I ESPOSA DE EMERGÊNCIA

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Elcídio Bila

– Mariaaaaa!!!

O grito estridente, com um volume agudo, arremessou as paredes ainda revestidas de um ziguezague de cimento sobre os blocos murchos e tombou nos ouvidos cobertos de sono da mãe das crianças.

– Mariouuuu!!!

Voltou o grito, ora mais chato e com velocidade suficiente para fazer voar as chapas de zinco. A sorte (há sempre na pobreza) acabam de ser pregadas com a mesma força que sacode novamente os tímpanos da esposa, ainda estatelada no asfalto do sono.

– Não é possível. – segredou aos seus botões, já conformado.

– Não é possível o quê? – reagiu, franzina, ainda puxando o lençol para engolir a face amarfanhada.

– Afinal estás acordada, amor, só tens prazer de me ouvir aos gritos. – explodiu, Mário.

– Pensei que fosse um sonho.

– Pensaste, Mary? Pensaste?

Instalou-se um silêncio pertinente. Ela sabia que aquele tom, ainda que mais fraco que o seu berro, carregava uma mensagem muito forte. Endireitou-se, no entanto, como um carro que almeja direcção exacta e foi-lhe com as palavras mais serenas que encontrou na cabeceira ao lado:

– O que queres afinal, Marito?

– Marito? Há quanto anos tu não me chamas assim?

– Deixa de drama, homem. Chamaste-me Maria, como se solicitasses uma rapidinha na baixa e eu não fiz esse sururu.

Aterrou outro silêncio, daqueles infernais. Há silêncios… todos sabem, mas aquele que se seguiu é pior que todos os barulhos. E ela, mais cedo, aliás, mais tarde, percebeu-se do clima.

– Meu amor, eu estou cheia de sono. Podemos falar depois?

– Depois? – foi a lenha que o fogo precisava para pegar – eu não tenho depois para comer, meu estômago já não quer depois, eu e o depois acabamos de assinar um pacto de inimizade pior que de Deus e o Diabo.

– Mas quem disse que eles eram inimigos?

–  Por que tu só comentas disparates?! Ajuda-me.

– Estou de todos ouvidos, amor.

– Só quero dois.

– Com carinho não queres, com irritação não queres. Afinal o que queres, Mário?

– Quero que venhas cozinhar.

O silêncio que se viu foi penetrante, capaz de orgasmos infinitos. Pena que a Maria não ficou estimulada. Continuou com o um olho aberto e outro fechado, clamando palavras a um ser invisível.

– Sabe, amor. – sim, já as tinha encontrado. – há uma coisa que sempre me disseste.

– O quê? – retorque a voz densa de outro lado, maqueada de impaciência.

– Sempre disseste que não cozinhavas, pois te faltava tempo, mas sempre quiseste me mostrar que não eras como esses homens que pensam que o lugar da mulher é na cozinha. Agora, para fazer jus a esse pensamento, tens 30 dias em casa, e nem podes sair, cozinha, homem.

Sentou-se na cadeira, visivelmente abatido. A cebola em rodelas, o tomate semi-cortado, a cenoura intacta e o pimento ainda com grãos reclamavam a sua demora na bacia. O fogão já tinha sido ligado, e chutava fogo a uma panela com água, sabe se lá para que efeito, para arroz talvez. Ao seu redor, num compartimento que eles chamam cozinha, já havia folhas de cebola no chão, sangue de peixe e um festival de água e areia dos seus sapatos por todo o lado.

O Wezzy e a Wilma, gêmeos de oito anos, já tinham ido à cozinha umas mil vezes. Se não fossem para entregar a faca era a panela, se não fosse a colher de pau era a bacia, se não fosse o pano para panelas era para escutá-lo a queixar-se que até às onze horas a mãe se espreguiçava na cama.

Fartos, decidiram ir brincar à neca e outras coisas que um quintal reduzido permite. Olhando pela janela, Mário queria saltar aqueles quadradinhos, seria a melhor emoção que pudesse ter do que encher às mãos na panela e mesmo assim não ver resultado nenhum.

Lembra, entretanto, do quão dizia ser fácil preparar um prato e que só não o fazia porque no seu serviço há tanto mais tanto trabalho que não se consegue prestar a homem de cozinha mesmo que morra de vontade.

– Amor, estás aí?

Interrompeu a novela, a esposa.

– Não estou. Como um homem faminto pode estar?!

A senhora, mais velha do que a sua idade, amarrou o que encontrou em frente e seguiu ao compartimento ainda em obras. Estava mais em obras o semblante de um homem derrotado pelas panelas.

Maria viu aquilo e, sem querer, explodiu em risos. O homem, no seu canto, sentado à cadeira, ou melhor, a cadeira sentada nele, cabisbaixo, com uma mão na faca e outra na cerveja, riu-se também, envergonhado.

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