas”, esclarecu-nos. No activo, a agremiação percebeu que “precisavamos de um conceito, então trabalhamos a curadoria”, acrescentou Heny Matos.

Entre as exposições, destaca-se a “Colecção crescente” que surgiu doutra, uma iniciativa sul-africana, na qual a Kulungwana era hospedeira no país.

“O projecto foi um sucesso, depois reunimos os 35 artistas que tinham exposto suas obras a propor a realização de uma mostra independente e a resposta foi sim”, a consequência é que já faz parte da tradição de Maputo, a cada mês de Março essa colectiva.

As pinturas sob madeira prensada, de pequena dimensão, têm o mesmo tamanho e preço. Anualmente a Kulungwana atribui um tema. “Este ano tivemos 100 participantes”, disse Heny Matos

Butcheca : O Fernando Pessoa : 2015, uma das obras que esteve na Colecção Crescente

A exposição, prosseguiu, é uma oportunidade para os artistas exibirem a sua arte e os apreciadores podem adquirir.

“Todos os anos, com um custo comparativamente baixo para a média do mercado, as pessoas podem comprar mais uma e assim a colecção cresce”, disse a directora executiva do Kulungwana, resposta que, aliás, explica a designação “Colecção Crescente”.

Galeria

Trata-se de uma mostra que acontece igualmente na cidade da Beira e fora do país, continuou Heny Matos.

Prémio Mozal: um galardão que ninguém concorre

Em 2018, a comunidade artística, foi surpreendida com o Prémio Mozal, dedicado as artes. É um conceito diferente em que, de forma discreta, especialistas do sector são convidados a seleccionar os artistas que, de alguma forma, destacaram-se positivamente, nas várias disciplinas artísticas.

Heny Matos

“Não é uma competição, o júri acompanha o que está acontecer e com base nisso faz o veredicto”, explicou Heny Matos, a assumir a complexidade do prémio, tendo em conta as especificidades de cada tipo de arte.

A arte é o testamento de um tempo

A Associação Kulungwana faz ainda edição de livros de pesquisas de arte e da cultura moçambicana.

“A arte faz parte de uma sociedade, é o que fica [para a eternidade], as obras literárias; a arte define um povo”, disse Heny Matos que apesar de, voluntariamente, conduzir uma agremiação activa coomo esta, não é artista.

Diferente a corrente que limita a sua percepção de arte ao mero lazer, a directora geral da Kulungwana é da opinião que esta é uma espécie de testemunho ou retrato de um tempo.

É neste contexto que os livros que a Kukungwana chancela tem o objectivo de preservar o legado moçambicano.

“Nós temos músicas que não estão escritas, mas para preserva-las, não só as gravações, nós estamos a trabalhar na sua escrita”, exemplicou Heny Matos.

A outra parte da conversa será publicada amanhã.

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