Só o Raposo

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Paredes brancas, desbotadas, fios verdes e amarelos nas fissuras que a chuva foi desenhando desde que a dona do quarto perdeu o esposo. Raposo mora ali, naquele quarto de uma janelinha só de vidro, sem ventilação. A porta, já farta de remendos, não disfarça o seu cansaço, ninguém sabe ao certo quantos anos tem, até porque todos os moradores do rés do chão e a maioria dos vizinhos do prédio a encontraram. Ao lado do quarto que arrenda, no fundo do pátio de um prédio, na periferia, a casa de banho que partilha com um professor, quando a empregada não vem, é indescritível.

As paredes interiores do quarto são brancas mas não exatamente brancas, as vezes dá a impressão de terem sido cinzentas e que a palidez deu aquele tom. O roncar da geleira ao lado da botija de gás, à escassos centímetros do fogão limpo porque três dias por semana a Miza vem cozinhar, lavar e arrumar o três por dois metros.

Loiça comprada na Pep, o jarro que espera pelo vinho que nunca chega, os livros amontoam-se no chão. E Raposo, na cama casal, com os pés quase no cesto de roupa suja, observa os seus livros, ignorante da sua precariedade. Fecha os olhos, visualiza um quarto com uma estante, com um espelho na divisão, com os compartimentos da esposa. Um cobertor branco, animado com flores, uma bolsa feminina. Da sala a virem as insistentes vozes da televisão. Ar condicionado e estômago farto. “Não como porque não me apetece”, diz em surdina. Raposo abre os olhos quando o professor bate sua porta, com modos bruscos, porque Raposo esqueceu-se de comprar energia e está tenso. Pagou a diarista na tarde anterior e ficou sem nenhum tostão.

– Bro, de novo acabou Credelec. Qual é a cena Bro, diz o que se passa? Fica bem assim, vizinho? Queres que a malta pare de beber cerveja juntos, vizinho?

Raposo está duro, a garrafa de cerveja que o professor vê no chão, levou fiado na vizinha. Uma garrafa de Heineken. “Esse deve estar a pensar que eu estou bom”, conclui. Desgovernado, solta “um espera, vou ver o que faço”.

Uma mensagem formatada para cinco contactos. “Bro, sorry, estou mal. Emprestas-me uns 100, acabou Credelec”, lê-se no texto que foi em SMS, WhatsApp e Messenger.

 Ela mandou 200. Os pés cruzaram o caminho e tropeçaram na cama que lhes entrelaçou os destinos e ela passou a confidente, parceira, comparsa… E do nada, o estúpido do Rapouso fugiu. Cobarde. Enfim. Ela é que safou Raposo naquela noite.

Deita-se. Beija o último gole da Heineken que postou bem gelada no status do WhatsApp. Recupera aquela foto do hotel, onde, certa vez, por razões de trabalho teve de ir. Arquivou as selfies. Já agora, este episódio dá-se num Sábado qualquer. Foi tudo para o status.

Raposo apaga a lâmpada florescente. A cortina vacila e os raios das lâmpadas do terceiro andar dão directo na sua íris. Esse incômodo, afinal vinha buscar-lhe o sono. Pega no smartphone e visualiza status, o aborrecimento permanece. As supostas piadas não o comovem. E o riso dela invade-lhe a memória. E percebe que é melhor deixar ir. É saudável para os dois.

Conecta o telemóvel ao carregador e repousa-o á sua direita, no canto da cama. Olha à volta, as paredes, o ar abafado, uma aranha atrás da porta, uma barata na escova de dentes e ele só.

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