De novo, amanhecer

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Escrito por Adriano B. Espíndola Santos

Não costumava acordar tão cedo. Olhei para o relógio, marcava 6h50min. Tentei voltar a dormir, puto. Queria continuar na sacanagem com a Jane. Talvez aquela noite tivesse sido a melhor de todas. Uma transa de subir às nuvens, literalmente. No último ato, estávamos confinados no guarda-roupa. Jamais senti tara por isso; mas o inconsciente, sei lá, pode aprontar atrações surreais. Não consegui. Revirei na cama, por sete ou dez vezes, e já me dava nos nervos persistir. Havia, irremediavelmente, despertado. Mil mensagens no celular; foda-se. Ou melhor, pensei em dizer foda-se, não ligar; contudo, esperava mensagens importantes, da Jane, do meu chefe e da minha tia obesa, diabética, Iolanda. Minha tia, solteirona como eu, era a única reminiscência viva de minha raiz. Muito preocupada, ligava todos os dias para saber como estava, quando, na verdade, ela era quem precisava de cuidados. Nesse período de quarentena, fui somente quatro vezes em sua casa, o que gerava uma comoção de sua parte, ao longe chorando por não poder me beijar, abraçar: “Meu filho, se cuide, pelo amor de Deus! Ainda quero um netinho!”. Sempre calhava nesse ponto: um netinho. Não queria ser pai solo. Não tinha pretendente. Não queria, de fato, ser pai. Mas, para não contrariar, dizia que logo, logo, “encomendaria” – como se encomenda um pacote pela internet. Voltando: fui bambeando ao banheiro, escovei os dentes e tentei achar algo que prestasse no YouTube: nada, só gente falando do Covid-19 ou do canalha do presidente. Foda-se. Tomei banho largado no chão, com água quente, pelando, para ver se derretia ou evaporava ali. O despertador tocou. Desconcentrei-me na ligeira meditação-sono. Porra. Enxuguei-me e saí. Meu chefe tinha me mandado seis mensagens. A sensação é que o home-office é um inferno constante, não tem hora nem lugar para acontecer. Não experimento pausa desde que me mudei para o meu apartamento; para trabalhar do meu apartamento. Já tenho dois relatórios atrasados, e as demandas não param de chegar: “Responda ao cliente tal… Prepare um comunicado assim, assado… Envie um pequeno parecer ao cliente especial, fulano de tal dos anzóis pereira…”. Estava para pular do sexto andar, quando dei de cara com a vizinha da frente. Não sabia. Era nova, decerto. Estava muito bem parada e concentrada numa espécie de meditação. Apoiava-se somente com as mãos e, com a mesma presteza, retornava à posição inicial. Tinha um gato que passava pelo seu quadril, alisando; miando também, como se pedisse atenção. Estacionei, curioso e sugado por sua beleza. Ela manobrava, com leveza, um aparelho pelas costas nuas, oscilando pelos seios. O telefone, então, tocou áspero, estridente, com a chamada de urgência que fiz para o número do meu chefe. Havia tirado do silencioso, sem perceber. Não dei importância. Já estava pelo menos trinta minutos atrasado para o trabalho. Foda-se. Não podia perder a cena da vizinha desabotoando o top e desfazendo as amarras do seu corpo. Completamente livre. Aquilo era uma mensagem, convocação. Peguei uma cadeira e a segui no enlace matinal. Ela não conseguia me ver, ou fingia não me ver; ou não se importava. Praticamos os movimentos que intuí serem de ioga. Era como se me chamasse à entrega; uma conexão suprassensorial. Foram, pelo menos, cinquenta minutos desse modo, naquele dia. Foram, pelo menos, três semanas assim, até que a vizinha desapareceu de minhas vistas, sem sobreavisos. Fiquei louco. Podia, quiçá, ser a mãe dos filhos que nunca quis ter e que agora cogitava vagamente. Corri para a portaria do prédio vizinho e o Raimundo, o porteiro, com o qual teria trocado cinco ou seis palavras nesses dez anos em que morava ali, disse que a senhora do sexto andar é sobrinha da dona Tércia; que teria se debandado para o interior para cuidar exatamente da tia e talvez não voltasse mais – isso ele falou com um certo ar de satisfação, notei. Toda manhã, desde aí, acordo pontualmente às sete, para ver se desponta uma luz do 603, do condomínio Solar, da Rua da Alvorada. Daria tudo para amanhecer, de novo, com ela.

Adriano B. Espíndola Santos. Natural de Fortaleza, Ceará. Autor dos livros Flor no caos, 2018 (Desconcertos Editora), e Contículos de dores refratárias, 2020 (Editora Penalux). Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados nas Revistas Berro, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Mallarmargens, Mirada, Pixé, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

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