Doeu dizer Bom dia

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É manhã de quarta-feira, 7 de Abril. A família inteira está em casa, concentrada para fazer valer o feriado. Debaixo do abacateiro estéreo, as brasas do fogão à carvão castigam um frango por todos os pecados que o animal, em vida, cometeu. Com uma colher gigante de dois gumes, a mana Zinha vira o assado, muda-o de posição, levando-o à uma extremidade onde o fogo é mais ardente e derrama sobre o corpo do condenado uma porção do tempero contido numa bacia plástica, confeccionada na fábrica dos chineses, feito à mistura de folhas de louro, óleo, sal, três dentes de alho e duas rodelas de limão exprimidas até à última gota. O fogo é infernal, a carne incha-se, dilata-se, avoluma-se e boceja um cheiro que, rapidamente, expalha-se por todos os lados, chega até a transpor a vedação de espinhosas que marca fronteira com a vizinhança.

O cheiro viajou pelo ar, chegou ao nariz do chefe de família, o sr. Mahumana, que se apaixonou logo ao primeiro inspiro. Com todo o cuidado para não sujar os pés com areia, caminha com estilo em direção ao epicentro do aroma tentador, usando chinelos que há cinco anos conserva sem nenhum arranhão.

Sabe, filha, todos os dias deviam ser feriados das mulheres. Comenta com ironia.

– Porquê, Papá?

– Para podermos descansar a Nhangana de todos os dias. Remata.

A mana Zinha assimila cada uma dessas palavras como um elogio, sabe que é difícil agradar a mente rigorosa e complicada de seu velho pai. Lembra-se das diversas vezes que recebeu rasgados insultos porque um fiozinho de cabelo foi cair justamente no prato imperial, grande, de vidro e de uso exclusivo do velho ditador Mahumana. 

Não se preocupe, Papá vai se esquecer do cheiro à bufo da Couve, do gosto desagradável das folhas da Abóbora, e os seus dentes nunca mais ficarão sujos de Mathapa. Isso, só se Papá deixar dinheiro todos os dias. Devolve, em jeito de provocação.

Sem problemas, filha. Responde, mas está ciente de que, neste período de Estado de Emergência, todos os dias são de folga. Portanto, não pode mais fazer as boladas de espaços para estacionar nas bombas de gasolina, onde trabalha como segurança, o que lhe rendia um a mais para suportar o rancho familiar feito no final de cada mês.

A tranca da porta do quintal bate, faz barulho, a porta abre-se. Da janela da sala, a pequena Tininha assiste à chegada triunfal de sua mãe, quase que arrastando um plástico preto rasgado e um cesto com carvão a transbordar. Curiosa, a menina lança um olhar atento sobre a carga, visualiza duas tampas vermelhas seladas no topo de duas garrafas grandes de refresco suportadas pelo plástico preto na mão esquerda. Juntos, os recipientes armazenam um total cumulativo de quatro litros do líquido gaseificado. Sem perder tempo, a menina corre ao encontro da progenitora, dando-lhe as boas-vindas. Ao ver isto, Mahumana foge, distancia-se dos fogões e dos assuntos de culinária. Dirige-se à varanda, senta-se com o jornal em mãos e abre-o, reassumindo o seu posto de majestade.

Tudo corria normalmente, a hora da ceia aproximava-se com a mesma rapidez que os seus preparativos. Faltava apenas que Paito, o único filho do sexo masculino da casa, fizesse a sua parte, esticar a lona e debaixo dela montar a mesa que vai suportar o peso das comidas e bebidas.  Mas, este, se encontra ainda a dormir, para o desalento de seu pai. Quando os gatos não saem, os ratos ficam na toca e não devem fazer a festa. Está a ser difícil se acostumar às mudanças impostas pelo Estado de Emergência, ainda mais tendo que cumprir a disciplina militar que vigora nesta ditadura, onde está tudo regrado, desde a hora de dormir ao instante que se deve despertar. 

Mais uma vez, Paito acordou tarde. Terá que arcar com as consequências do seu acto reacionário, sabe muito bem, mesmo assim, teima em desafiar a lei, arrisca como se fosse petiscar.  Sai do quarto descamisado, com um fio de saliva seca que parte da boca ao ouvido, e dá de cara com o imperador que está sentado numa cadeira de plástico a ler o jornal. Encarra o seu pai com desafio, sem esconder o medo, ainda não conhece o tratamento penal para o seu comportamento, mas tem a noção de que a insurgência é a pior coisa que um líder que se prese pode admitir. Ao se aperceber da presença do rebelde prevaricador da lei, Mahumana perde o apetite pelas notícias quentes, dobra o jornal, suspira nervoso. O seu orgulho majestático, mais uma vez, foi ferido.

Diante da situação, Mahumana fica sem saber o que fazer. Não sabe se o melhor é simplesmente admoestá-lo, como tantas vezes o fizera, ou tomar medidas mais severas. A verdade é que deve agir para manter a lei, a ordem e a sua autoridade de Mulumuzana, acima de tudo. Vira-se, fica de frente para o seu varão e se questiona. Procura entender onde está o erro, ‘‘talvez seja o facto de ter sido um pai ausente que esteja por detrás da rebeldia de Paito, como também pode ser o exagero nos mimos de sua mãe por ser o único filho Homem ’’, pensa. Recorda-se da sua difícil adolescência, marcada por lembranças das guerras que assistiu, e chega à conclusão de que nos seus tempos, os ouvidos serviam para ouvir. Se não, o corpo é que pagava, mas hoje, o cenário é outro: a forma de vestir, andar, falar, se apresentar diante dos pais, tudo mudou. ‘’Talvez eu deva mesmo aceitar as mudanças e deixar andar’’, conforma-se.Antes de se decidir, levanta-se, coloca o jornal sobre a cadeira, depois arrasta lentamente as duas mãos na superfície da boca, buscando inspiração. Finalmente, a luz aparece no fundo da caverna. Os dois se encarram, um facto que transcende um mero cruzamento de olhares, está mais para um autêntico frente a frente de gerações. O passado e o presente confrontam-se e não encontram semelhanças entre si. Vencido pelas mudanças que o tempo ocasiona, Mahumana rende-se, decide pautar pela paz e consente. Força um sorriso ao mesmo tempo que exprime o seu rebento num abraço ofídico e diz ‘‘Bom dia’’

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