Crónicas de Rubens da Cunha

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Rubens da Cunha | Fotógrafo: Emaxsuel Rodrigues
Rubens da Cunha | Fotógrafo: Emaxsuel Rodrigues

Textos de Rubens da Cunha

O bambu e a poesia

As pessoas que não entendem poesia deveriam ter um bambuzal no jardim. O bambu e a poesia são muito parecidos: neles imperam todos os mistérios da infância, neles se percebe uma linguagem para além do racional. O bambu e a poesia compõem-se como um arco de simbolismo, têm uns verdores pênseis, umas alturas feitas de união. Não existem sozinhos. Neles tudo é composto, coletivo. São castelos que atraem o imaginário. Lá dentro: casa de insetos, de cobras, dos monstros vários da fantasia. Lá dentro, portal para o tempo imóvel do sonho.

O bambu é pouso de pássaros, criadouro de sombras, paragem do vento. Não é à toa que meninos buscam nos bambus suportes para suas pandorgas. O vento é irmão do bambu, nele se solidifica, se esculpe, nele se mascara de visível. Quando o vento quer aparecer, brinca nos entremeios do bambuzal. Pouca coisa é mais música que isto. A poesia tem uma irmã com o mesmo comportamento do vento: a palavra.

No bambu, o colmo oco guarda umas águas que não se sabe de onde. Surge mínimo e em tempo pouco, já domina a paisagem. Depois da bomba em Hiroshima, foram os bambus os primeiros a reverdecer sobre a tragédia. Foram os bambus que trouxeram aos homens o futuro, o nascimento imperioso do continuar sempre. Tudo isso também serve para a poesia.

O bambuzal alastra-se por baixo da terra, é um guerreiro ávido, faminto, vândalo com o solo, seus caules subterrâneos, sempre invasores, sempre trabalhando na busca de novos territórios, não desistem. Talvez por isso, o bambu não floresça. Tanto rouba da terra os nutrientes, que foi castigado a não ter flores. Alguns teimam, revoltam-se, querem sobre si uma primeira e última primavera. Para o bambu, florescer é morrer.

Ainda hoje, os cientistas não compreendem bem este processo. Assim é a poesia, domina os escuros, cresce neles, às vezes aparece aos olhos e é apenas bela e necessária. Outras vezes, é mais corajosa, vai além, floresce para alma. Sacrifica o entendimento, quer ser um cosmo onde nada pode ser aprisionado pela razão. Onde tudo é feito para acariciar os sentidos.

A poesia e o bambu são empórios de surpresas: deles saem flautas, varas de pescar, móveis, alimentos para os homens e para os lêmures, combustível, papel, estão no Taj-Mahal como estão no casebre. Estão na metrópole e dentro da floresta. Estão segurando encostas e sentimentos, despoluindo rios, decorando casas e cabeças.

Os dois são fáceis de serem vistos. São diários. Estão aos olhos, por isso as pessoas que não entendem poesia, deveriam ter um bambuzal no jardim.

(Aço e Nada, 2007)

Desenho de Joaneth

A vida segue

Ainda que tarde, a vida segue sendo manhã, sendo a folha incauta sob os pés do Bem-te-vi. A vida segue sendo o capim que se dobra, fértil e fácil, ao peso do Coleirinha. A vida segue sendo as goiabas derrubadas pela chuva forte da última sexta-feira, segue sendo os insetos desalojados que sobem as paredes da casa, porque suas casas foram invadidas pelas águas de uma tarde trágica. Ainda que esmoreça a vida segue mourão nas cercas dos pastos da infância. Entrada proibida que ninguém obedece porque a vida segue nos escaninhos, nos entres, nos vãos imperceptíveis.

Ainda que triste a vida segue nos abatedouros cruéis do Mato Grosso, nos caminhões que transportam porcos e galinhas vivos pelas rodovias. Ainda que soturna, a vida segue por cima dos abafamentos que os neomedievais religiosos estão impondo às câmaras, às comissões, aos caminhos da liberdade. Ainda que frágil, a vida segue nos latidos dos cães às seis horas da manhã, no barulho brusco dos freios dos ônibus, no burburinho ininterrupto das falas das gentes. Ainda que silêncio, a vida segue estranha, como se fosse um estanho no peito, um colar, uma coleira, maior do que o pescoço pode aguentar.

Ainda que surpresa, a vida segue óbvia, multifacetando-se, violenta-calma-plena-forte-insignificante, a vida segue abarcando tudo, feito arca de Noé que carrega não apenas um casal de cada espécie, mas toda espécie de vínculo, de vício, de virtude intrínseca. Ainda que nuvem, a vida segue névoa, terra encoberta de artifícios, de mísseis e fronteiras. Ainda que vasta a vida segue casta, mácula desejada e transferida ao outro. O outro, esse paradoxo, esse desejo inalienável, o outro: pústula e salvação.

Ainda que poluída, a vida segue fonte, água primeira no alto da montanha, vértice de força e caos que se sustenta no cerne de tudo. Ainda que morte, a vida segue vivenciando os rastros, as ruínas, as dimensões fortuitas do futuro. Ainda que silêncio, a vida segue sendo palavra falada e escrita no esqueleto das horas. Texto amplo repleto daquelas letras miúdas dos contratos. Texto quase nunca lido. Tudo se estabelece estrada, remo, asa, para a vida que passa, ainda que tarde.

(Breves exercícios para fugitivos, 2016)

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Rubens da Cunha: poeta, cronista e crítico teatral. Docente da Universidade do Recôncavo da Bahia – UFRB. Doutor em Literatura. Possui sete livros publicados Campo Avesso, (2001); Casa de Paragens (2004); Aço e Nada (2007); Vertebrais (2008), Crônica de gatos (2010), Curral (2015) e Breves exercícios para Fugitivos (2015).

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