Resistir à fugacidade dos tempos

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Escrito por Inocêncio Albino

Um respeitado amigo solicitou-me, muito recentemente, a escrever algo sugestivo, dialogante com o trágico (?) momento por que a humanidade está passando. Solicitou-me a mim! Justo eu que há um bom par de anos vivo hibernado, em mim mesmo, tentando proteger-me da fugacidade das coisas e das situações. Gente metida à besta, sabendo onde encontrar-me mesmo quando hibernado. Devia-me ter resistido a este como me resisti aos demais assédios do género. Não consegui – talvez por respeito.

Mas… É tudo fugaz! A vida, o amor, a paz, a guerra, a saúde, a música, o namoro, a tragédia, o emprego, a emergência, o casamento, a escola, a vitória, a derrota, o silêncio, o barulho, a comunicação, a segurança, a insegurança, o noivado, as notícias, as dificuldades, a maldade, a bondade, a doença, o consumo, a epidemia, a pandemia… A fugacidade tornou-se o apanágio da contemporaneidade, de tal sorte que tudo o que nos resta fazer é resistir.

A fugacidade é a marca registada dos tempos actuais, e é altamente aclamada que, se você não for funesto, desonesto, superficial, consumista, despenteado, impaciente, imediato, feio, rápido, passageiro, incerto, mau, ardiloso, duas-caras, injusto, corrupto, falso, interesseiro, mentiroso, sex, mil-faces, drogado, penteado, nu, tagarela, embaraçador, incorrecto, ríspido, flexível, decisivo, bonito, malcriado… Você fica vulnerável.

É nisto que a fugacidade das coisas, das situações e dos tempos tornou-me: vulnerável. Como viver, então, ante a possibilidade de me mimetizar com o mal? A resposta é simples: RESISTIR. Mas a resistência não é a norma.

A resistência é um padrão que se tornou desvio quando a fugacidade assumiu a centralidade. É um resquício de um tempo em que resistir era o apanágio dos homens racionais.

Assim, a resistência, ainda que alternativa, é dura, dolorosa, opondo-se – aparentemente – ao brilho fugaz com que a fugacidade contemporânea, fantasia de sucesso, a vida dos seus discípulos.

A partir daí ou da compreensão disto – eu decidi hibernar-me. A hibernação possibilitou-me a, entre outras coisas, aprofundar-me e a redescobrir personagens como Kaspar Hauser. Fugazmente falando, o Enigma de Kaspar Hauser (1974) é um filme alemão, clássico, altamente chato. Aborrecido. Contra corrente. Precisando de gente com tempo e preparada para se aprofundar – em tudo – já que, além de profundo, oferece profundidade às suas audiências.

É um anormal que nos ensina a valorizar o normal, não obstante a espontaneidade com que este último se opera. Um filme que nos ajuda a, entre outras coisas, pensar na possibilidade de o que nós consideramos ser normal, tornar-se inviável, impossível, impraticável – restando-nos apenas a adaptarmo-nos à anormalidade como a ordem válida, porquanto única possibilidade presente.

E aqui, tal como os nossos dias nos sugerem, a ideia e a prática do #FiqueEmCasa, leia um livro, veja um filme, converse e brinque com os seus familiares, vasculhe os seus discos, os seus livros, as suas cartas de amor – para quem um dia as escreveu – cuida do seu jardim, jogue um baralho, faça você mesmo as coisas que passou a vida delegando aos outros, barbeie-se a si próprio, trance os seus cabelos, aprecie a sua carapinha, faça a sua horta, desenvolva aquela habilidade adiada, ame, ame-se mais, olhe para a sua casa, cuide dela, cuide da sua família como ela merece, cuide do seu lar, valorize o seu abrigo, lembre-se de Deus, dê-lhe graças pela vida, disponha do tempo, etc. etc. torna-se um desafio já que a fugacidade com que a vida contemporânea corre não nos permite – e durante muito tempo não nos permitiu -viver tais experiências, com tamanha abundância, como agora podemos.

Eu já não escuto música – pois muito do que hoje (se faz e) se diz ser música é fugaz. E, se eu tivesse que escutar música, para dialogar com este momento – também fugaz – teria de vasculhar no meu baú para reconstruir um possível repertório musical. Ora, isso não é possível pois eu estou fora do tempo, há muito tempo. E não quero voltar ao tempo. Estou hibernado e assim me quero manter para permanecer fora do tempo. Enquanto isso vou me deliciando com a possibilidade de, aos quinze anos de idade, eu, como gente, pessoa humana, pensar na eventualidade de ser a própria impossibilidade – como aconteceu a Kaspar Hauser.

Não ando, não rio, não tenho gostos particulares de nada, não estudo, não estudei, não convivo – mesmo porque não tenho família, amigos, vizinhos muito menos consciência da existência disso -, não reclamo, não elogio, não sinto falta disso! Não visito, não sou visitado, não tenho irmão, não sou irmão de ninguém, não queimo, não aprecio, não sou apreciado, não leio, não vou a lugar nenhum, não faço coisa alguma, não canto, não quero coisa alguma, não digo nada, não saio para lugar nenhum, não entro em lugar nenhum, não sinto nada, não sinto falta de coisa alguma, não consigo fazer coisa alguma, se há ou não há problemas – não me faz diferença nenhuma. Não compro, não vendo, não conheço, não sou conhecido, não pulo, não subo, não preciso, não devo, não levo, não deixo, não uso, não dispo, não acordo e não durmo – e se isso acontece não tenho consciência. Não cumprimento, não sou cumprimentado, não respondo, não esqueço, não me lembro – e se isso acontece também não tenho consciência. Não há dramas, dilemas, sonhos, pesadelos – e se houver, se por um mero acaso os tiver, disso não tenho consciência. Não construo, não destruo, não caso, não descaso, não fornico, não beijo, não sou beijado, não envio, não recebo, não prevarico, não precavejo, não respeito, não desrespeito – e se isso acontece, também não tenho consciência. Não penteio, não despenteio, não planto, não observo, não analiso, não arrumo, não desarrumo, não confundo, não defendo, não escondo, não nego, não aceito, não compito, não erro, não acerto, não bloqueio, não atraso, não me apresso, não cozinho – sobrevivo de pão e água desde a nascença -, por isso, nem disso sinto falta. Não saboreio, não mastigo, engulo, não conduzo, não tropeço, não acidento, não abençoo, não amaldiçoo, não sou abençoado, não sou amaldiçoado, não telefono, não recebo chamadas telefônicas, não articulo palavras, não tenho idioma, não vejo filmes, não escuto músicas, não compro, não vendo, (…), não faço uma série de coisas normais, ainda assim não sou anormal. Enfim… não faço sofrer e não sofro! É assim for, também não tenho consciência disso. Já pensou? Kaspar Hauser viveu assim até à adolescência. Sabendo de nada do que não sabia que necessitava – e, por isso, não necessitava. E disso, Kaspar Hauser também não necessitava, ou, pelo menos, não sabia que necessitava. E assim, foi vivendo! Muitas pessoas – uma maioria esmagadora mesmo – que, hoje, tem tudo o que Kaspar Hauser não tinha, só têm uma regra para se salvar a si e aos outros a quem dizem amar: #FicarEmCasa. E não conseguem cumprir com esta norma tão simples. Kaspar Hauser não tinha norma alguma, ainda assim cumpriu a todas. E se assim for, também não tenho consciência disso.

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