Melhor actriz europeia 2019 passa a ser patrona do Festival Ahoje é Ahoje

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O Teatro Avenida e o Mutumbela Gogo homenagearam, na segunda edição do Festival Ahoje é Ahoje, a portuguesa Maria do Céu Guerra. Doravante, a Melhor Actriz da Europa 2019 passa a ser a patrona do Festival de Teatro Ahoje é Ahoje, um reconhecimento da organização à artista por tudo o que fez pelo teatro moçambicano, sobretudo nos anos a seguir à independência nacional.
Durante o Festival Ahoje é Ahoje do Teatro Avenida em parceria com Trigo Limpo Teatro de Portugal realizou-se, no Camões – Centro Cultural Português, na cidade de Maputo, uma conversa/ recital com a portuguesa.
Numa sessão aberta ao público em geral, a actriz falou de si, da arte de representação e da sua relação com o Mutumbela, em particular, e com Moçambique em geral. Esta relação dura 40 anos, e, mesmo assim, jovial no sentido de que quer Maria do Céu Guerra quer o Mutumbela Gogo continuam a respeitar a amizade iniciada nos anos 70.
Para a Melhor Actriz da Europa 2019, a homenagem do Mutumbela Gogo e de Manuela Soeiro, em primeiro lugar, significa uma enorme alegria, porque “neste tempo em que as coisas nascem e morrem tão depressa, em que nada se aguenta, nada é estável, é extraordinário ver que um grupo se aguentou estes anos todos.
O grupo aguentar-se trinta e tal anos sem perder a qualidade é admirável”. Por isso, a portuguesa acrescentou: “É para mim uma grande honra porque eu vi nascer este grupo. Colaborei um bocadinho no seu nascimento.
Sinto-me muito honrada, mas principalmente muito alegre, por causa da duração e da resistência. Sei o que significa manter uma companhia em dificuldades. O Mutumbela continua a ser capaz de representar o seu público, em viajar e fazer teatro com honra e beleza”.
Além disso, Maria do Céu Guerra disse, nesta curta passagem pelo país que bem conhece, que se sente contente pelo facto do Mutumbela ter-se lembrado dela e reconhecer que merece ser homenageada. “Isto é muito honroso. Eu sou uma grande amiga de Moçambique. Além de gostar da terra, gosto das pessoas. Fico muito contente por ter aqui este lugar. Em Portugal, no princípio do grupo, tive a oportunidade de ver o tipo de teatro que eles fazem. Reconheço o excelentíssimo trabalho de Manuela Soeiro, como artista e como directora artística e de ética do grupo. É uma coisa muito bela porque não se desviou dos objectivos”.
Para Manuela Soeiro, Maria do Céu Guerra é como um pilar, no apoio ao teatro moçambicano sempre esteve disposta para ajudar. A encenadora do Avenida lembrou que, no princípio, quando o Mutumbela Gogo viajava para Portugal a fim de participar em festivais de teatro, encontrava em Maria do Céu Guerra uma amiga que ajudava em tudo o que fosse possível. Manuela Soeiro garante que a actriz foi fundamental para os actores moçambicanos, quer para os que com ela conviveram quer para os que assimilaram os seus conhecimentos de forma indirecta, por exemplo, na interacção com o Mutumbela.
Na cerimónia de homenagem de Maria do Céu Guerra, no Camões, esteve Mia Couto. Para o escritor, a actriz chegou a Moçambique (nos anos 70) numa fase em que o teatro moçambicano ainda andava à procura da sua própria identidade.
Mia, que colabora com o Mutumbela Gogo há muitos anos, garante que Maria do céu Guerra foi essencial no processo de afirmação do teatro nacional, daí a homenagem ser um acontecimento que vem mesmo a calhar, porque, segundo Mia, é importante que o país saiba agradecer àqueles que o serviram bem.
Esta homenagem foi o grande marco do festival Ahoje é Ahoje que durante 10 dias (26 de Outubro à 6 de Novembro) juntou para além de teatro, a música, literatura, dança, magia e workshops, no que se designou Partilhas Artísticas Solidárias com participação de Moçambique, Portugal e França e colaborações de Espanha e Brasil.

Sobre Maria do Céu Guerra
Maria do Céu Guerra nasceu em 26 de Maio de 1943, em Lisboa. Depois do liceu frequentou o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa onde começa a interessar-se pelo teatro, fazendo parte do Grupo Cénico e estreando-se em 1963 em Assembleia ou Partida, na peça de Correia Garção, encenada por Claude-Henri Frèches. 
Pouco depois Maria do Céu Guerra integrou o grupo fundador da “Casa da Comédia”, ao lado de Zita Duarte, Manuela de Freitas, Fernanda Lapa, Laura Soveral e outros amadores. Participou em várias produções, a começar por Deseja-se Mulher (1963), de Almada Negreiros, encenada por Fernando Amado.
Em 1965 segue para participar da fundação do Teatro Experimental de Cascais, onde se profissionalizou. Durante os seis anos e com encenação de Carlos Avilez, interpretou em várias peças, a começar com Esopaida (1965), de António José da Silva.
No início da década de 1970 passaria pelo Teatro de Revista e pela a comédia, começando com a revista Alto Lá com Elas (1970), de Paulo da Fonseca, César de Oliveira e Rogério Bracinha e encenada por Camilo de Oliveira, ao lado de nomes como Tony de Matos, Linda Silva, Vítor Espadinha, Maria Tavares, Lina Morgado ou Io Appolloni numa produção estreada no Teatro ABC no Parque Mayer. 
Em 1975, Maria do Céu Guerra fundou, com o cenógrafo Mário Alberto, a companhia de teatro “A Barraca” com o primeiro espectáculo, A Cidade Dourada a estrear em Março de 1976 na Incrível Almadense.  Foi n'”A Barraca” que Maria do Céu Guerra centrou a sua actividade em teatro, sendo de destacar os desempenhos premiados como em É Menino ou Menina? (1980) de Gil Vicente, Um Dia na Capital do Império (1983) de António Ribeiro Chiado, Calamity Jane (1986) ou Todos os que Caem (2006).
No cinema a sua carreira começou com a locução em Crónica do Esforço Perdido (1966) de António de Macedo mas a sua estreia como atriz cinematográfica deu-se no premiado O Mal-Amado (1973) de Fernando Matos Silva.  No seu percurso na televisão, para além de teatro televisivo e de telefilmes (como Casino Oceano (1983), de Lauro António) destacam-se trabalhos como a sitcom Residencial Tejo (1999), ou séries televisivas como Mau Tempo no Canal (1989) ou Velhos Amigos (2011). Integra pela primeira vez uma telenovela quando entra em Jardins Proibidos (2014), seguindo-se A Impostora (2016) em que foi Maria do Céu Guerra quem contracenou naquela que seria última cena de Nicolau Breyner, que morreu durante a gravação desta telenovela. Mais recentemente, em 2019, ganhou o Prémio de Melhor Atriz da Europa e o Globo de Ouro de Mérito e Excelência.

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