Gato por lebre

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A NOTA de imprensa posta a circular pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane e a Embaixada da Argentina prometia uma ópera, intitulada “Grito de Mueda”. O que se viu, entretanto, está mais próximo do musical.

No sábado, no princípio da noite, um auditório vasto, acomodou-se nas poltronas vermelhas do Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo com um público composto, sobretudo por jovens estudantes.

Quando o espectáculo começou, vimos no alto do palco, um coral enorme. Bandoneon, num extremo e o piano noutro. As secções de sopro, outras cordas e demais, imediatamente a frente, em baixo.

O mote da obra é o Massacre de Mueda, perpetrado pelas autoridades portuguesas, a 16 de Junho de 1960. No actual distrito de Mueda, em Cabo Delgado, os nativos reuniram-se com a administração para pedir dignidade e liberdade ou seja, o fim do regime colonial.

A resposta lusitana foi um regar de balas, ceifando vidas, numa clara demonstração de força e poder. A administração colonial entendia ser preciso dissuadir a reivindicação que o regime interpretava como absurda e terrorista. “O que seria de vocês se não fosse Portugal?” Questiona, a dado instante, o governador, interpretado por Hortêncio Langa.

A partir da narração das memórias de Raimundo Pachinuapa, ex-combatente da Frelimo e antigo governador de Cabo Delgado, Nilza Laice escreveu o libreto.

Com efeito, o enredo desenrola-se com alunos na sala de aula, em conversa com o professor, que, por sua vez, recebe um grupo de adultos insatisfeitos com o qual discute a elaboração da petição a levar para o governador. Os estudantes abraçam a causa e convencem os pais a permitir-lhes irem também à vila.

A peça não deixa escapar, que nem todos, naturalmente, estavam de acordo com a reivindicação da independência. Uns por ignorância, desconheciam a condição em que se encontravam, outros por temerem a ira das autoridades. “Eles são poderosos” diz um dos medrosos (ou cautelosos, talvez). O facto é que quem temia pelo pior estava certo.

Os diálogos revelam fragilidade do texto, que poderia ter sido melhor trabalhado. Por exemplo, pelo tempo, que pretende retratar, em função do número de analfabetos que as estatísticas do país mostram, é pouco provável que os envolvidos fossem fluentes na língua de Camões. A hipótese é que, caso soubessem, falassem com alguns vícios e atropelos gramaticais. E, por outro lado, faltou poesia. Fica-se com a impressão de que não houve um dramaturgo na elaboração do espectáculo. 

A dúvida de estar-se de facto diante de uma ópera vai se desenrolando ao longo da peça. Por exemplo, quando, não encontramos, entre os personagens, nenhum barítono, tenor e contratenor (nos cantores), nem contralto, mezzo-soprano e soprano (nas cantoras). São sempre vozes “normais”, as quais, faltou, nalguns casos virtuosismo e adornos vocais.

Assumindo tratar-se de um género artístico teatral que consiste num drama  acompanhado de música, a dimensão dramática e trágica que envolveria uma peça, que retrata um massacre, foi ficando presa à expectativa do princípio ao fim do espectáculo. Para além de questões harmónicas, tonais e de acordes poder-se-ia, igualmente, recorrer ao trabalho da luz na encenação. Obviamente, que não se nega aqui a possibilidade de alterações dos padrões pré-estabelecidos, porém, tem de ser por uma opção que agregue e acrescente.

A estas mazelas, acrescenta-se um trabalho no figurino que ficou a quem do contexto que “Grito de Mueda” propôs-se a representar.

Quando, por outro lado, olhamos para as características do musical, reparamos que há, neste espectáculo, elementos, que se encaixam na descrição: como a música, interpretação teatral e o enredo.

O mérito da performance está no facto de se preservar uma memória macabra da história do país. Entretanto, não deixa de ser irónico ou paradoxal ter-se recorrido a um estilo artístico do colonizador para ilustrar a sua barbárie.

Estiveram envolvidos neste projecto ambicioso Óscar Castro, Hortênsio Langa e Feliciano de Castro Comé, professores da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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