MUDANÇA PRECIPITADA PELA COVID-19 As artes no sistema digital: o futuro é agora!

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EM vários filmes de ficção, para além de uma vasta literatura, a vida humana – numa perspectiva futurista – é dependente de suportes virtuais de comunicação.

Com a Covid-19, essa realidade instalou-se no quotidiano e está a impor actualizações na rotina artística.

Com a circulação nas redes sociais e media tradicional de notícias de uma doença altamente transmissível que está a tomar o mundo, de imediato o sector cultural sentiu o impacto com a diminuição de audiência em eventos abertos.

As sessões de espectáculos de música e de teatro, inauguração e permanência de exposições, lançamentos de livros, entre outras atividades, levaram um golpe profundo, com a constatação de que o isolamento social era a melhor forma de prevenir a propagação da pandemia.

Em Maputo, ainda nas primeiras semanas de Março, as páginas de artistas e de cultura dos media tradicionais, centros culturais, entre outros, gradualmente foram tomadas pela palavra “cancelado”, referindo-se a eventos então previstos para o mês que corria.

Embora o país ainda não tivesse registado até essa altura casos de pessoas infectadas, o que veio acontecer no dia 22 de Março já se previa que Moçambique não escaparia à patologia que rapidamente espalhava-se pelo globo.

Quando o Chefe do Estado, Filipe Nyusi, veio anunciar a restrição de 300 pessoas na partilha do mesmo espaço, não obstante prever-se algo parecido, a notícia caiu como um balde de água fria para o já frágil sector cultural. A situação agravou-se com o decreto presidencial sobre o estado de emergência, que limitou a presença máxima, num mesmo espaço, de 20 pessoas. De um modo geral, a pergunta era: “E agora?”

De forma tímida, os artistas, sobretudo os músicos, foram voluntariamente optando por “lives” nas redes sociais Facebook e Instagram. Nandele Maguni, “beatmeker”, foi um dos impulsionadores deste movimento, realizando uma performance durante três sessões em igual número de dias.

“Eu precisava encontrar uma solução para este momento que não estamos a fazer espectáculos”, disse Maguni, para quem, por outro lado, cabe ao artista estar presente na vida das pessoas, como alento no momento em que mais precisam. “A arte tem esse poder”, acrescentou.

Na sequência, vários outros músicos tomaram o mesmo destino. Os “feeds” de notícias foram tomados por cartazes anunciando “lives” de interpretes, de DJ’s, como Nelson Pateta que tem tocado diferentes géneros musicais.

A partir da sua casa no bairro Choupal “B”, Pateta já exibiu reportórios de reggae, hip hop, música moçambicana, uma homenagem a Tony Django em exibições no Facebook que, como diz o próprio, “é porque a vida não pode parar”.

Em meio a este movimento, uma dúvida tomou alguns sectores: é uma opção financeiramente viável. Nelson Pateta, depois da sessão de reggae que nos permitiu assistir presencialmente, exigindo, desde o primeiro contacto, que respeitássemos o distanciamento social.

Os lives são inclusivos

EM parceria com o Camões – Centro Cultural Português em Maputo, Stewart Sukuma está a realizar “lives”, que se designa “Estamos Juntos em Casa”, uma iniciativa de artes e cultura criada para fazer frente à pandemia do novo coronavírus.

Sukuma convida outros músicos e artistas a partilharem as suas obras e passar uma mensagem não só de prevenção, como também de esperança nestes tempos tão tenebrosos.

As apresentações são feitas em directo e ao vivo a partir da casa de cada interveniente e só com parceiros de convivência diária para as plataformas digitais.

“O objectivo final é o incentivo às artes e cultura com sustentabilidade financeira para os artistas que, de repente, ficaram sem um palco público, contudo, podem contar com palcos virtuais e de maior alcance em termos de divulgação, para dar asas à sua arte”, lê-se no comunicado de imprensa que anuncia o projecto.

Numa conversa pelo Whatsapp, Sukuma disse que está a ser uma experiência completamente inovadora, que o faz perceber a importância do uso das novas tecnologias de comunicação digital.

Prosseguiu referindo tratar-se de um desafio a todos os níveis e com resultados de adesão crescentes, tendo chegado a uma audiência de até 10 mil visualizações.

