PAPÁ, MAMÃ E TIOS DE EMERGÊNCIA

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Escrito por Elcídio Bila

– Não tenho nada contra. – gritou, Maria, lá da cozinha. O cheiro que fugia da panela denunciava um sabor extraordinário, mas a sua voz não. Que termine assim, sem que a sua voz infecte às panelas, de certeza, disse, Marito, aos seus botões.

Este, de calções mais curtos que as suas cuecas, estava na sala. Uma mão massageava o remote-controle e outra mão, já há 30 minutos, entre risos e outras façanhas, estava grudado à orelha, que já transpirava inclusive.

A voz da reclamação, segundos depois, voltou à acção:

– Mas ainda não ouvi nenhuma chamada à minha família. – disparou Maria. Nesse instante, num acto-reflexo, a tampa da panela beijou o chão.

Ela ajoelhou-se para sacudir a areia que não fazia parte do banquete, mas não deixou a sua irritação cessar:

– Já ligaste para o papá, para a mamã, para o tio Zeca e até para tia Melissa dirigiste uma chamada. Logo aquela cobra. Ligaste para sei lá mais quem, Mário, mas para os teus sogros nem por falha. Esqueceste onde estão os nossos filhos. Se não quiseres ligar por eles não o faça, estás livre, mas queira saber dos teus filhos, pelo menos.

– Chefe, vou te ligar. Deixa tratar um assunto aqui. – despediu-se o homem, esmorecendo o sorriso, enquanto ajeitava as coisas nos seus calções minúsculos para se levantar. Ele sabia que aquela luta devia ser encarrada de frente e só com muito punho e vigor podia ser vencida.

– Maria, este não é o momento para ciúmes…

– Que ciúmes, estás louco?! – interrompeu-lhe a esposa, elevando a voz.

– Tu não podes me obrigar a ligar para os teus pais. Se tu quiseres falar com eles, liga tu. – arriscou, ciente do terror que se avizinhava.

– Marito, não diz isso. Aqueles são os teus pais, como os teus o são para mim. Temos que lhes dar carinho, os quatro, na mesma dose. Tu não podes me mostrar que gostas mais de uns do que de outros?

– Mas donde tiraste tamanha parvoíce? Só fiz algumas chamadas….

– E não ligaste para os meus pais. É óbvio que gostas menos deles.

– Está impossível conversar contigo, Maria. Está impossível. – deu-lhe as costas e regressou para o sofá, onde, certamente, não devia ter deslocado seus ximoloanas”.

Ela, mais agitada, falando com o corpo todo, acusou-lhe:

– Tu não gostas dos meus pais, porque eles nunca quiseram que eu vivesse contigo antes do casamento. Eu sei. Isso até hoje te chateia.

– Estás a misturar assuntos, Maria.

– Não estou, não. Por isso que raras vezes os visitas. Eu vejo teu rosto amarrotado sempre que falo de ir ver os meus pais. Até em festas tu conversas menos.

Sempre que aquele episódio acontece, assim, na mesma medida, a porta de saída é a melhor solução. Mas o coitado não podia ir a lugar nenhum. Não só estava proibido pelo Estado de Emergência, mas também pela quarentena obrigatória. Ele e a esposa estão na lista dos eventuais infectados pelo coronavírus, mesmo que ainda não tenham explodido sintomas.

Olhou pela janela com um semblante revestido de nostalgia, como se pudesse pular o muro para a casa do amigo, o marido da Kita. Pensou, se fosse fim-de-semana dava uma fuga parecida como da última vez. Que sedanassem as consequências. Mas era apenas uma segunda-feira, por sinal, uma das piores da sua vida.

Quando achou que fosse o fim e que ela, definitivamente, tinha trocado a arte da boca pela da cozinha, eis que remata:

– Estou decepcionada contigo. Nunca pensei que pudesses agir assim. E para piorar Marito – ele aumentou atenção à esposa, mesmo que isso lhe custasse uma dor de cabeça insuportável – eu sou filha única. Meus pais quando te conheceram pensaram ter ganhado mais um filho, mas não é o que se nota.

– Afinal, quem te disse que eu não liguei para eles? Quem, criatura?  rebentou o homem.

– Não grita comigo, porque não ligaste, não.

Seguiu a esposa até à cozinha. O celular numa mão e outra o remote-controle pareciam duas pistolas, e ele o bandido que queria, de uma vez por todas, acabar com a vida dela numa rajada de tiros. Pelo menos o seu rosto enrugado denunciava tal atitude.

– Veja isto, sua vaca.

– Sua o quê?

– Olha para isto, pá.

Marito mostrava-lhe as duas chamadas não atendidas feitas para o pai dela e uma mensagem a perguntar como estavam e pedindo que retornasse a chamada. Ela olhou para aquele histórico e aos poucos baixava os ânimos.

– Mas, mas, mas… é que… é assim...

E no fim lembrou-se de um truque:

– E porque não ligaste para a minha mãe?

Ajeitou, Marito, o telemóvel no lava-loiça e chutou a mão rasante para o rosto claro de Maria, que logo ficou esverdeado com pinceladas roxas e uma escuridão cobriu-os os olhos. O som fez um barulho tal que, de seguida, só um terrível silêncio podia reinar na casa.

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