O Homem é o veneno do mundo (?)

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O veneno do mundo é o Homem que, na sua pretensa superioridade sobre todas as outras espécies da natureza, (des)governa o mundo, sugerem-nos a actriz Ana Magaia e o músico Cheny Wa Gune, na performance que estreou hoje, pelas 18.30, no Facebook do “Franco”.

Numa performance de arrepiar, intitulada “Quando o Mundo virar”, de 24 minutos, a partir de um texto de Paulina Chiziane, adaptado e interpretado por Ana Magaia, que igualmente responsabilizou-se pela dramaturgia, ambos artistas em palco atiram a pedra para o charco onde encaravámos o nosso reflexo.

Através de um diálogo artístico que cruza a dramaturgia e a música, a partir da literatura, o telespectador (internauta? Qual a melhor designação?), “já molhado com a água do charco”, contempla as imagens que o monólogo vai trazendo: o Homem a matar os animais, as plantas, o meio ambiente e aos próprios Homens, por ganância.

Cheny Wa Gune e Ana Magaia

Deus é na peça, tal qual na Bíblia, a salvação do Mundo. É como se houvesse uma intenção de retirar do Homem qualquer possibilidade de, por si só, encontrar um caminho harmonioso para a sua existência. E não deixa de ser uma resignificação simbólica da narrativa da Arca de Nóe, mas desta vez, na redenção, o Criador não devolve á espécie humana o poder de conduzir dos destinos da natureza (se é que essa pretensa crença de que governa não é ilusória).

Quando olhamos, por exemplo, para a praia da Costa do Sol, na orla da cidade de Maputo, reparamos que desde o surto da pandemia do Corona vírus, as suas águas estão mais azuis e as gaivotas voltaram a pousar nas margens. E a razão é simples: ninguém vai lá…

Trata-se, no essencial, de uma prosa sustentada pela esperança da mudança da ordem mundial, na qual, o Homem torna-se subalterno, na expectativa de só desta forma poder perceber e assimilar que a sua espécie é parte de um todo interdependente entre si.

A arquitetura de “Quando o mundo virar” lembra as profecías cristãs, nas quais são apresentadas os maus hábitos e as suas consequências. É uma visão de mundo que estica aquela expectativa que Bertold Bretch, de forma eloquente, eternizou no texto “Aos que virão depois de nós”.

Olhando para a pandemia e todas as suas consequências, concordo com José dos Remedios quando, na notícia que assina no “O País”, em que considera o texto actual, cinco anos depois da sua primeira exibição.

Ana Magaia

Se, como esclarece Cheny Wa Gune na entrevista para a supracitada matéria, a música foi pensada para despertar as emoções, aguçar as sensações de quem vê e preencher o vazio habitado pelo silêncio nos momentos de pausa. Por outro lado respeita o sujeito poético de Paulina, pois, como disse, numa entrevista que publiquei neste portal, para escrever precisa de música. A resposta de Chiziane nem chega a ser de todo surpreendente, se pensarmos nos títulos “O alegre canto da perdiz”, “Balada de amor ao vento”, “Por quem vibram os tambores do além” ou mesmo “Niketche: Uma história de Poligamia”. O som é uma presença permanente na construção literária chizianística. Até porque, no ano passado, Paulina estreou na música, com o álbum “O canto dos escravos”.

Ana Magaia, como nos habituou, viveu o texto numa exibição, na qual transbordou a tranquilidade que a maturidade lhe oferece em palco e a leveza que a interiorização da essência do escrito transmite. Não obstante, a meu ver, a leitura dos papéis que tinha em mãos retirou o charme e diminuiu os movimentos que ajudariam a dar mais drama a cena.

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