O topo da chama é o ruído que ignoro

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Vítor Burity da Silva
Vítor Burity da Silva

Texto de Vitor Burity da Silva

Chagas como silenciosos perfumes contam passagens na pele, esse tom desconhecido na memória sabes, um cheiro pobre em cada gota da chama avulsa desse ruído que ignoro. Vivo para fora tudo o que se me aloja na alma, este sarcasmo de vivenciar sem dilemas o meu próprio sentido de vida.

“sei que dói”

Tudo me parecem espantos e metamorfoses, risos distorcidos como glórias sem rumo, o signo da estrada nesta varredura de cromossomas enjaulados nas cabeças de andros disfarçados como se de esquinas se tratasse, esses mesmo, creio ainda serem os que mais disfarçam a verdadeira correria das suas ganâncias ansiosos por pelouros de ouro na poltrona do acaso ou ocaso quem sabe e pouco me importa.

“o topo da chama é o ruído que ignoro”

Enfadados de estilo estiolam avenidas com verdumes de escárnio um torpor de sonos, sonhos acamados na vertigem de viagens ignóbeis como aves sem asas nos céus do infinito, sim, esse rio sombrio sobre as cidades esfumadas de vozes galopantes que arrepiam até trepadeiras solitárias.

“sei que dói”

Desenho de Joaneth

Afinal de que topos se trata, contam-me os sem-abrigo desta casa sem rumo. Somos iguais afinal no epicentro encardido da vaidade, ouve-se sem desdém quando se vomita o sabor de astros alocados na fantasia dos pseudo-sábios, conta-me Euclides que nem ler ou escrever sabe,

“a lua não tem morada doutor, vive na rua!”

e aprender astrologia com astronautas talvez em vez de escrever súbitos ditongos que a estratosfera dissimula.

“os sábios somos nós, garanto-lhe, que nunca estudamos para que não nos enganem!”

Que horror! Dizia um leitor habituado sentado no banco próximo daquele jardim onde floresciam rosas que encantavam com cores os versos de um livro de Fernando Pessoa aberto no seu colo de pai de tantos. Talvez comece a entardecer, penso, as cores irão diluir-se na escuridão e o que restará dali?

O caminho de casa, ah… a lua não tem morada!

***

Vítor Burity da Silva nasceu na cidade do Huambo, em Angola, a 28 de Dezembro de 1961. Primeiro autor africano publicado pela Porto Editora. Com dois doutoramentos em Literatura e Filosofia, estudou Jornalismo em Lisboa, vive no Porto e Luanda. É autor do livro Rua dos Anjos, do qual se extraiu parte do texto para manuais escolares de Português (12.ª classe – Angola) e participou em várias coletâneas de prosa poética: Poiesis, (2007), Intemporal, (2008), A Arte pela Escrita, (2008). Publicou em jornais e revistas, tendo obtido vários prémios e menções honrosas.
Em 2010, publicou Novembro, obra que aborda os trinta e cinco anos de independência de Angola, numa viagem interior e de esperança pelas paisagens, pela longa luta, o sangue, a fome, as perdas, a vitória.
É autor internacional de livros respeitado globalmente pela qualidade pela Associação dos Escritores dos Estados Unidos da América.

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