Conto de Teofilo Tostes Daniel

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Teofilo Tostes Daniel
Teofilo Tostes Daniel

Texto de Teofilo Tostes Daniel

Extrema-unção

(para Geruza Zelnys)

os segredos da carne são inúmeros, nunca sabemos o limite da treva, o começo da luz
(Hilda Hilst)

Nunca me esqueci do dia em que ganhei esse livro. Do momento exato, ocorrido há tanto tempo. Quase cinquenta anos atrás! Hoje essa lembrança acordou viva comigo, me levando a buscar o livro na minha estante. Junto dessa memória reacesa, uma sensação estranha…

            Quem me deu esse livro foi uma orientanda que tive, a Nina. Nesse dia, ela me mandou uma mensagem, perguntando se podia passar na minha casa. Chegou vinte minutos antes do horário que combinamos, o que era algo totalmente incomum. Isso só havia ocorrido uma vez, na faculdade, logo que ela entrou no mestrado e marcamos a primeira reunião. Depois que nos tornamos amigas e passou a frequentar minha casa, ela já conhecia meus ritos. Especialmente os que tenho ao chegar em casa.

            Mas naquele dia, não tinha nem dez minutos que eu havia entrado em casa quando ela chegou. Abri a porta um pouco esbaforida. Os ruídos da rua ainda ecoavam na cabeça. O incenso ainda não tinha me limpado da energia das coisas do lá fora.

            Nina trazia os olhos ansiosos. Ela foi a primeira orientanda que virou minha amiga. De a gente sair juntas, se encontrar sempre, falar da vida, dos planos, dos medos. Isso foi logo que comecei a dar aula na faculdade em que fiquei por quase trinta anos. Éramos praticamente da mesma geração. Era só quatro anos mais nova do que eu.

            Ela me abraçou em silêncio e me entregou esse exemplar, novo e lacrado. A edição tinha saído de catálogo havia uns dois ou três anos. Duas semanas antes, eu havia anunciado que o livro não estava na minha estante. Perguntei se alguém o havia tomado emprestado. Como ninguém respondeu… Aliás, várias pessoas responderam, dizendo que não haviam pegado, o que para mim era o mesmo que uma não-resposta. Assim, tive a triste constatação de que o havia perdido. E escrevi algo lamentando a perda.

            Quando vi o presente, fiquei eufórica. Abracei Nina com um sorriso que me tomava o corpo inteiro. Ela me sorriu de volta, mas seu sorriso me pareceu uma flor murcha. Perguntei se ela estava bem. Cansaço, ela me disse. Estava estudando muito para a prova do doutorado. O brilho de seus olhos estavam pálidos, mas naquele momento eu aceitei a explicação dela. Dois dias depois desse encontro, Nina partiu. Voluntariamente.

            Não sei por que me sinto tão ligada a ela hoje. Sabia que me perguntei inúmeras vezes sobre o porquê de você ter feito isso? Eu nunca consegui entender o que ocorreu. Nunca conseguirei entender esse vazio, essa ausência, a falta de sentido nisso tudo. Logo que você se foi, eu busquei muito essa resposta. Nos centros que eu frequentava, não veio. Fui até mesmo naqueles centros mais caretas, mesa branca, em que as tempestades de Iansã e os ensinamentos chãos e precisos dos Exus e dos pretos velhos não são bem-vindos. Mas nunca a encontrei no corpo de nenhum médium. Nunca ouvi de sua voz incorpórea sequer uma palavra sobre o inexplicável…

            Antes de sair da minha casa, você chamou meu nome. Parecia que ia dizer algo. Fez uma pausa. Depois de sua morte, toda vez em que penso nessa pausa, ela me parece mais longa. Num tom de gracejo, você disse para eu cuidar bem do livro, pois não conseguiria mais encontrar outro igual. Novinho daquele jeito… Foi essa recomendação a primeira coisa que me veio à cabeça quando soube de sua morte. Eu nunca tive coragem de abrir o livro, que ainda está protegido por aquele plástico fino e transparente que envolve os livros recém-saídos das gráficas.

            Fiquei pensando se essa recomendação não teria sido uma forma de despedida, de aviso de que eu não mais veria você. Eu me pego remoendo cada mínimo gesto daquele encontro. Relembrando as variações de seu rosto, o sorriso cansado e os olhos sem viço. Aquela pausa, depois que você disse meu nome. Eu tinha certeza de que havia algo a dizer. Como pude aceitar um complemento tão dissonante do tom de sua voz ao me chamar naquele instante? Como eu, que dediquei a minha vida à literatura, à leitura e à escrita, não consegui ler minha amiga ali, na minha frente? Suas entrelinhas e subtextos? Eu não escutei os seus sinais… Tivesse conseguido fazer essa leitura, poderia ter feito algo? Teria evitado sua morte, Nina?

            Nós trocávamos confidências, conversávamos sobre tudo. Depois que você terminou o mestrado, ficamos um tempo com menos contato. Mas, ainda assim, nos víamos sempre. No mínimo uma ou duas vezes por mês. Era certo que, quando você passasse no processo seletivo do doutorado, eu seria novamente sua orientadora. O que foi que me escapou?

            Foi difícil retornar às atividades quotidianas depois do impacto de sua ausência. Passei muito tempo aérea. Vivi o fim de semestre e de ano mais difícil que eu me lembro de ter passado na faculdade. Talvez porque outras dores que vieram depois não foram tão inesperadas. A sua morte, Nina, foi o único grande acontecimento de que me recordo que me escapou totalmente à intuição. Para mim, isso é algo absolutamente espantoso.

