Oito e quinze

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O DIA amanhecia, como todos os outros. Cinzento no meu dentro, com o sol lá fora a sorrir-me a cárie que só me irritava. Às 5.00 horas, por electrónica insistência, como que desesperado de tanto berrar e, em resposta, apenas receber um clique no botão de repetir 10 minutos mais tarde, o alarme não cessava. Não que estivesse a dormir, o certo é que não estava acordado.

Era segunda-feira. Logo, eu que nunca me bati com essas “noias” de segunda-feira, estava indignado só com o facto de o fim-de-semana ter acabado. Indiferente, o dia bocejava. E a segunda ia perdendo a infância da forma precoce que o Verão precipita.

Nos “derrepentes”, pingos de chuva, como se nada fossem, vinham com todos os pesos de quem chora uma dor que já não sabe como encarar para morrer nas minhas chapas de zinco. Um beijo grosso, duro, com a força de todos os cansaços, avisava que não seria um dia fácil.

Deitei-me novamente, não via sentido em molhar a caminho da casa de banho, lá fora. Aí recordei-me que tenho de cobrir o “WC”, a água iria ficar fria num instante debaixo da chuva grossa. Para meu desgosto, a chuva cessou e o sol rasgou as nuvens, derretendo a minha justificação para ficar em casa. Fiz-me à rua ensolarada, mas no meu dentro continuava o cinzento da lua a beijar o mar.

Horas mais tarde. A Sheila, cabisbaixa, contagiava toda a família, deitada no sofá, submersa em lágrimas, não continha o espanto. O seu rosto era um registo de uma selfie que jamais partilharia com ninguém. Há dores eternas. Há dias eternos.

Tomei o chapa na paragem 25 de Junho ou Choupal para os mais novos, como eu – apesar da alma velha. Com volume alto, o Coaster, que vinha de Malhazine indo para o Museu reproduzia mais uma daquelas músicas que só mudam a voz a reclamar ou a exaltar um relacionamento amoroso.

Ocorreu-me que o amor já teve melhor tratamento, um saudosismo que me assusta, pela minha idade. No meu ouvido gritava aquele outro a cantar que “as músicas de amor inventam o amor”. Que tipo de amor inventam estes? Será possível filmar o nosso interior, o dentro, ali no escuro onde esse sentimento realmente acontece? Porque são películas que eles nos transmitem (ou era suposto).

Zás: Desvio do Aeroporto; Inhagoia; Jardim; Junta; Cemitério; Mangueiras; Romos. Em pé no primeiro degrau da escada do Coaster, reparava no Fajardo já frustrado, ninguém descia. Tinha de ajustar-me a cada paragem quando entrasse mais um passageiro. Era preciso diminuir o meu corpo já franzino para que a porta, ao fechar, não me ferisse. Ninguém descia. O Coaster prosseguia. O cobrador insistia que ainda havia espaço, sempre há.

Impropérios à borla eram distribuídos para quem não precisava. E os outros passageiros reforçavam: “apanha táxi se não quer ser incomodado”. Quando o Coaster contornava a rotunda do Alto-Maé, vi a Sheila, caneca, cabelo cacheado e longo, sorridente, a receber a recarga raspada, da mão do vendedor de crédito da esquina.

Seu rosto estava coberto por uma aura de luz, quando percebeu que ele ia na sua direcção. Aprumou (o impossível não existe), o já arrojado sorriso. Ele ia na sua direcção. Ao chegar, nem mais, arrastou-lhe pelo cabelo. Estatuada como o Mondlane que os assistia de braço para o alto e um livro na mão, não sabia fazer nenhum gesto. Ele, mais um Fiódor Mikhailovich, pai dos Karamazov, fazia o seu espectáculo gratuito aos olhos de todos. Vociferava com quem se aproximava. A Sheila deve ter nascido de novo naquele instante, não sabia fazer nenhum gesto. Quando a bofetada encontrou o lado esquerdo do rosto é que despertou, até porque perdeu o controlo do corpo que tombou distribuindo-a no chão do passeio repleto de pedrinhas.

Zás: Belita, Ponto Final, Ronil, Pandora. Sentei-me na Ronil e desci na Pandora, com o meu dentro escuro enquanto o dia ensolarado cá fora beijava a minha testa. “Queria estar a dormir. Grande chatice!”. 8:15 e eu entro às 8:00 horas.

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