Crónica de Dorivaldo Manuel

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Dorivaldo Manuel
Dorivaldo Manuel

Texto de Dorivaldo Manuel

O QUE ANTES ERA PU(e)TARIA,  AGORA É POETA

Dourado, depois de constatar o brilho das letras plantadas nas prosas e versos dos, porventura, mestres de pensamentos e escritas (re) criadas, descobrio que antes era pu(e)taria, agora é poeta.

 É putaria ou pu(e)taria?  

– Enxergando bem a conjunção “ou”, penso que há uma resposta óbvia. Decerto, o mais importante é que a interpretação primeiro está nos olhos, depois na fonética e por último na morfologia e semântica.

A palavra putaria ou pu(e)taria não é fogo para queimar os mimosos de críticas. É, deveras, água pura para lavar o hábito de só escrever para subir no céu e cuspir num tom baixo e alto da voz palavras sem expressão conotativa aos deuses das emoções e campeões de aplausos por algo sem eloquência – “PALMAS PARA O PU(e)TARIA”. É desta forma que nasceu a expressão, observando-se no vazio, o poeta que antes era pu(e)taria por não dar valor a crítica e a leitura reprova-se e, apesar de ser um turista dos textos literários, não literários e paraliterários, sente-se ainda embrião e, filosoficamente, cônscio de que na criação de pensamentos e articulações de palavras literárias, quiçá, já criadas pelos clássicos do eterno universo a humildade é relactiva.   

O poeta ou Dourado, como é chamado por nós, um fininho com tendências para engordar, magro no corpo e, talvez, gordo no ego, em 2011, depois de muitos anos, com o desejo de se incorporar a um Movimento Literário, articulou-se ao Movimento Cultural Lev’Arte Angola, e numa visita que fizera ao Movimento dos jovens Literários de Viana, deparou-se com um Jovem robusto, preto e inteligente que o criticou, inexplicavelmente, com arrogância, dizendo-o que “o poema que declamara não era poema”… E, apesar de ser defendido por um jovem cabeçudo, sereno e lúcido do mesmo Movimento, “que o texto era, sim, prosa versificada como os poemas de Alda Lara”, despediu-se com noção de que o Robusto estava certo… E sempre ia declamar poemas no Centro da Juventude, em que os mesmos também iam para se contemplarem de poesia sonora com a geração literária que, hoje, designam-na “de palco”, proporcionando uma justificação, filosoficamente, lúcida à luz dos estudos literários. 

É através da observação desta vontade de estudar, ler sobre os gêneros literários, e refletir, filosoficamente, a lógica das críticas dirigidas aos Pu(e)tarias, que Dourado pensou não mais discutir o indiscutível, mas, somente, ir a busca do saber mutável, que lhe permitiu conceber-se como poeta, e olhar os textos  de um pu(e)taria como se fossem prédios sem pilares, assim como eram os seus textos quando era pu(e)taria.

Desenho de Joaneth
Desenho de Joaneth

O pu(e)taria é um ser que por ser humano sente-se que já é poeta porque do seu ego extrai poesia, é um indivíduo que se diz ser poeta, mas não sabe o que é poesia, poema, estrofe, métrica, verso, rima, recursos de estilo, que não sabe diferenciar um poema de prosa versificada e prosa poética. É um ser despercebido que se deixa levar pela filosofia de viver, escreve o que sente, vive e vê, não se importa com as regras dos gêneros literários (o lírico), apenas se caracteriza como ser livre e escreve versos sem catarse ou estética, coerência, concordância nominal e verbal. Pois, é identificado pela forma como se preocupa em escrever textos longos e livres sem deixar o vazio bem cheio com paupérrimos léxicos, escassez de licença poética e estilos de linguagem fónica, sintática e semântica, que assentam na subjectividade e o mundo interior do sujeito poético para ser arte.

O poeta é aquele que vai além da poesia, escreve em versos um mundo sem nada que o autor da obra mais lida do mundo criou. O pu(e)taria é aquele que é inescapável de se superar e ser um grande poeta, mas é teimoso e, através do seu direito de negar e aceitar, provavelmente, quando ler este texto ofenderá o narrador, como também, efectivamente, pode agradecê-lo pela criatividade ofensiva, que não ofende, mas o educa, quebrando-o o desejo de ser só artista sem estudar ou ler sobre a arte que se propõe fazer e ser.

O que antes era pu(e)taria, agora é poeta, ou seja, eu sou poeta, e os poetas não vivem entre os mais nem os menos, apenas, mediante a sofia poética:

“Vivem sob o mesmo pensamento
Diferenciam-se pelas palavras
E na estrutura do poema”…

Os poetas nem sempre compreendem o que escrevem, pois, sempre escrevem as mesmas temáticas ou pensamentos sobre “amor e todas as coisas do universo”, e através da palavra os poetas diferenciam-se na mensagem ou imagem de alegria e melancolia, cada poeta constrói o seu mundo mediante as estruturas que assentam no número de verso, estrofe, métrica e nas rimas do poema. Portanto, negar é pegado, eu aceito que antes era pu(e)taria, agora sou poeta, e faço dos meus poemas sofismados um mar falível,  em que os peixes mal produzidos podem perecer na voz dos críticos, que deveriam se autocriticar para serem, verdadeiramente, críticos, e se ainda não se criticaram, obviamente, o comer está na mesa, e os que mais devem se servir são  aqueles leitores que ao invés de se sentirem poetas depois de me lerem, sentir-se-ão pu(e)tarias, e a culpa não é do narrador, a culpa é do personagem do texto, que antes era pu(e)taria, agora é poeta, perdoem-me, pu(e)tarias; só quero ajudar!…

***

Dorivaldo Manuel ou “Dorival” nasceu em Angola, na província do Kwanza Norte, a 15 de Setembro de 1992. É professor do ensino médio e formado em Ciência Política, na Universidade Agostinho Neto, Faculdade de Ciências Sociais. Extraescolarmente tem várias formações: é formado em Escrita Criativa e Literária pela Editora Azul e Pedagogia etc. Tem poemas publicados na Antologia Comemorativa do V Encontro de Poetas de Língua Portuguesa “A Poesia do Fado e dos Tambores”, é poeta, cronista e membro do Movimento Cultural e Literário Lev’Arte, ama ler e escrever artigos científicos relacionados a sua área de formação e fazer um casamento prático entre os textos literários e não literários. Não tem obras publicadas, mas pretende publicar obras científicas e literárias (ensaios, contos, poemas e Romances).

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Hirondina Joshua nasceu em Maputo, Moçambique, aos 31 de Maio de 1987. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos. Participou de várias antologias, revistas blog, jornais, colóquios, debates, festivais nacionais e estrangeiras. Tem colaborado com a plataforma mbenga de artes e reflexões fazendo conversas e divulgando textos de autores lusófonos. É co-redatora da revista portuguesa incomunidade. E colunista da revista galega palavra comum onde colabora com ensaios sobre a arte da escrita.

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