Música. Silêncios. Medos

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Escrito por Mélio Tinga

O silêncio é um vazio que dói demasiado a nós homens. Há coisas, obviamente, que preenchem esse vazio. O vazio do silêncio dentro de nós. Não por completo. O fosso do silêncio é de uma dimensão cósmica.

A tentativa de cobrir o silêncio funciona. Enquanto uma terapia para afastar os nossos medos. Uma terapia a que recorremos a vida inteira, escutando a música.

O COVID-19, de certo modo, veio intensificar os nossos medos. Cada um de seu modo. E acho que a música à dose certa acalenta as nossas almas.

Acho o medo uma coisa extremamente íntima. O ponto frágil de qualquer um. Quando partilhamos as músicas do nosso tratamento terapêutico, colocamos o medo à mesa. Acho a música também a nossa forma particular de crer ou ridicularizar o mundo. É sobre nós. Sobre nossos pensamentos. Nos expomos. Como se gritássemos: Ei, vejam, é isto que sou! Miserável, melancólico, crítico, rebelde, triste, feliz, ou raio que o parta. Chega de salamaleques!

Dói-me escutar Ain’t Got No, de Nina Simone. O auge dessa música, a meu ver, é a trecho em que ela Nina canta: Oooooh… Mas o que eu tenho? Escuto com igual dedicação a música Feeling Good.

Nina Simone

Recomendo o albúm Djam Leelii, do músico senegalês Baaba Maal e do guitarrista Mansour Seck. Gravado originalmente em 1984 e lançado em 1989. Tenho um estranho apego pela naturalidade e capacidade de incisão das músicas do grupo The Soil, no seu Nostalgic Moments, acho uma boa terapia.

Repito, com alguma obsessão The Storyteller de Jaco Maria. Escuto EparaKa, como se acordasse novamente para vida. Tem ali um sabor indescritível espalhado pelo álbum, todo ele. Talvez, também alguma ironia.

Jaco Maria

Há manhãs em que acordo Aos Prantos de Letrux, como se algo dentro vivesse disso aquela espécie de reivindicação e rebeldia naquela combinação musical. Lembra-me uma espécie de uma manhã toldada de cinzento e possuída por uma pavorosa trovoada, com a diferença de que nos encontramos dentro de uma casa. Protegidos.

À noite, quando me sinto estranho e duvido da real necessidade da minha existência. Ou talvez quando me sinto alucinado, escuto repetidamente Alucinação – 1976, de Belchior. Bato a cabeça sobre as paredes das perguntas, deixo-me ali, engolir. Lembra-me o cheiro das orquídeas que nunca as levei na mão. Há músicas que a meu ver servem para lembrar cheiros.

Belchior

Desde criança escuto Ringo, e serviu de porta de entrada para muitos outros. Talvez daí o gosto pelo conjunto musical de Robbie Malinga, Zahara, Nathi. Escuto-os com naturalidade, como um braço que ao meu corpo pertence, desde sempre. É um ritmo que, creio, suaviza o doloroso momento em que vivemos hoje.

Nestes dias, às vezes deixo que Jimmy Dludlu, entre com o seu Afrocentric. Ou invoco Gabar Mabote a meio da tarde. Às vezes Otis, à noite. Mastigo com algum gosto Gaia Moçambique, cujo o original foi escrito em 1994, em Lisboa, quando pela primeira vez conheci o planeta terra. Escuto Boss AC, por alguma razão oculta dentro de mim. Talvez para questionar outras possibilidades para o mundo.

Otis

Boss Ac
Jimmy Dludlu

Biografia

MÉLIO TINGA nasceu em Maputo. Escreve prosa ficcional. Publicou “O Voo dos Fantasmas” (Ethale Publishing, 2018), fez parte de “O Hambúrguer que Matou Jorge – Antologia de Contos Criminais Moçambicanos” (Ethale Publishing, 2017). Foi finalis- ta do Prémio 10 de Novembro 2019, com o livro inédito “Outro Dia a Nuvem Evapora”. Dirige o Ventrículo – microjornal de contos. É colaborador permanente da Revista Literatas. Fez-se membro do Movimento Literário Kuphaluxa em 2013. É formado em Educação Visual pela Universidade Pedagógica. Exerce a profissão de designer de comunicação. Às vezes, lecciona no mesmo campo de actuação. É co-fundador da DESIGN Talk e editor da Revista DEZAINE.

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