Textos de Nina Rizzi

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Nina Rizzi
Nina Rizzi

m.
estou aqui viajei pas trouvé pim e tou aqui um amigo sempre dizia quando eu lhe dizia que estava em viagem traga o que for buscar e eu não trouxe pim c’est-pim perdu pim mas a palavra cascalho também me inunda a boca como lentamente eu gostava de dizer muitas coisas dizer que meu corpo está muito suado e que eu corri por hora e meia e correr é como um trabalho que espero fazer no futuro porque sim eu espero ser carpinteira ainda que não conste em qualquer dicionário a palavra carpinteira e então a minha mente se mantém ocupada apenas dessas coisas da carpintaria e da corrida que coabitam com coisas muito íntimas como um desejo de ver uma certa senhora trouvé pim e falar palavras como cascalho e lentamente e desejos tantos outros que a gente pode se por a deitar quando na carpintaria e na corrida um corpo suado e sem órgãos sem órgãos deve ser um corpo quando não se está a ocupar de coisas que não são a carpintaria e a ordem prática do dia como montar uma exposição com pregos muito grandes pra se pregar num madeirite para quadros de 30×30 um corpo suado e sem órgãos não pode ser uma máquina embora sue como funcionários devem suar com seus órgãos tenho o corpo suado da corrida e sinto cada um dos meus órgãos como se tivesse tragado uma diamba direta de angola e sentisse assim as coisas e o corpo pungentes como devem ser e são mas que esquecemos dado o corpo repleto de órgãos e sinto estes órgãos a querer dizer estas muitas coisas que mesmo suados dentro como se órgãos vivos de um corpo um corpo sem órgãos suassem dentro porque sim suam dentro e digo nesta escrita de um corpo uma voz que se aperfeiçoa em ausente em silente here i am como a música diz essa coisa ausente e tangível como o próprio beatle vivo te tendo os olhos pegados à cara eu disse também que não obstante tenha uma dislexia que ora melhora e agora piora e eu não entendo nada do que dizem tampouco me faço entender eu já disse nosso diálogo é interminável e eu faço yoga como quem faz amor e meu corpo suado tem órgãos prontos muito exatamente prontos à essa coisa tão íntima como o desejo de ver uma certa senhora trouvé pim um corpo suado e pronto a queda a inundação qualquer desastre como coisa que o viva sem órgãos tenho tantas coisas a dizer e é isto o que melhor diz a linguagem anula qualquer possibilidade de clareza e se esvazia e então eu faço um traço com cada músculo de modo a desenhar os órgãos inteiros de um corpo geométrico e exato para o samādhi para o que a linguagem não diz conquanto não seja ruídos jgsgvjyesbkyedbkuecnjtwxnktxnotdvkydbktdvurcjircjudcniraeuckurxnirvktdbidsfjteivsrcotruvdhutubckyejbciyehvcurthcjtygsvheorghrowghrow88hf2o84yho838hgrsughsougherkughelvhsrligelrghelrvhlirvblgerihgeroieghrwligherlighelirbvelirbvelribelgibnelibelibleinbegilgnrwingeçbneçbnelinbleinblenbelinbleinbleinbirehgeirhbelirnblrivbliervblfdvblsidfhwrohterlibjvdçacnbelwuhferugboi45etu35oe8rghwlesngldfnbldfbnldfbnlfkdbnlfdbnldfkbnçejbçdfnvsçroigteçorkgçandfldnbçrelkbhrepgwegnvlrknbdçflnmktojgowehsef2p34urt5poetçhjmblfçsvwgejglrsngfdkbndflhgeligjrsçvndf.kbndlgaaghbelknvfxbnliitjhçtrghlsndvlkfdbndlbdlfnbslfknblfdnbaeçtnbxfvrubguruhjdidvuidvidvdivfivfiufvifuvfiuvfofufduvhvgiruhoo que enfim deixam de intervalar o silêncio e trouvé pim perdu pim

Desenho de Joaneth
Desenho de Joaneth

quando vieres ver um banzo cor de fogo

minhas mãos nunca mais terão tocado a lama
nenhuma sede ou qualquer cheiro

só um souvenir, como precisão
de palavra bonita mais que poema

um e outro relicário:

porque as minhas mãos não
fizeram isto. quiçá o sim, o nome antes

diz-me ainda a minha sinto:

sim, amor e palavras são
para guardar até o quem sabe talvez

ardo uma dicção inventada para dizer
podes sentir o meu abraço?

Desenho de Joaneth
Desenho de Joaneth

«viver não é atravessar um campo» – b. pasternak

coisas vermelhas caem estridentes
sobre a neve compacta

uma cachaça ordinária
meia dúzia de laranjas-lima

paixão
fome

esquizofrenia
abismo

a vida atravessa os dasht-e-luts sanguidolentes
as sibérias impossíveis

o vermelho da gente escorre quieto
sob o deserto

um silêncio de ossos
uma comunhão com o nada

***

Nina Rizzi, escritora, tradutora, pesquisadora, editora e professora; promove laboratórios de escrita criativa com mulheres. Autora de tambores pra n’zinga (multifoco, 2012), A Duração do Deserto (patuá, 2014), geografia dos ossos (douda correria, 2016), quando vieres ver um banzo cor de fogo (patuá, 2017) e sereia no copo d’água (jabuticaba, 2019). É editora das edições ellenismos e coedita a revista escamandro – poesia tradução crítica. escreve regularmente em seu blogue, onde a maioria de seus livros podem ser baixados: http://ninaarizzi.blogspot.com

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