O virtual sem consenso para a nova era

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EM três meses de 2020, o mundo já é outro. A pandemia do covid-19 forçou ao encerramento de espaços sociais com a restrição do número de pessoas a partilhar o mesmo ambiente. As galerias e museus foram afectados com estas medidas repentinas, há exposições trancadas.

De um momento para outro, o coronavírus espalhou-se pelo globo. Foi tudo rápido e encontrou a todos de surpresa, despreparados, não obstante, em 2015 num Ted Talk, Bill Gates, filantropo cuja fundação têm acumulado experiência em epistemologia, ter alertado.

“Se algo matar mais de 10 milhões de pessoas nas próximas décadas, é mais provável que seja um vírus altamente contagioso do que uma guerra. Não serão mísseis, mas micróbios”, vaticinou, chamando atenção para o facto de o mundo não estar a preparar-se para enfrenta-la.

Em Maputo, como dominó, os media tradicionais e as redes sociais foram partilhando notícias de encerramento dos museus, galerias, centros culturais, festivais,concertos. Tudo está paralisado.

O Centro Cultural Franco Moçambicano (CCFM) inaugurara, a 10 de Março, a exposição “Se me quiseres conhecer”, do fotógrafo português, residente no país há uma década, Ricardo Franco. No Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM), estava em exibição, até 4 de Abril, a mostra “Desconexão através da conexão”, de Emília Duarte, que trabalha a pintura e experimenta recursos como vídeo.

As exposições permanentes do Museu Nacional de Arte, Núcleo de Arte, as regulares da Fundação Fernando Leite Couto tornam-se inacessíveis. Esta realidade não afecta apenas aos espaços grandes.

Na Estação Central dos Caminhos de Ferro, a pequena galeria da Associação Kulungwana, que previa inaugurar a sua tradicional Colecção Crescente, a 26 de Março, encerrou. São 101 artistas que, pelas circunstâncias não poderão apresentar a sua obra a um público alargado, presente fisicamente.

Um caminho novo

GONÇALO Mabunda, artista plástico e proprietário da Galeria 1834, no Bairro Malhangalene, considera que “seria uma boa ideia criarmos um site para divulgar as artes plásticas e a cultura moçambicana, de modo geral”.

Arquivo pessoal de Telcinia dos Santos

Numa chamada telefónica pelo Whatsapp, nestes tempos de isolamento social, assumiu um olhar optimista. Encara como uma oportunidade, pois as pessoas, em casa, com mais tempo, poderão aprender mais sobre as artes plásticas nacionais e o digital é um caminho nesse sentido.

“Os estrangeiros é que nos consomem, gostaríamos que os nossos compatriotas também apreciassem as nossas obras”, assumiu Gonçalo Mabunda. A humanidade está atravessar um momento, prosseguiu, que se pode aproveitar para dar a conhecer coisas novas, fora daquelas a que as pessoas estão habituadas.

Reconhece que os próximos tempos impõem o desafio da sociedade adaptar-se ao novo mundo, o ter de fazer visitas virtuais a uma exposição e encontrar novos sentidos, que a permitam a fruição estética sem o contacto físico com as obras.

Gonçalo Mabunda adverte que, antes do mais, “temos de capitalizar este momento de isolamento, para reflectir sobre nós mesmos e sobre todos à nossa volta, na humanidade”.

Fachada da Galeria 1834

Tem uma oficina no quintal. Teve de dispensar os seus assistentes. Introduziu novo modelo, passa a ir um por dia.

“Tenho estado a criar e a recuperar trabalhos que, por várias razões, foram ficando esquecidos, a ler uns livros pendentes”, contou Gonçalo Mabunda, revelando que nas suas obras não deixa de explorar temáticas actuais, como a guerra no centro e no norte e esta doença, “porque o artista testemunha o seu tempo”.

Controverso

O SUPLEMENTO cultural do jornal português “Público”, designado “Ípsilon”, da última sexta-feira, mostra que a nível mundial, há uma tendência de apostar-se nas visitas virtuais, às chamadas Online Viewing Rooms.

Curadores, coleccionadores e artistas ainda divergem nesta opção. Alguns consideram que essa rápida resposta ainda precisa ser pensada, recordando que o contacto físico com as obras é parte importante do processo de assimilação da mesma.

A Art Basel Hong Kong deu o pontapé de saída, iniciando uma mostra online, encarando-a como uma proposta para o futuro. É como se vaticinasse que o futuro assim será.

Conforme o “New York Times”, a galeria David Zwirner está a partilhar a sua plataforma digital com doze pequenas galerias nova-iorquinas que não dispõem de meios para investir em exposições virtuais, enquanto se mantêm encerradas.

“Ainda é demasiado cedo para definir o que podem vir a ser os novos modos de exposição numa era pós covid-19”, disse a curadora portuguesa Marta Mestre, em entrevista ao “Ípslon”.

Outro modelo é o do Google Arts & Culture, um site mantido pelo Google em colaboração com museus espalhados por diversos países. Utilizando tecnologia do Street View, o site oferece visitas virtuais gratuitas a algumas das maiores galerias de arte do mundo.

https://artsandculture.google.com/exhibit/sala-prado/UwKi2AMF13rTKA

Ao “transitar” pelas galerias, é possível também visualizar imagens em alta resolução de obras selecionadas de cada museu. Trata-se de um serviço disponível desde Fevereiro de 2011.

