Djoni e magaíças – duas ocorrências na poesia, ficção e música

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Escrito por José dos Remédios

Inundar-te de música.

Inutilizar a palavra. Os instrumentos.

Fundirmo-nos na música do outro. Ah!

Lica Sebastião

Na madrugada do dia 7 deste mês, 200 moçambicanos estiveram retidos na Fronteira da Ponta de Ouro, em Maputo, por retornarem ilegalmente ao país. Motivo do regresso? O lockdown implementado pelo governo sul-africano como estratégia para conter a propagação do Coronavírus, o que há muitos retirou fontes de sustento. O problema sanitário, de facto, é novo, porém não se verifica o mesmo cenário em relação ao movimento dos moçambicanos. Desde que o rand é moeda e Gauteng uma espécie de el dourado, os cidadãos de cá sempre partiram com a esperança de encontrar por lá outro tipo de oportunidade. Muitas vezes, a viagem de ida inicia na juventude, e, depois de algum tempo, termina com resignação.

Certamente, há-de ser pela regularidade do trajecto Moçambique-África do Sul e vice-versa que a música e a literatura moçambicanas exploram, ao longo de vários anos, episódios conducentes a Djoni. “Mufolhe” (5: 12), um dos títulos do álbum Serenata, da Banda Kakana, é um exemplo disso. Na história retratada na música há um moçambicano que se deixa confundir por bons momentos vividos na África do Sul, levando a mulher grávida e a família ao esquecimento. Ao fim de algum tempo, o fascínio acaba e a razão o perturba. Aí surge a saudade, a angústia e o peso de consciência por ter desvalorizado toda uma narrativa ligada à sua origem. Então a personagem apercebe-se que não há dinheiro capaz de comprar o amor, a amizade e a fraternidade. Ou seja, se, por um lado, a África do Sul aparece na música de Kakana como um espaço de satisfação financeira, por outro está configurado como o lugar da deterioração dos mais nobres sentimentos humanos.

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Ainda em “Mufolhe”, à laia de resposta, uma personagem é colocada na história a lembrar ao viajante que o que a família quer dele é a sua presença e o seu amor incondicional, porque, em detrimento de tudo, isso, sim, realmente importa. Esta colocação é muito idêntica à enunciada pelo sujeito poético do poema 23 do livro de terra, vento e fogo, de Lica Sebastião. Os primeiros dois versos do texto da poetisa e artista plástica dizem o seguinte: “Não me tragas flores de Gauteng, bombons recheados./ Não me digas hello! Não cites o Times”. E mais adiante: “Não me tragas nada de Gauteng. Não tragas agasalhos. É verão aqui” (p. 57).

Aparentemente, quem exprime sentimentos no poema de Lica Sebastião é uma entidade feminina, que se dirige a um amor na África do Sul, numa intervenção metonímica, representada pela província de Gauteng, entre as preferidas dos moçambicanos emigrantes. Como se observa na música da Banda Kakana, no poema 23 existe uma figura a repor a ordem no pensamento, valorizando a partilha de emoções afectivas, por isso, desvalorizado prendas que jamais compensam o peso da saudade.

Na música da Banda Kakana e no poema de Lica Sebastião abre-se um túnel de consciência que enleva os sentimentos dos sujeitos para uma dimensão mais imaterial ao nível dos relacionamentos. Assim, a memória da partida torna-se um fardo difícil de suportar, quer para quem viaja, quer para quem fica à espera de um regresso incerto, condicionado a uma realidade supostamente próspera. Essa é a razão de, nos dois casos, quase em jeito de súplica, duas entidades exprimirem o desejo de voltarem a possuir o que a distância revelou terem perdido: a convivência. Portanto, em “Mufolhe” e no poema 23 a nostalgia é o grande requisito responsável por sintonizar aqueles que afinal correspondem a duas faces do mesmo objecto.

Em Assa Matusse, embora o contexto sul-africano também esteja bem descrito através de uma focalização assente num emigrante moçambicano, a narrativa é diferente da apresentada na música da Banda Kakana ou no poema de Lica Sebastião. Em “Nitxixile” (4:57), uma voz revoltada conta como foi menosprezada e humilhada pelos sul-africanos, depois de ter emigrado para o Rand. No caso, a humilhação faz-se com palavras, com ofertas a roçarem a esmola (no sentido mais pejorativo que se pode extrair do termo), com surra e, depois disso, com ordem de expulsão do país. No meio disso, estando já num grau zero do desespero, a personagem emigrante reinventa-se de modo a não permitir ser atingida pelos que a querem mal. Claro está, a música que começa com uma carga de angústia grave, termina com a superação do problema apontado, ao contrário do que se passa em “O regresso do morto”, de Suleiman Cassamo.  

