RESULTADO DE EMERGÊNCIA

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Marito levantou o mais cedo que pôde, antes mesmo do alarme do telemóvel o esfregar os ouvidos. Conseguiu, finalmente, vencer a ressaca de não sair de casa. Ele queria agradar a esposa, preparando um pequeno-almoço à moda do que viu no YouTube. E precisava. Aliás, era um imperativo nacional!

Mas quando galgou a pequena escada que lhe projecta à sala deu de olhos com ela no sofá. E estava acompanhada: uma mala de viagens, uma mochila de costas e um pequeno cesto lotado. Todos estavam aflitos em abandonar a casa, seus pés faziam comichão.

O homem aproximou-se daquela multidão que lhe roubou o trono no sofá. Delicadamente, afastou a mochila para longe dos seus olhos e, com um olhar de raiva, eliminava o cesto que exibia estojos de maquilhagem, uma tonelada de pentes e outros artefactos. Finalmente, olhou para ela. Um ar vazio saía das suas narinas, como chaminés no Golfo Pérsico ou noutra latitude ungida de gelo. Aquele vapor congelou as suas palavras, mas ele tinha que se manter firme:

– Desculpa!

A mulher, em volta da capulana, e com um semblante apagado, distribuía a visão no sujeito com cara despenteada à sua frente. Nem sequer ouvia qualquer ruído.

– Desculpa, meu amor. Perdi a cabeça.

Já eram palavras suficientes para a ofendida pronunciar-se: falar dos seus direitos, da sua emancipação, da valorização das mulheres, do respeito ao outro, da igualdade de género e recordá-lo que estavam em pleno mês da mulher. Mas ela, curiosamente, curvou-se ao bom e (des)agradável silêncio.

– Não faz isso, não me abandona.

Ajeitou a capulana, que aquela hora fazia muito bem o papel de camisola. Lá nas pernas estava tranquilo: as calças jeans, desenhando satisfatoriamente cada concha e as sapatilhas não permitiam que nenhum intruso desobedecesse o calor. Continuou com os lábios cerrados. Era a única vez que Maria não precisou do batom vermelho para sair. Seus lábios estavam nus, sem qualquer revestimento. Bom, as pestanas e as sombrancelhas também encontravam-se descansadas.

– Já terminasse? Posso ir?

– Mas ir para onde, mulher. Ainda é bem cedo e estamos em Estado de Emergência.

– Mas eu tenho uma emergência. Não posso ficar numa casa em que sou agredida.

Sim, Maria, ela mesma, com tudo que lhe caracteriza, tinha ressuscitado. Aliás, aquele mudismo não ia durar para sempre. A não ser que outra pessoa usasse o seu corpo.

– Apenas descontrolei-me. Sabes que que eu nunca fiz isso.

– Esta é a primeira vez de muitas. Sempre começa assim…

O silêncio aterrou na sala novamente. Ela, já com um gesto simpático, disse:

– Acabou, Mário.

Atónito, cabisbaixo, sem palavras, quase sem ar, suando, babando, irreconhecível, clamou por ar:

– Liga a ventoinha, estou a passar mal.

– Ah, não te faças. Eu já vou, sr. Mário. – levantou-se e recolheu as suas coisas. Mas antes de tirar a mochila acidentou-se com o rosto de Marito e, realmente, estava a ficar desfigurado.

Aos gritos, clamou por ajuda:

– Kitaaaaa…

O dia ainda estava a clarear. A velocidade branda dos últimos dias para o aparecimento do sol denunciava a chegada do inverno. Vinha tarde, é verdade, mas já se denotava perto. De certeza, a vizinha e cúmplice ainda estava a dormir, sobretudo nesses dias calamitosos que se vai a lado nenhum.

– Kitaaaaa, socorro!!! – gritou novamente, como forma de espantar o silêncio.

Lá fora, só alguns pássaros podiam ajudar. Tirando isso, mais nada.

Decidiu clamar por ajuda, enquanto limpava a cara do marido que se entulhada de saliva e sim, vendo aquelas falhas de respiração, ligou a ventoinha no número máximo, ajeitando a sua cabeça que já estava caída descontroladamente no sofá.

– O que se passa vizinha? – perguntou uma voz masculina. Não era marido da Kita, mas outro vizinho que se bagunçou com os gritos.

Juntos levaram Marito para o hospital. Nesta caravana, Kita já fazia parte. Encontrou-lhes no portão quando finalmente despertou. Não só ela: uma boa porção do quarteirão entrou no mini-bus do socorrista.

Meia hora depois, veio a informação de que Marito devia ficar internado, sob cuidados intensivos, pois o seu quadro clínico era muito grave. O resultado dos testes, no entanto, saíam em dois dias.

Foram as 48 horas mais penosas para Maria. Antes dela ir ao hospital, no dia dedicado aos resultados, já com o remote-controle na mão, prestes a desligar o televisor, lê no rodapé a notícia de última hora. Em letras berrantes, a correr, estava escrito:

– Os casos positivos do coronavírius subiram de 39 para 40, e a nova contaminação  é de um jovem de 35 anos, moçambicano, residente em Maputo.

Os dedos já não tinham força para segurar o remote e os olhos as lágrimas. Maria caiu de joelhos e desatou em choros.

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