O autor de “Felismina” explicou que trazer outros artistas é uma maneira de mostrar que neste momento o que realmente importa é estar-se junto.

“[O objectivo é] mostrar que estamos juntos não só para os artistas convidados, como também para quem nos assiste, pois [pretendemos] fazer com que os artistas que ficaram sem trabalho, de repente, tenham algum rendimento por via destes shows”, disse Sukuma.

Reconhecendo que neste formato perde-se o contacto humano que marca o concerto físico, o artista disse que se por um lado há esta limitação, por outro tem as suas vantagens.

“Há outras vantagens, tais como pessoas que nunca sairiam de casa para assistir a um show físico podem vê-lo por esta via e temos acesso cá um público maior, ou seja, esta é uma oportunidade para muitos artistas darem a conhecer o seu trabalho”, explicou o músico.

É financeiramente viável

POR outro lado, sob ponto de vista financeiro, Sukuma entende que, se este formato pegar e os empresários aderirem, é um caminho.

“Temos de habituarmos aos poucos a este formato, vender o nosso produto por via digital, pois esse vai ser o futuro, por exemplo, nós já vamos no sétimo show remunerado”, disse o artista.

O músico vê nisto uma oportunidade também de rever-se a questão dos direitos de autor conexos como uma forma de renda.

É neste contexto que olha para as plataformas como uma opção à escassez em Moçambique, por exemplo, de lojas de CD físico.

“Este é o caminho em todo mundo, é a globalização no seu melhor e Moçambique não pode ficar à margem desta evolução tecnológica, salvaguardando sempre as possibilidades analógicas existentes como plano “B” se algo falha a nível digital”, disse.

Continuou referindo que o trânsito do sistema analógico para o digital é uma realidade e se a classe artística nacional não acompanhar ficará para trás, ultrapassada.

Individualmente, o artista contou que com a Covid-19 ficaram inviabilizadas, uma digressão pela Europa, dez “shows” nacionais e as gravações para um CD novo. “Íamos dar início a segunda temporada do Txopela Moçambique, programa de TV, outros projectos de colaboração, como o Dia da Língua Portuguesa em Lisboa (ontem), a 5 de Maio, foi reestruturado para um show online”, acrescentou.

Música nacional mais consumida no mundo

PAULO Chibanga, director da Modigi, uma entidade moçambicana que licencia a música nacional em plataformas de “streaming” a nível mundial, disse que tem registado um crescente número de consumidores de música moçambicana em várias plataformas.

 “Há mais consumo, até porque há mais pessoas em casa, sobretudo nos países europeus, o que os leva a ouvir mais música e ter de descobrir coisas novas”, disse Chibanga numa conversa ao telefone na tarde de ontem.

Assumiu que o país não é um grande consumidor de música nesse formato, mas não tem dúvida que esta seja um caminho para rentabilizar o trabalho dos músicos.

“É uma chance tanto para o público, assim como para os artistas e promotores”, prosseguiu Paulo Chibanga, considerando o facto de, por exemplo, neste momento não haver trabalho para esta classe e que, mesmo depois, pode ser uma fonte extra de renda.

Destacou o facto de várias iniciativas a nível global estarem a surgir, como, por exemplo, a abertura da Apple para mais países africanos, as “gorjetas” do “spotify”, o “soundcloud” a criar um novo botão para apoiar aos artistas nacionais.

“Em Moçambique uma das plataformas de streaming mais usada é o soundcloud, sobretudo pela nova geração”, disse Paulo Chibanga, defendendo a necessidade de mais nacionais enveredarem por estes suportes de modo a apoiarem os artistas que os têm suportado nestes dias difíceis.

O também director do Festival Azgo não vê viabilidade financeira nos “lives”, a menos que sejam nos modelos seguidos por Jimmy Dludlu, Moreira Chonguiça e Sukuma, que são o de associarem-se a uma marca e/ou a uma estação de televisão. Acredita que esse é o futuro.

Por outro lado, revelou que a Modigi está a dialogar com uma plataforma sul-africana no sentido de exportar as artes nacionais para o mundo, não só a música, pois será possível expor o teatro, entre outras artes.

“É uma janela que se abre do país para o mundo”, concluiu Paulo Chibanga.

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