DEVANEIOS SOBRE AS MINHAS ORIGENS, O HIP-HOP E A “NOVA NORMAL”

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Escrito por Ivan Laranjeira – Director do Museu Mafalala

Em plena celebração do mês da criança, a meio da pandemia do Covid 19, bateu uma saudade da minha meninice – as minhas memórias de infância em contraponto a “nova normal” instituída pela corona vírus.

Uma viagem nostálgica ao ritmo dos sons que marcaram uma geração; de quando os hits mais populares eram trazidos pelos Madjonidjoni, nomes como – Soul brothers, Steve Kekana, Sipho Mabuse ou Brenda Fassie – faziam a trilha sonora do nosso reveillon ou quando amiúde os disc-jockeys misturavam as lambadas brasileiras com o zouk das Antilhas. Vivemos através da música épocas, momentos, tristezas, alegrias, lembranças, modas, amores e paixões. Hoje, o compasso do nosso swing exige um distanciamento social. É definido por algoritmos programados e playlists desenvolvidas por start-ups baseadas no Silicon Valley.

Cresci na baixa da cidade de Maputo. Num prédio na esquina das Av. Karl Marx e Av. Zedequias Manganhela – duas importantes figuras políticas para a revolução moçambicana, dois homens de mundos e tempos diferentes mas de convicções fortes e inabaláveis; o primeiro, alemão, pela via da sua doutrina Marxista personificada no clássico da economia política “O Capital” e o segundo, moçambicano, pastor presbiteriano que por via da religião, na clandestinidade, consciencializou e sensibilizou, nas suas homilias, sobre a liberdade, a partir da sua paróquia no Chamanculo.

Ali, bem no centro do centro histórico de Maputo, num quarteirão rodeado de monumentos: a Casa de Ferro, o Bazar Central, a Catedral da Nossa Senhora da Conceição, a Fortaleza de Maputo e há alguns metros do Porto e da Estação dos Caminhos de Ferro – símbolos coloniais e do capitalismo que contrastam com o cruzamento de ideias de Marx e Manganhela. Vivi um período particular da história mundial! Da varanda do meu 4° andar, assisti ao fim da guerra fria e a sucessão de eventos que daí advém: a queda do muro de Berlim e o regresso dos “madgermanes” a Moçambique; o fim do apartheid na África do Sul e a libertação de Mandela; a Copa do Mundo na Itália marcada pelo rugido dos “leões indomáveis” de Roger Milla, as olimpíadas de Barcelona e o show-off do dream team de Michael “Air” Jordan… e a maravilha da TV a cores!!!

Vivi nesse tempo uma maior exposição à economia de mercado e a introdução sem filtros a perspectiva pop do ocidente e ao seu consumismo. Neste período Mc Hammer, Snoop Dogg, Dr. Dre, Da Brat, Kris Kross, Das Efx e Lords of the Underground dominavam as matinés dançantes da “Long Beach”, no Chai.

Entretanto, aqui bem próximo, com o nascimento da Rainbow Nation na África do Sul vibravamos com o “It’s About time” dos Boom Shakas que permitiam-nos uma experiência sonora mais familiar (não fosse a indução natalina dos madjonidjoni); sons híbridos que dão origem ao Kwaito e nos proporcionam uma maior intimidade com o hip-hop. De Portugal, também ouvia-se, a voz da diáspora PALOP : “General D” com “Black Magic Woman” e os Black Company “confirmam” a nova onda musical, no seu álbum de estreia “Geração Rasca”, com hinos como “Toda a noite” e “Pura Ressaca”. Mais tarde, do outro lado do Atlântico, Gabriel Pensador chancela o português como língua franca do hip-hop. Incorporando à batida a importância da mensagem, o fenómeno da rima e o tropicalismo do sotaque. Vivi assim a primeira experiência da globalização e os seus efeitos na música … iniciava-se desta forma a epopeia da cultura hip-hop em mim.

Vivi a minha infância num período particular da nossa jovem história, quando o Centro Cultural Franco-Moçambicano ainda era uma ruína e o Prédio Pot um edifício residencial. Quando nem se quer sonhavamos com a dança desportiva e já competíamos tardes inteiras a Xitchuketa, no Jardim Tunduro; quando do Xirico do meu pai ouvia aos programas do Ndjinguiritana e vibrava com a marrabentinha do Titio Turutão e a parada do Ngoma Moçambique; e quando calçavamos tiganas e todas as sapatilhas eram adidas. Um período que imortalizou o gosto pelas artes em mim, mais não fosse pelo privelégio de habitar o maior parque cultural do país repleto de cinemas, teatros, museus, bibliotecas e centros culturais.