O Google Arts and Culture indica que a sua aproximação às instituições não seguiu qualquer direcção curadorial, e cada museu pôde escolher o número de galerias, obras de arte e informações que pretendiam disponibiliza.

Em Abril de 2012 foi lançada a segunda fase do projecto, com o número de acervos digitalizados, passando de 17 para um número superior a 32 mil obras de arte disponíveis. A plataforma agora está disponível em 18 idiomas, incluindo o Português.

https://artsandculture.google.com/exhibit/mem%C3%B3rias-da-pra%C3%A7a/BQKS5t8s-HSDLQ

Moçambique abraça o modelo

O QUE há semanas era o modelo de experiência expositiva e estética, que tem a ver com a presença do objecto e do espectador, esta semana já é completamente ultrapassado, observa Marta Mestre.

Reconhece que antes da pandemia, já havia galerias, museus a seguir nesta direcção. “Por via da globalização, já tínhamos acesso das coisas à distância, mas isso estava sempre ligado à possibilidade de viver a experiência fisicamente”, disse a curadora que trabalha entre o Brasil e Portugal.   

O fotógrafo Ricardo Franco, já antes de toda esta confusão, estava, em paralelo com a exibição “Se me quiseres conhecer”, no CCFM, a mostrar o seu trabalho na sua página do Instagram. A exposição designa-se “Franco no Franco”.

Na entrevista que nos concedeu, faltavam poucos dias para a inauguração, disse que era aquela uma forma de, igualmente, expor as sete mulheres, das 14 que registou, que não puderam estar presentes na galeria, devido ao espaço.

Por outro lado, comentou, era uma forma de atingir um público mais vasto, pois provavelmente houvesse quem quisesse ver o trabalho mas que a geografia era-lhe desfavorável.

O curador e administrador do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Portugal, considera legítimo que os artistas continuem a exibir os seus trabalhos. Até porque há um investimento de tempo, financeiro e emocional por parte desta classe.

A Galeria Kulungwana, em Maputo, distribuiu nas redes sociais um video no qual promove a exposição que estava para lançar. Na sua página do Facebook, no dia 27 do mês passado, anunciou que iria apostar na visita virtual.

“Esteja atento, sempre conectado. Iremos, de forma contínua apresentar a exposição com mais detalhes. Poderá visitar novamente a exposição com mais detalhes quer por via de fotografias, quer de vídeos de cada painel”, lê-se.

Na sequência vê-se o post do texto da curadora Mieke Olderburg, explicando que o tema, “Forças da Natureza”, cujo objectivo é propor reflexão sobre as mudanças climáticas, tendo como mote os desastres naturais “Kenneth” e “Idai”, dois ciclones que devastaram o norte e o centro do país, no ano passado.

Noutra postagem, lê-se Luís Bernardo Honwana, escritor que, na juventude desenhou, a considerar “natural que o impacto do (s) desastre (s) e a sua memória tenham expressão na produção artística contemporânea”.

Na sequência do anúncio do encerramento da Associação, em cumprimento das últimas medidas preventivas anunciadas pelo Chefe de Estado contra o covi-19, prometeram continuar a visita virtual.

“Ao longo das próximas semanas poderão visitar virtualmente a exposição. Iremos postar entrevistas a artistas participantes e criaremos a possibilidade de selecionar e comprar as peças preferidas no nosso catálogo online”, lê-se.

Na sexta-feira serão anunciados os vencedores do novo prémio “Melhor futuro”. E, diariamente, a galeria publica painéis da exposição, respeitando a ordem concebida pela curadoria. As fotografias e vídeos são acompanhados por textos em português e inglês.

Catarina Simão, que desde Fevereiro tinha patente, na Galeria da Avenida da Índia, igualmente em Lisboa, intitulada R-Humor, composta por arquivos em vídeo, fotografias e algumas publicações sobre Moçambique, revelou estar a preparar uma mostra virtual.

Criar circuitos internos nas cidades  

ALAIN Kamal Martial Henry, pesquisador em literatura pós-colonial, também escritor e dramaturgo, num artigo publicado no portal Literatas, intitulado “Covid-19: entre o confinamento e a recuperação das liberdades essenciais” defende, olhando para o futuro das artes e da sociedade, que no pós-pandemia as cidades de Moçambique e outros países pobres criem circuitos internos de consumo da sua arte, de um modo geral.

“Será uma questão de pensar na cidade como local de humanização e valorização do endógeno”, escreveu. “A nova cidade deve deixar um lugar importante para os artistas do país, deve se organizar em torno dos verdadeiros valores dos grupos sociais locais, deve torná-los visíveis para que a preocupação com a transmissão das humanidades pensadas localmente”, prosseguiu.

Alain Kamal Martial Henry é da opinião que, a cidade terá que pensar em sua juventude, antes de tudo, aos estudantes e às estudantes, terá que fazer dela a força viva de renovação de espaços, segundo um modelo inspirado nos grandes homens e mulheres do país.

A urbe deve investir em mais bibliotecas, livrarias, teatro, cinema (local), herança patrimonial.

“Por um lado, as obras de arte e os artistas que as criam, as obras culturais, o património histórico e as obras de conhecimento serão produtos de consumo de outro modelo”, ambiciona.

“Eles tornarão o comércio mais humano e que participará na construção das liberdades humanas”, conclui.

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