Kika Materula e Xiquitsi confundem-se

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QUEM, por volta das 15 ou 16.00 horas passa pelo Cinema Scala, na Avenida 25 de Setembro, em Maputo, não imagina que por trás daquele café que perfuma com o aroma do seu expresso constrói-se um sonho que se chama Xiquitsi.

A cada passo rumo ao interior da sala, o “chorar” de um contrabaixo aleatoriamente encaixado por um violino vão se tornando melodias comuns. O roncar dos motores da avenida, gradualmente se dissolve no ar.

Perdendo de vista as crianças e adolescentes que ensaiam no palco, no lado de fora o movimento é ainda maior. Os menores circulam, invariavelmente, levando um instrumento musical consigo.

É um ambiente de família. Professores, facilitadores e outros integrantes da equipa de produção e administração do Xiquitsi orientam as actividades de ensaios e de aulas que decorrem o ano todo.

Somos recebidos então no escritório de Eldevina Materula, ou melhor, professora Kika, como a chamam os alunos nos corredores do Cinema Scala. Ela é a directora Artística e autora do Projecto Xiquitsi.

Depois de fechar o laptop à sua frente, na mesa, a oboísta moçambicana conta que o projecto começou em 2013. Mas sendo mais fiéis aos factos, na verdade, optamos por começar a contagem em 1995, quando uma adolescente de 13 anos foi estudar na Escola Profissional de Música de Évora.

Tendo dado os primeiros passos na Escola Nacional de Música, em Maputo, a ida de Eldevina Materula para Portugal é determinante nesta narrativa. Mas não foi uma opção fácil.

“Tive de sair de perto dos meus pais, obviamente muita coisa ficou para trás, infelizmente”, contou a descrever a sua família como a do tipo tradicional que ainda obedece ao conceito alargado.

Os primos, tios, avós, prossegue, reúnem-se regularmente para convívio. Sair desse meio, para enfrentar uma cultura europeia totalmente diferente da que estava inserida, a mudança de clima, alimentação foi duro.

“Experimentar tudo novo, sozinha não foi fácil”, recorda, a narrar que acabou adaptada e prosseguiu os estudos, tendo feito o nível superior em música. A pós-graduação em performance, na Suécia.  

Salvador da Bahia: Neojiba  

EM contacto com outros músicos de várias partes do mundo acabou surgindo um convite: ir trabalhar nos Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (NEOJIBA), no Brasil.

É um projecto social de inserção através do ensino colectivo de música que, por sua vez é inspirado no El Sistema, “o projecto-mãe, é nele que todos nós nos inspiramos para fazer este trabalho”, disse de Kika Materula.

Ainda nesse contexto viajou à Caracas, na Venezuela, onde conheceu os fundadores da iniciativa que está a replicar-se um pouco por este mundo a fora. Teve a possibilidade de perceber com mais profundidade o respectivo funcionamento.

A oboísta assume que de imediato apaixonou-se pela ideia. Na sequência, uma voz interior insistia: “eu tenho de fazer algo igual em Moçambique, o meu país precisa”. O número de beneficiários do El Sistema a encanta, a iniciativa alcança mais de um milhão de crianças que de outro modo não teriam oportunidade de estudar música gratuitamente e com os melhores músicos do mundo.

“A Orquestra Filarmónica de Berlim, a maior e a melhor, tem alguns músicos a orientar aulas naquele projecto”, referiu Kika Materula que continua docente na Bahia.

O começo em Moçambique

O Xiquitsi integra os projectos da Kulungwana – Associação para o Desenvolvimento Cultural que desde 2005 vinha a organizar anualmente o Festival Internacional de Música de Maputo em colaboração com o Conselho Municipal de Maputo.

Trata-se de um festival que reunia artistas de música clássica e de jazz, moçambicanos e estrangeiros, e providencia master classes para estudantes de música.

Em 2012 a directora executiva da agremiação, Henny Matos, deslocou-se a uma cidade de Portugal para convidar a oboísta a dirigir o festival. Integrando a Orquestra Sinfónica do Porto para além do trabalho no Brasil, sem muitos devaneios respondeu que não.