Nunca senti tantas histórias e estórias concentradas por metro quadrado. Paralelo a isto, só o mítico e histórico bairro da Mafalala – bairro de craques da bola, lugar miscigenado, viveiro de artistas, poetas e presidentes. Um bairro encrustado no meu DNA, bairro com ritmo e melodia, bairro das mácuas do tufo, bairro da Marrabenta, do Unsi e dos acordes sem igual de Fany. Uma dicotomia urbana segregada, herança da perspectiva colonial de separação de espaços tal qual a Ilha de Moçambique na sua dinâmica espacial do bairro Museu e do Macuti.

Numa perspectiva global, o centro e a periferia no seu eterno duelo, pelas semelhanças sócio-políticas e culturais em que as cidades foram criadas produziram então os ghettos da arte urbana. Por conseguinte, essa Mafalala é também Harlem, Soweto, Mangueira, Rocinha, Comuna – 13, Sambizanga, Trenchtown e todas as favelas do mundo; semelhanças sócio-espaciais que carregam consigo o génio da criatividade do negro. Não fossem mundialmente os subúrbios os laboratórios da música urbana da actualidade: funk-brasileiro, kuduro, ragga, reggaeton e o nosso pandza para mencionar alguns gêneros. Na verdade, sub-gêneros do estilo criado na 1520 Sedgwick Avenue, Bronx, New York, mesclados com ritmos locais confirmando a efectividade da globalização.

Com as tecnologias de ruptura, a infinidade de gadgets com que nos equipamos, o encurtamento de distâncias, o maior acesso a informação e as redes sociais; vivemos um processo introspectivo e um reposicionamento interessante: a “glocalização”. Nada mais, nada menos que a ocurrência simultânea da particularização e universalização das tendências em sistemas económicos, políticos e sociais contemporâneos. A música duma maneira geral não está imune a isto e o hip-hop em particular revela novas nuances inspiradas na cultura local. Ao ouvirmos Emicida, Criolo ou Marcelo D2 ficamos na dúvida se estamos perante um samba ou rap. Todavia ouvimos e reconhecemos o Brasil no seu som. Aqui, no continente, a Nigéria, numa leva disruptive, apropriando-se do legado do ícon do Afrobeat – Fela Anikulapo Kuti – reinventa o hip-hop pela voz de Tekno, WizKid, Davido e Burnaboy. Exemplos bastante ilucidativos do uso do património musical local como diferencial e a identidade como factor de afirmação no mercado internacional. No contexto das relações internacionais assistimos a uma evidente utilização da música como um elemento de co-opção e Soft Power. O hip-hop mostra-nos isso!

Recorrendo a minha memória, já mais como adolescente, lembro-me da febre do hip-hop em Maputo nos finais dos anos 90 e início de 2000, com grupos como Auto Squad, Broxen, Sky Scrapers, Exemplo, Tropas do Futuro, Beat Crew, Mini Queens, Alize, B.O.C, N.O, Trio Fam, Squad Boss, Flacas & Gringo, Same Blood e vozes femininas como Big Lady, Iveth, Deusa Poética e a saudosa Fat Lara desfilarem a sua classe no “hip-hop time” da Rádio Cidade e fazerem as battles no Txova. Interessante ver a proveniência destes rappers. Num movimento contra a corrente das origens do hip-hop, aqui o gênero surge a partir do centro com representantes da MTL (Matola), LBD (Liberdade), C-dub (COOP), Bairro Central e muito poucos da periferia de Maputo encontravam-se para pôr o mic em chamas todas as tardes de domingo organizadas pela Giant Produções – Gpro. Verdadeira geração de ouro que me deu a possibilidade de ter referências musicais locais enquadradas no contexto da época em que viviamos. Testemunhei por esta via uma das maiores criações da música urbana moçambicana – o surgimento do Pandza e o reacordar da Marrabenta no projecto Mabulu.

Este período ficará para sempre na história na medida em que preenche o hiato deixado pela Orquestra Marrabenta Star e a reinternacionalização e consumo da nossa música.

Impressionava, neste período, acima de tudo, a forma eclética dos rappers, o skill, o flow, o swag, o contributo para um novo léxico, a atitude, a diversidade de temas abordados pelos MC’s, o debate presente entre o underground e o bounce. Seguramente, o hip-hop Moz se destacava como o mais rico da lusofonia!!!

Hoje, volvidos mais de 20 anos, muitos dos integrantes deste movimento continuam no activo. Muitos como rappers’, homens do showbiz e outros noutras lides musicais. Entretanto, em tempo de confinamento a internet tornou-se o maior suporte de entretenimento e difusão musical. Espanta-me que com muita dificuldade encontramos em plataformas como o Deezer, Soundcloud, Youtube, Itunes e Spotify o nosso Hip-hop e a sua diversidade não esteja lá presente. Espanta-me ainda mais a inexistência de websites dos nossos rappers ou sobre o nosso rap. Urge da nossa parte uma maior presença on-line. Isto vale para os rappers e todos os outros artistas. Numa aldeia global onde buscamos o particular o rap moçambicano tem muito para dar e deve reclamar o seu espaço.

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