“UKATI” e “AS CICATRIZES DO AMOR”: O lugar da mulher na sociedade moçambicana – em Marllen e Paulina Chiziane

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Escrito por Belarmino Lovane

Que lugar a mulher ocupa na sociedade? Como que ela é representada na música e na literatura? O presente artigo traz reflexões sobre a representação da mulher na sociedade moçambicana, cantada e rabiscada pela cantora Marllen Preta Negra e escritora Paulina Chiziane, duas personalidades artísticas em moçambique.     

Há um debate universal sobre os papéis sociais atribuídos às mulheres. Nos últimos anos, vários movimentos feministas levaram a cabo um conjunto de campanhas para reflectir sobre estes aspectos. Em África, este debate tem tido outros contornos, dividindo opiniões, algumas mais modernas, outras radicais, tradicionalistas e preservadoras. O estereótipo de mulher submissa, oprimida, delicada, dona de casa, que aceita tudo pelo bem do lar, continua sendo almejado na nossa sociedade, uma realidade também representada na música “Ukati” da cantora Marllen Preta Negra.

Em “Ukati”, que em português significa “Lar”, a cantora desempenha o papel de guardiã da moralidade e dos bons princípios africanos, transmite ensinamentos sobre os cuidados a serem considerados no lar. Em conversa com a filha, que acabara de casar-se, Marllen aconselha-a a preservar o casamento independentemente das dificuldades “O lar exige muita força minha filha…” mesmo que esteja difícil, “aguente firme” “quando estiver no lar, lava loiça, dá banho até os gatos… irão amar-te, irás segurar o lar”, cantou Marlene (2018). Aqui, a artista remete-nos à lógica conservadora sobre o lugar da mulher: sujeita ao regime patriarcal, no qual assume uma posição delimitada impregnada de inferioridade e submissão. Imputa-a a responsabilidade de cultivar o amor, preservar o relacionamento, mesmo que o princípio de reciprocidade não esteja presente.

O lugar da mulher cantado em “Ukati” tem também um viés bíblico, no livro de Efésios 5:22-24 “mulheres, sujeite-se cada uma ao seu marido, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos”. Uma perspectiva que coloca a mulher na posição de “dependência” aos princípios e regras impostas pelo homem.

Numa sociedade tradicional como a nossa, a mulher descrita em “Ukati” é a mais cobiçada pelos homens, respeitada pelas famílias e valorizada pela sociedade. Esta percepção está entrelaçada em vários aspectos culturais, onde as questões como a honra e o prestígio são mais cobradas às mulheres em relação aos homens, daí ser necessário um controle sobre elas, seja através da autoridade masculina ou das balizas culturais hegemônicas.

Para Costa e Guedes (2010), a concepção de uma identidade feminina tradicionalista/conservadora contribuiu para dificultar o seu posicionamento dentro da sociedade moçambicana, entretanto serviu para consolidar os ideais de liberdade defendidos por autores como Paulina Chiziane, que numa visão contemporânea emprega nos seus contos e romances a figura feminina arraigada a pátria e aos costumes de uma terra onde se predomina o patriarcalismo. No conto “As cicatrizes do amor” a autora valoriza a figura feminina através da exteriorização dos seus sentimentos.

Chiziane apresenta-nos no seu conto, a personagem “Maria” e narra o sofrimento que passou em nome da tradição. Grávida, depois de ter tido uma noite de amor com “o homem dos seus sonhos”, Maria é expulsa de casa no “ritual dos galos”, por seu pai, logo que a criança nasce. Abandonada pela família, desprezada por todos os homens, ela escreve com muita garra as linhas do seu próprio destino — “Amarrei a capulana bem firme, com o bebê bem seguro nas costas, jurei: os empecilhos que obstam a minha estrada serão removidos pela minha mão” (CHIZIANE, 2000: 363).

Chiziane confere à personagem “Maria” habilidades que rompem a lógica de dependência apresentada por Marllen e suportada pela lógica tradicionalista moçambicana, da mulher submissa, inferior, sem punho para autodeterminar-se e vencer na vida. Maria jura construir o seu próprio destino, longe das limitações ideológicas, confiando apenas na sua força de vontade para vencer todos os empecilhos.

É verdade que o tipo de mulher representado em Chiziane pode não ser bem vista em grande parte da nossa sociedade, bebedora duma lógica tradicional e conservadora. Porém, parece-me urgente entender que a sociedade evolui e que a cultura molda-se, com o tempo, ganha novas significações. Reconhecendo esta particularidade, será fácil perceber que a representação da mulher trazida pela escritora Paulina Chiziane, não rompe (necessariamente) com a tradição moçambicana, mas sim, submete-nos a perspectiva evolutiva da sociedade e da universalidade da cultura. Ela expõe-nos a lógica dialógica, de um universo no qual habita os costumes da sociedade africana e paralelamente, a modernidade. O que remete-nos à necessidade de estabelecer diálogo entre duas lógicas que aparentemente são antagônicas, mas que, ao mesmo tempo, podem complementar-se, isto é, estabelecer diálogo entre a lógica “mulher socialmente correcta, respeitadora da tradição” e “mulher auto-determinada e independente”. Para tal, a sociedade deverá assumir um conceito evolutivo e holístico da cultura, respeitadora da tradição e amigo da modernidade.

Nota: Actualmente, a mulher tem ocupado um lugar relevante na esfera pública. Porém, o seu lugar dentro do relacionamento continua sendo problemático. Mesmo sendo economicamente independente, com rendimentos separados do marido, continua dependente das decisões do marido em várias questões. A submissão, contínua sendo assumida como um dos parâmetros avaliadores do comportamento da mulher “mais submissão, significa melhor comportamento, portanto, mulher perfeita para casar” (…). Será possível romper esta percepção? Construir uma sociedade estruturalmente equitativa? Que passos podemos seguir? (Cap. II).

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