No conto do escritor, Moisés é o protagonista que cedo larga os livros, e, inspirado nos magaíças que via chegar a Manhiça com malas cheias de roupas, mantas e bugigangas, emigra para tentar a sua sorte nas minas. Enquanto a esperança dura, a personagem lá fica a deslumbrar-se com o brilho dos randes, sem dar notícias. Por isso, quando a errada notícia da sua morte chega, a mãe e a família acreditam, vestindo luto em homenagem ao finado-vivo. A verdade surge sete anos depois desse episódio, quando, destroçado, sem mais por que lutar na África do Sul, Moisés decide voltar para casa sem nunca ter concretizado o seu sonho.

Como se denota, no conto publicado em livro há 30 anos há uma história que até hoje se repete em Moçambique. Em aproximadamente duas páginas, Suleiman Cassamo ficciona a realidade de tal ordem verosímil que se chega a sentir emoção das personagens como se fosse parte de quem lê. “Qualquer” leitor nacional pode ter ouvido no plano real a história de um Moisés, o mafunda-Djoni, que ofereceu a juventude às minas sul-africanas em troca de certas expetactivas. Na verdade, “O regresso do morto” é um conto que conserva um período da história de Moçambique, ainda a desenrolar-se.  A esta altura, as perguntas que se colocam são: (i) o que “O regresso do morto” tem a ver com “Nitxixile”, “Mufolhe” e com o poema 23? (ii) O que as quatro obras têm a ver com os 200 moçambicanos detidos na Fronteira da Ponta de Ouro – e, já gora, com os 23 mil moçambicanos regressados da África do Sul entre 23 e 25 de Março –? Uma leitura. A África do Sul pode ser esse lugar de realização de sonhos dos emigrantes nacionais, mas também é um país onde as utopias de muitos deles se destroem, de modo que o regresso à terra natal torna-se um verdadeiro martírio.

Por um lado, lendo-se/ escutando-se os textos/ as músicas de Suleiman Cassamo, Lica Sebastião, Assa Matusse e Banda Kakana facilmente apercebe-se por que situações os moçambicanos humildes passam quando emigram para Djoni. O momento de chegada a esse país, igualmente, é o princípio da construção ou destruição de uma realidade imprevisível. Dependendo de como cada um lida com o que encontra, o passado pode continuar a ser reivindicado com actos ou, pelo contrário, abre-se um ciclo para que entre os espaços geográficos a oporem o emigrante e a sua família as pontes do afecto se quebrem. Os quatro textos ajudam a identificar os factores que em muitos casos impediram e impedem o regresso dos madjoni-djonis à terra-natal.

Por outro, também é possível observar que a África do Sul é um espaço adverso para uma boa parte de moçambicanos, por lá serem alvo de actos xenófobos (“Nitxixile”), por lá aprenderem a desvalorizar o amor dos que lhes esperam (“Mufolhe” e poema 23) e por lá perderem o melhor do que a juventude pode oferecer: a saúde, a esperança e o norte (“O regresso do morto”).

Através da música e da literatura, aqui sente-se parte do que, por analogia, passaram e passam na Djoni os 200 detidos na Ponta do Ouro ou os 23 mil regressados a partir de Ressano Garcia. Suleiman Cassamo, Lica Sebastião, Assa Matusse e Banda Kakana, essencialmente, reconfiguram as lutas daqueles que, já sem acreditarem no seu país, resolvem amar um outro. Entretanto, esse amor nunca é genuíno, alimenta-se pelo materialismo fugidio.

Abrindo um parêntesis curto, na novela burlesca Hinyambaan, João Paulo Borges Coelho goza com a maneira como uma família sul-africana, Odendaal (e, se calhar boa parte dos sul-africanos), pensa de Moçambique e do seu povo. Nisso, a imagem desbotada das autoridades e das infra-estruturas condiz com realidade. Ora, com “Mufolhe”, “Nitxixile”, poema 23 e “O regresso do morto” está a reflexão de como os moçambicanos olham para África do Sul e para o seu próprio país. Aí tecem-se algumas semelhanças: é o que vai mal cá que impulsiona a emigração para aquele território; e é a imagem sempre cintilante de Gauteng que muitas vezes atrai quem não se revê na sua terra. Logo, a partida torna-se apetecível e empolgante. Então, por que não garantir aos moçambicanos o que ao longo de gerações buscam na África do Sul? Talvez seja esta a principal questão das obras da Banda Kakana, Assa Matusse, Lica Sebastião e Suleiman Cassamo, se se lerem conjuntamente.

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