O drama da dona Cesarina

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Amanhece e os clientes da dona Cesarina vão chegando, paulatinamente, ao bar que funciona nos fundos da casa. São Homens e mulheres de várias idades, muitos deles nem viam a hora do sol nascer, para pularem da cama, deixarem as suas moradas sem antes cumprir sequer as regras básicas de higiene pessoal e rumarem à esquina de bebidas tradicionais mais conhecida da zona. Fala-se por estas bandas que boa parte dos visitantes encontra a paz nas suas vidas afogando as mágoas no teor elevado do álcool que é produzido e vendido naquele local.

A cena repete-se todos os dias. Um a um, acomodam-se em troncos, galões, até mesmo no chão e aguardam pelos serviços da casa. Enquanto esperam, sonecam, roncam, alguns aproveitam para resgatar o tempo de descanso em falta. Em todos os cantos, o bar apresenta revestimentos de simplicidade e improvisos. As lonas verdes, gastas, esticadas e suportadas por estacas, desempenham o papel de paredes, apesar de não obstruírem absolutamente nada do que acontece no interior do estabelecimento. A bebida, depois de passar por um processo de fermentação, é armazenada em grandes tambores de plástico para, posteriormente, ser servida em frascos reaproveitados como copos.

Acontecem os últimos acertos, o cremoso Uputso está quase pronto, daqui a pouco o estabelecimento vai abrir. Enquanto isso, a dona Cesarina termina de lavar os copos e bate palmas, grita alguns nomes, fazendo barulho para acordar os clientes que acabaram dormindo de tanto esperar. De seguida, distribui os copos, um para cada dois. A regra da casa é partilhar. Por aqui, partilha-se tudo: desde a bebida, o cigarro, o hálito, às angústias, tristezas e alegrias do dia-a-dia. Após algumas rodadas, tudo é desabafado, até com gente estranha, o que importa é o laço que os uniu naquele local.

Com uma caneca de dois litros, dona Cesarina extrai do tambor uma porção da bebida cujo teor alcoólico é desconhecido. Observa o Uputso, coloca-o num copo plástico, cheira-o, e despeja todo o conteúdo na boca. Enquanto o líquido desce pelas goelas, a senhora fecha os olhos, cerra os dentes, faz cara feia e o rosto fica enrugado. Ao engolir a bebida, abre os olhos, boceja, sente o peito arder em chamas que descem até ao estômago. Sorri, cada uma das reações que o corpo apresentou indicam que a bebida está pronta para o consumo e logo começa a servir.

Caminha de pés descalços ao encontro dos clientes. Enche cada copo sem entornar sequer uma gota. Quando termina de servir a primeira ronda, já alguns levantam os copos em posição invertida, demostrando que o esvaziaram em tempo record. A senhora torna a servir, com a mesma excitação.

Não pára de chegar mais gente, os copos passam a ser partilhados à três ou à quatro. As conversas multiplicam-se, alguns aproveitam a oportunidade para revelar os problemas do quarto, com suas esposas. Outros falam do emprego que desanda, do dinheiro que a cada dia torna-se num recurso ainda mais escasso. Há, também, quem se preocupe com debates ligados à política, fazer críticas ao sistema, mas sem muita aceitação. Aqui, discutir política, questionar os actos heróicos do partido no poder é o mesmo que ir contra a ordem e estabilidade públicas, é crime.

Dona Cesarina ouve tudo, surpreende-se com certas verdades deixadas escapar. Graças ao negócio, é a pessoa melhor informada sobre os assuntos do quarteirão, na mesma medida que é odiada pela vizinhança. Conhece o drama vivido pelas vizinhas, consideradas sem sal pelos próprios maridos, mas na rua ostentam normalidade, mares de rosas, escondendo duras realidades.

Cesarina analisa a clientela. Todos estão aparentemente risonhos, brindam, riem-se. É nesse instante que ela percebe que tal como aqueles indivíduos, ela também afoga as mágoas no álcool tradicional, mas lamenta o seu próprio caso, por estar sozinha no mundo, sem alguém com quem possa desabafar os seus problemas.

Apesar de viver rodeada de homens, Cesarina é uma senhora solitária, sem filhos, muito menos netos. Desde que o esposo perdera a vida, vítima de xenofobia na vizinha África do Sul, nunca mais quis saber de se juntar alguém novamente, apenas saceia os apetites carnais com alguns dos seus clientes, o que agrava o seu péssimo estatuto social. Vezes sem conta, diferentes mulheres bateram na sua porta, na calada da noite, arrastaram-na pelos cabelos, exigindo os seus cônjuges de volta, que após a bebedeira, encontraram no mesmo local o tão almejado calor feminino. À noite, não prega o olho sem antes consultar o álbum de fotos que conserva lembranças do seu finado.

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