Texto de Emmy Xis

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Emmy Xis
Emmy Xis

Texto de Emmy Xis

Sete de Abril em casa

FIQUE EM CASA hoje, sete de Abril de todos os anos, crente, confesso, digo-o em garrafais letras de galões de cinco litros que experimentam foices e, embebidas, as palavras nos sacodem dos que ainda hão-de vir e nos levam ao terraço da vanglória: E o amor acaba…
Larga-se a descoberta aos montes, assume-se a estória que ainda não foi contada e por diversas vezes os tecidos talharam vestidos de brilho e de fama desde a infância de olhos postos na tal infâmia. Infinitos tempos se passaram, e acabou o amor?

FIQUE EM CASA o que que confere a imensidão de soluções sem problemas, que revela situações que o pão de forma em testes múltiplos, escolha a escrita do forno nas chamas da lenha que acelera os acepipes da contenda. O que determina o trabalho, não à dança e gritos histéricos de mulheres sem fundamento, o que incita a preguiça aos saltos em direcção ao voo egocêntrico, o que instiga o soluçar de vozes do então paramédico ao sul do presépio de barro.

FIQUE EM CASA quando o vento deixar a sua existência de insistência e fizer suas pernas passar por debaixo da porta de entrada. Quando os espaços vazios em vão se entretiverem em jogos que ninguém perde, que todos são vencedores de uma disputa irrealizável, não por proibição mas por utopia dos pontos de avaliação.

FIQUE EM CASA onde os alicerces perduram a esperança que vê no estrume a horta de alguidar, onde os pedintes se enobrecem, onde a luz se esquenta em braços invisíveis e indizíveis, onde o sol se esquece de amanhecer, onde a lua conta as suas fases em trifásicas árias, onde, aos mil pedaços o espelho parte-se de alegria. Onde os ricos ostentam a sua pobreza e em acústicas peneiras tocam as doze badaladas do tempo. Aqui onde se esmera a solidão dos meus passos, onde se galvaniza a tritura dos moinhos de vento, onde a peste se dissolve pura em efervescentes sais de fruta. Onde as andorinhas adormecem do seu voo equiparado às plumagens da luz, onde os esforços acontecem desafinados do eco da cruz. Lá onde a espera nas horas descansa, onde o perfil dos músicos canta odes de linho almofadado em tricotadas quimeras. Lá onde a vista não alcança e destrói a retina soberba de confiança na alquimia das virgens marias. Onde o vento é brando, onde o gotejo da chuva se escuta de mansinho e dos murmúrios de água escorrendo se fazem adúlteras palavras.

FIQUE EM CASA como as andorinhas e os mosquitos, abrigados onde as visitas os acolhem, onde o caracol do peso se cansa e descansa. Como os turistas que, em tendas de lona de uma só vez, percorrem as distâncias com os pés descalços ao sabor da areia da chuva e de sacola às costas. Como o soldado da avenida que na ração encontra o vazio do estômago e na arma a razão de tanta luta. Que percorre com o capim, feito vento da floresta e mata o irmão porque não sabe quem é o seu pai. Como as formigas que teimam aos ziguezagues a construção de uma casa que não termina e a incessante procura de ração que só é suspensa quando o frio se zanga.

Pintura de João Timane
Pintura de João Timane

FIQUE EM CASA porque há solidão na melhor companhia e a melhor companhia está na solidão, o mastro que avermelha o poema de abraços a proibições, vertigens e invertebrados prejuízos. Solidão que vê no cumprimento de um metro vírgula cinco a medida exacta da pena aos incumprimentos dessa lei marcial imposta para derrubar os sabores e dissabores dos assaltos à vara.

FIQUE EM CASA para não dar ouvidos aos mercadores abíssicos que aos musgos revelam a sua solidão. E em casa nasce o chão líquido dos meus pertences, cresce a solidão dos bons costumes e afloram os tecidos límpidos do mar. Para abastecer o escrutínio de votos em branco para vislumbrar a catequese dos que vão ao altar, para cintar os desgostos do alambique e para acreditar que não sinto a fome que já sinto. Para pôr temo ao infinito golo da vida o golo que o galo falha por aventuradas cantigas por onde ele esgravata de casaco, a calça da moda. Para pôr termo a esse pandemónio de palavras sem cumprimento, soluções sem questionamento, este desdito pelo dito, esta contagem sem padrão, este zumbir sem mosquito, estas alfaces sem aorta que pululam de canteiro em canteiro, de salada em salada na procura da fusão do azeite com o vinagre e da efusão do sal para o temperar.

FIQUE EM CASA
Por glória aos malfeitores de torturas
aos desamores
por avenidas campestres de sacos
depus o almofariz na azinheira
que percorre instâncias sem parar

Por força das circunstâncias, por força do aglomerado e quimérico número de bens na cruz, contudo e sem nada, pela benevolência das dores, pelos pecados dos lenhadores assadores de tartarugas, pelas manchas negras dos leopardos e pelas zebras passadeiras do mar alto. Pelos agricultores de espinhos, estivadores do bem-querer, pela contagem do cronómetro às conversas das virgens cor de papoilas. Por desentender na solidão a campânula de fogo posto que, de certeza em certeza, de mão lavada em mão levada, gritará aos pés sujos e descalços o louvor, a gratidão de tamanha ousadia. Entretanto, paira no ar a inquisição. Vital e decisiva: É a solidão somente sozinha?

Nova ordem emanada
acabou-se a irmandade
nem cultos que ocultam nada
essa é a grande novidade

Não há prantos em funerais
extrai-se a raiz ao Fevereiro
nem que sejam generais
a sós se assistem: o morto e o coveiro

A nova nem é nova assim
o novo nem é novo assim
de raiz herodiana
de caule de Bartolomeu
caem folhas draconianas
nas flores de jasmim
é a hera do amor, sim!

P.S. Posto isto, lavo as minhas mãos para o que o (a) leitor (a), eventualmente, possa pensar sobre as margens do presente texto.

***

Emmy Xis nasce na então Vila Coutinho, actual Ulóngwé, distrito de Angónia, província de Tete, em 1958.
Cursa jornalismo em 1974/1975, tendo trabalhado no Jornal Notícias e colaborado nos semanários “Embodeiro” e “Zambeze”, com a sua coluna denominada “Kunyolanyola”.
É licenciada em Gestão pela Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane. Membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), Emmy Xis tem os seguintes obras publicadas: Espelho (prosa, 2011), patrocinado pelo FUNDAC Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural; Contar Ser Gregos (poesia, 2012), patrocinado pelo BCI, Banco Comercial e de Investimentos; de Sol acções a Sol unções (poesia, 2013); Escritas na Mão do Mar à Ria (poesia, 2015), patrocinado pelo BCI, Banco Comercial e de Investimentos; Cada vez de viver.

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