Não há arte sem amizade

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A ARTE e amizade andam de mãos dadas, sustentando-se, mutuamente. E quando uma está sem a outra gera-se um vazio total.

Esta é teoria de Cheny wa Gune e José Rui Martins, da banda Timbila Muzimba e director da Music’ACERT de Portugal, respectivamente, falando durante a homenagem ao músico e compositor de bandas sonoras para teatro e outros espectáculos, o galego Francisco Xavier Pérez Vázquez (Fran Pérez).

Enquadrado no Festival teatral “Ahoje é Ahoje”, que ontem encerrou, o tributo teve lugar, há dias, no Teatro Avenida, em Maputo, num evento que serviu para reviver algumas peças e a energia do galego que, como disse Cheny wa Gune, “amou Moçambique e sempre fez menção ao nosso país por onde andou”.

Cheny wa Gune contou que o galego desenvolveu uma relação com a orquestra Timbila Muzimba a partir de 2004, na celebração dos 30 anos da Revolução dos Cravos em Portugal.

“A nossa relação foi além desse trabalho, houve um afecto pessoal, desenvolvemos projectos de intercâmbio”, disse, referindo que “ganhamos um irmão, que sempre que estivéssemos na Europa vinha trabalhar connosco”.

O ponto mais alto desta parceria, aponta o músico chope, foi em 2006, quando fizeram uma digressão de quatro meses em festivais pela Europa. Fran Pérez, prosseguiu, conviveu tanto com este grupo, que cantou em Xichope e Xichangana.

“Um nível de investigação de ritmos, melodias e línguas mas poucos recordam-se desta sua dimensão, de pesquisador”, acrescentou Cheny Wa Gune.

O espectáculo começou com Music’ACERT a interpretar “Vamos procurar”, “Vem queimar Judas” – esse sonho de transformar o espinho em flor, em beleza – e “Caramelo Caramulo”.

A partir dos primeiros instantes o sentido de humor tomou conta da sala numa noite que tinha todos os requisitos para ser nostálgica e sombria. Essa marca de alegria do homenageado, aliás, está patente nas suas composições.

Cheny wa Gune deixou a percussão e declarou: “agora vou dançar”. O groove de “Two boys” embala a sala, com o músico a dar voz à peça, na qual ainda induziu o txopo que, tradicionalmente, é um improviso no qual uma voz, acompanhada de palmas expressa-se.

Com traços similares ao rap, essa marca da tradição da etnia chope revelou outra versão do intérprete, que no final do espectáculo revelou que “descobri esta possibilidade com o Fran Pérez, numa pesquisa que antecedeu esta música”.

A seguir, foi a vez de Uxia que deu voz a “Esta noite”, “Gente da Festa”. Mas é quando liberta as cordas vocais para “Tambor” – Cheny wa Gune -, música que nasce do poema de José Craveirinha “Quero ser tambor”, que o palco conecta-se com o auditório.

Timbila Muzimba, por sua vez, através da vocalista e bailarina Tina Zimba tomou o palco com “As palavras”, outra peça inspirada no cantar do Rouxinol, que soprou no ouvido da poetisa Sónia Sultuane.

A obra, composta em conjunto, prenunciava que se estava a entrar para um estágio mais agitado do espectáculo e assim foi seguindo com “Barcos piratas” e “Emigrante”, músicas nas quais a Timbila tempera uma fusão que passa pelo funk, um toque de rock e música negra. Na plateia alguém comenta: “sinto um toque de James Brown, nalguns instantes”.

Estiveram em palco ainda as (loucas) Xixel Langa e Onésia Muholove, que interpretaram três temas. Sendo que a segunda não para de superar-se, a transpirar cada vez mais maturidade. Enquanto a autora de “U Buya hi Kwini” continua com a sua dose animação, adicionados as manobras vocais.

Também esteve em palco Stewart Sukuma, Daniel Tapadinhas, Luís Pedro Madeira. Os músicos não cobraram pelas exibições na homenagem a Fran Pérez, cuja foto estava pendurada no alto do palco, como acontece com o Chefe do Estado nas instituições públicas.

“Ahoje é Ahoje” encerrou com o espectáculo “Xicalamidade” da Companhia Mutumbela Gogo, que voltou ao palco, quase uma década depois, mas desta vez sem Graça Silva e Lucrécia Paco. 

Francisco Xavier Pérez Vázquez (1968 – 2016) mais conhecido como Narf, e no início, como integrante da banda Os Quinindiolas e Nicho Varullo, na companhia teatral Chévere e posteriormente em Psicofónica de Conxo, unicamente como Fran Pérez, foi um cantor e compositor galego, reconhecido pela forte personalidade e originalidade da sua obra, que procurou incorporar às estruturas do rock distintas influências sonoras.

Narf sobressaiu-se como compositor de bandas sonoras para teatro e outros espectáculos, combinando este aspecto com o de actor em diferentes papéis teatrais.

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