AULAS DE EMERGÊNCIA

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Escrito por Elcídio Bila

Já começou a barulheira. – alertou Marito, trombudo.

Ela saía do banho quando, religiosamente,   duas semanas, àquela hora, o celular vestia-se de uma completa fúria: um festival de mensagens.

– Vamos ficar aqui meus bebés, deixem a mãe em paz. Chegou a hora dela.

Marito, num chamamento tradicional, juntava Wezz e Wilma junto do seu controle. Para que não houvesse qualquer distúrbio às aulas da Maria, o marido, sempre amigo, colocava os melhores bonecos. Quando os canais lhe decepcionassem, ou melhor, quando reinasse o descontentamento na dupla, ele seguia pela internet à procura de melhores “limpadores de lágrimas” e outros dilemas.

Já na cama, vazia para o seu bem-estar estudantil, com o celular na mão e o laptop entre as pernas, como se acabasse de o conceber, visualizava o que já se tinha iniciado nas famosas aulas online.

No início, pelos seus maus olhares à tecnologia e por achar um roubo ter que continuar a pagar mensalidade mesmo nesse Estado de Emergência, Maria só acompanhava o debate de outros colegas, e não se atrevia a discar qualquer verbo. Seu marido, a quem a conta da mensalidade vai furar-lhe o bolso, convenceu a amada a não dar para trás em relação às aulas, pois seriam muito úteis logo que a praga do coronavírus evaporasse.

Renitente nos primeiros dias, decidiu ir pelo que o parceiro lhe insistia, visto que podia ter alguma razão e, mais do que a penosa disputa pela razão, seria mesmo ele o sacrificado pelo POS do maldito instituto superior.Então, nada podia ter como desculpa.

Surpreendentemente, pelo terceiro dia consecutivo, a primeira mensagem que encontra do professor de Fundamentos de Marketing não está no grupo criado para as aulas, mas no seu privado. E as mensagens do sujeito andam sempre na ofensiva:

– Olá, Maria. Pensaste no que te disse ontem?

Ela olhou para aquilo atónita, sobretudo porque naquele instante, não se sabe porque cargas de água, ele arrombava a cortina do quarto, aliás, a capulana.

– Sabes onde está o dragão, tem muitos mosquitos na sala?

O celular, descomandado, bateu na sua testa antes de dar um mergulho na bacia das pipocas que tinha puxado para lhe ajudar a entender cada grafia dos seus colegas.

– Assustaste-me, pá.

– Mas porquê te assustas? Achas que vives sozinha?

– Não, não é isso.

– É claro que não devemos te incomodar, mas de vez em quando vamos querer falar contigo.

– Eu sei…

– E depois?!

– Deixa para lá.

Levantou-se, ainda com o peito em batimento violento, à procura de socorrer o marido. Ou melhor, à procura de sesocorrer. 

Doutro lado da sala, ainda com a cara de quem viu o diabo, acendeu no produto fumegante, como uma beata gigante, e colocou perto, mas distante das crianças. Antes de entrar no quarto, tal a pessoa mais preocupada do mundo, saiu, como quem vai buscar algo. Mas só voltou com mais ar no peito, e ainda bem, pois de contrário teria, a seguir, uma dose de enfarte letal.

Quando atravessou a entrada, ainda com movimentos reticentes, encontrou o marido no seu melhor – entre os meninos, rindo desvairadamente das macacadas de Tomy e Jerry. Ou não, rindo de um gato e rato em perseguição industrial, destruindo tudo e todos.

Da ponta dos pés, como se nem ponta tivtivess, como se nem pés até, passou por eles e puxou na capulana fixa pelos pregos para seguir com as suas aulas. 

O intervalo forçado já lhe tinha distraído por completo, embora não tivesse se concentrando em momento algum. Antes de se atirar à cama, olhou para o celular pálido de pipoca, seu computador meio-caído. Queria juntar-se a tripla da risada, mas sabia que Marito não se tinha esquecido das palavras mais dramáticas quando o assunto fosse escola.

Então, ainda que cabisbaixa, voltou ao inferno. Sacudiu a poeira das pipocas na capulana e seguiu as mensagens. Eram, a cada grupo, entre cem e duzentas e pouco. Antes de se atrever em rolar o screen para baixo, decidiu ver o que o seu professor-assanhado tinha lhe escrito.

Quando entrou na conversa, inacreditável o que viu: ela mesma, pelo menos a sua foto de perfil permite pensar que foi ela, continuou a conversa mesmo estando à caça de ar no quintal.

– Pensei. Mas o que tu queres mesmo saber?

– Se aquele beijo significou algo para ti ou não. – respondeu o professor, mesmo ciente de que era uma pergunta velha e moribunda.

 Aquele beijo não significou nada. – respondeu ela. Aliás, o seu WhatsApp.

– Se tu disseste que o amor pelo teu marido tinha esfriado e que já não tinhas a mesma tesão.

– Sério? Eu disse isso? – correspondeu o seu perfil.

– Sim. Será que já não lembras ou estás a gozar comigo.

– Não estou a gozar, só que não sabia mesmo o que a minha esposa tinha falado sobre mim.

– O quê? Não brinca assim, baby.

– Eu sou Mário, marido dela. Quem paga pelo curso que permitiu que tu a beijasses.

Tentou e tentou e tentou rolar, mas já não tinha nada por ler. As lágrimas, essas, existiam aos montes. E mais: uma vontade abismal de se devorar até não sobrar nem uma unha.

De repente, após o fim de quatro capítulos da série, Marito deu por falta da esposa. Seguiu ao quarto para certificar das suas aulas. Quando chegou, encontrou o celular ensanguentado e ela estatelada no chão, inconsciente.

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