MISSA DE EMERGÊNCIA

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Escrito por Elcídio Bila

Marito, quando se levantou, já no fim da manhã, para ele era o fim do mundo ou parecia ser, não sentiu sua cabeça, apenas toneladas de sei lá o quê querendo lhe amputar a garganta. O coitado tentou milhões de vezes carregar o peso da cabeça, mas não lhe obedeceu até ele, literalmente, arrastar-se a sala. Ali ao lado, a um palmo, nunca ficou tão longe.

Maria, a esposa, que não se sabe se isso ainda era, olhou para o estrago do marido com um desdém tal com o mesmo poder de matar. Ela deve ter pensando, quando aquela serpente riscava o chão até ao sofá, “não vale apena ele já está morto!”

Caiu no sofá com a mesma intensidade que um saco de carvão largado de um camião pousa ao chão, até apertou uma das pernas da esposa, que se mordia de concentração durante a missa de páscoa que estava a ser exibida em directo da TV.

Marito não era muito amigo da igreja, ainda que acreditasse em Deus e arriscasse algumas sentadas com os personagens da bíblia, sobretudo quando lhe viam algumas dores da alma. Às vezes, depois de uma sexta-feira animalesca, o homem cede às investidas de Maria, e juntos seguem andando até à porta da Assembleia de Deus mais próxima do quarteirão.

Ele lá soneca, domingos sim com os olhos fechados domingos sim com os olhos fechados. Só acorda assustado, repetindo o amém dos demais. A esposa até sabe desse mau-jeito com palavra de Deus, mas desconta o fardo, feliz por lhe ter de mãos dadas, às 8h00, indo ter com o Senhor.

Aquele domingo não era muito diferente dos demais que o sujeito apronta até o Diabo ter vontade de lhe arrancar, de joelhos, um autógrafo.

Quando ele, enfim, endireitou-se no assento, Maria fez o que sempre se faz aos rejeitados: pontapeou o homem com força para se manter o mais distante possível.

– O favor de manter distância, seu chimpanzé.

Ele olhou na esposa com calma. Não porque queria mesmo saber o porquê daquele nome, isso não era novidade sempre que se metesse em merdas, mas porque os seus movimentos tinham perdido flexibilidade.

– Só queres me contaminar, aqui. Põe a máscara, senhor!

Quando ele esticou a mão, para pegar no tecido de capulana com fitas brancas nos lados, ela gritou:

– Vai te lavar primeiro, sacana. Não vês que estás porco!

– Não consigo. – chorou Marito.

– Já coloquei água quente na casa de banho e preparei uma sopa. Achas que te vou abandonar por seres um traste?

Um sorriso roto explodiu dos lábios rasgados, enquanto as pernas riscavam o chão à caminho da salvação. Sim, água quente… ou melhor, sopa quente sempre salva um necessitado.

Voltou renovado, cheirando pessoa. Sentou-se delicadamente. Não porque evitava voltar a pisar na esposa, mas porque protegia o seu prato de sopa fumegante, preso na mão direita, como se prende uma musa.

A amizade entre os dois recompôs-se quando ouviram do pastor que era o fim da missa e que uma forma de fazer com que Deus perdoe os pecados dos crentes é enviando o valor do dízimo nas contas bancárias exibidas no rodapé ou nas contas móveis daquela congregação que não ousaram saber o nome. Marito, já de volta a terra, feito Jesus, colocou outro canal, irritado. Maria, mais vivaz, decidiu levar o dedo à tecla vermelha do remoto-controle.

– Precisámos conversar, Senhor Mário. Onde estávas ontem?

– Fui enviar o dízimo pelo M-pesa. – riram-se os dois, como se não tivessem se zangado em nenhum dia na vida.

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