É nesse contexto que “propus que através deste festival se desenvolvesse a educação, isto é, os músicos que vierem terem de deixar conhecimento para o meu país, em contacto directo com jovens”, revive Kika Materula.

Esse trabalho, prosseguiu, exigiria uma continuidade, daí a proposta de introdução do ensino de orquestras e coros com professores, diariamente, a leccionar. O festival passou a ser uma temporada com três séries que decorrem trimestralmente.

“O objectivo deste modelo é inspirar os alunos e, a longo prazo poderem participar, como, aliás já está acontecer”, esclareceu a directora artística.

Dessa forma, disse Kika, os nacionais que sempre moraram no país começavam a fazer parte. Até porque tinha reparado nos espectáculos que deu em Maputo que a plateia, no princípio era dominada por pessoas de pele branca.

Quebrar muros

O Xiquitsi propôs-se, entre outras missões, a combater o preconceito de que a música não era popular por pertencer as elites. O argumento é que só não é pelo facto das pessoas não terem acesso. “Mas se há pessoas a formar-se e a fazer quebra-se isso”.

Kika conta que no princípio, junto de outros músicos, foi a escolas e a bairros periféricos convidar os alunos e crianças no geral a juntarem-se a iniciativa. E houve afluência.

“Há dias, falava com uma aluna que contou que quando inscreveu-se achou que fosse um concurso de música e quando soube que foi admitida, achou que tivesse ganho mas gradualmente foi percebendo que não e agora passados cinco anos ela seguiu foi a Portugal, continuar a estudar música”, disse a apontar um exemplo de que é só uma questão de dar oportunidade para que se possa conhecer.

A maior ambição, entretanto, não é formar músicos profissionais. É transformar vidas e humanizar mais pessoas através da música.

Num vídeo disponível no You Tube, do primeiro ano em que trabalhou neste modelo, ouve-se Kika Materula a afirmar que: “se não sair daqui nenhum músico, não é uma grande preocupação. Mas se não transformarmos a vida de nenhuma pessoa, termos falhado”.

A directora tem exemplos concretos de mudanças. Relata que, em diferentes áreas que alguns ex-alunos actuam tem estado a ser exemplares e que há músicos a surpreender o mundo como foi, por exemplo, a quando da primeira ópera do projecto: “O Orfeu nos infernos”. 

Olhando para o efeito medicinal e terapêutico da música, contou um episódio de um dos alunos que na sequência de um trauma perdeu a memória e não se comunicava com ninguém.

Ao receber os colegas do Xiquitsi no Hospital Central de Maputo, libertou um riso, voltou a falar e a reagir. “Os médicos pediram que voltássemos lá mais vezes e de certeza voltaremos”, acrescentou.

Precisa de mais espaço

Kika Materula aponta o ingresso de alunos do projecto em universidades europeias como uma das referências de crescimento.

No entanto sente que o Xiquitsi está também a crescer fisicamente o que, gradualmente, vai tornando o espaço do Scala pequeno para o que se pretende e a expectativa é que “alguém nos dê a mão”.

Não obstante continua. Apesar de estarem a leccionar instrumental e de vocal, ainda não há todos os instrumentos necessários.

“Xiquitsi é música, não só clássica”, disse a explicar que os olhos estão na “música feita no país para levar para o mundo”. É por essa razão que integrou instrumentos tradicionais no projecto.

O projecto acaba de adquirir timbales/tímpanos (tambores, como comummente designamos), marimba. Lucas Macuácua e Chey Wa Guni, ambos integrantes da orquestra chope, Timbila Muzimba integram o corpo docente para a “artilharia” tradicional.

Para reforçar a equipa, Kika Materula convidou Aldovino Munguambe, moçambicano residente em Portugal. É responsável pela bateria clássica. Essencialmente com estes profissionais, a expectativa é integrar as composições do folclore na linguagem universal da música, as partituras. Bem como legitimar os seus executores para que o seu conhecimento não vá com eles ao caixão.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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