            Nós vivíamos em plena pós-modernidade demodé, de meados da década de 10. Era o ano do golpe parlamentar de 2016. Um tempo de pós-verdades, obscurezas, ameaças de censura e outros retrocessos. As redes sociais haviam se tornado um híbrido entre ágora e ringue. Mas também, para nós que escrevíamos, eram um lugar de experimentos e divulgação. Tudo isso apesar de estarem, então, restritas a computadores e celulares. Não haviam se convertido no espaço público por excelência. Naquela época, ainda andávamos de carros pelas ruas. Encontros sensório-holográficos e autodrones pareceriam ficção científica.

            O tempo até muda os contornos do mundo, mas não atenua as dores. Apenas as coloca em quase silêncio, enquanto segue o fluxo da vida. Eu é que nunca soube fazer esse tipo de silêncio. Sempre cultivei o que lateja, investiguei o que arde, fustiguei o que queima. Sempre me digladiei com o começo do terrível que ainda suportamos. E sempre, sempre suportei mais! Ainda assim, os dias, as semanas, os meses, os anos passaram num fluxo espantoso. Já se passaram 48 anos desde que você se foi, Nina!

            Eu vivi pela e para a literatura. Dentro e fora da academia, em cursos livres que eu inventava para meus próprios usos. Meus cursos nunca ensinaram a literatura histórica de escolas e estilos. Eu mesma imagino não saber mais nada disso. Olho para esses esquemas como quem olha uma fórmula de Bhaskara ou um cálculo estequiométrico. Sempre me afastei de palavras que evocam o desconhecimento formal, adquirido por meio de resumos, nos bancos escolares. Em meus cursos, sempre quis dividir e dizer do maravilhamento com a leitura. Com as palavras. E com a própria vida, donde se emana o dizer.

            Eu vivi para e pela literatura. Mas não da literatura que escrevi. Publiquei livros que foram menos lidos do que eu gostaria. O tempo passou. As areias da ampulheta da vida escorrem céleres demais entre nossos dedos. E quando vi, um dia compulsoriamente tive de deixar a faculdade, os orientandos, as novas turmas de graduação e pós. Por causa da idade…

            Azar de quem chegou depois! Eu continuei ao meu modo, fundei meu espaço, abri novas turmas para investigar tudo o que me interessava: escrita curativa, vodu de palavras, o terreiro dos sentidos, a gestação do gesto de grafar com a carne. Há um monte de gente séria que acredita que escrevemos com a mente. Uma bobagem isso! Escrevemos com o corpo inteiro. A mente, a alma, o espírito ou qualquer coisa que o valha é resultado dessa maravilhosa química interna, íntima.

            No gesto de grafar com a carne, quase todo mundo usa predominantemente apenas uma parte do corpo para fazer brotar palavras. Há os que fazem brotar da cabeça. São palavras airosas, voláteis. Outros fazem brotar do coração e suas palavras são maquinais, sanguíneas. Palavras bombeadas em alta pressão. Outros vertem palavras do fígado. São sarcásticos e mordazes. Falam com fel da fealdade das coisas. Outros escrevem com os pés, e sua escrita é nômade ou viandante. Outros ainda escrevem com as vísceras. Suas palavras são, por vezes, sujas, repletas de excrementos. Mas é quase impossível resistir à verdade dessas escrituras. Há os que escrevem com as mãos. Esculpem, moldam, projetam dedáleas construções discursivas. Há também aqueles raros que eu sempre invejei. Escrevem com o corpo inteiro, com a totalidade da própria natureza que testemunha, em silêncio, as intuições. Já eu, sempre escrevi com o púbis. É daqui que me nascem asas palavrosas. Com isso, minha palavra é gosma e gozo, jorro e espasmo.

            Essas são coisas muito mais importantes do que as características gerais da geração condoreira, dos modernistas pós-45 – do século XX! –, da poesia marginal da geração mimeógrafo, dos neobarrocos do terceiro milênio ou da geração pós-verdade de que, curiosamente, eu faço parte. No entanto, jamais houve lugar para investigar meus principais objetos de interesse na academia. Sair de lá, mesmo que inicialmente tenha sido contra a vontade, foi um presente que me permitiu ir a fundo com essas pesquisas tão essenciais.

            Eu deveria ter saído antes de ser obrigada. Pois lamento que não tivesse mais a mesma vitalidade, quando a investigação desses aspectos da escrita ganhou novos métodos, por causa da maior liberdade, de tempo e de pensamento, de que eu dispunha. Eu falava e pensava sobre a escrita com o corpo. E envelhecer foi reescrever meu corpo a cada dia. Eu me tocava e sentia a pele enrugada, murcha. É bonito perceber que minhas histórias não estavam apenas em meus livros e artigos. Cada dobra, cada ruga que me marca é um pouco de minha memória inscrita sobre a pele.  Viver marca a gente.

            Sem nenhuma marca, nenhum leitor a enrugar-lhe com seus grifos, é como se esse livro jamais tivesse existido. Esse tempo todo, ele foi a matéria de uma ausência. Fiz isso, talvez, buscando manter imaculada sua memória, Nina. E a memória dessa dor, dessa inexplicável derrelição, dessa ausência de vida que você escolheu. Jamais permiti que esse exemplar cumprisse sua missão de dialogar com os tempos. Por isso, o que me importa agora, na verdade, é abrir esse livro. Sinto que já não preciso cuidar dele. Então, que suas páginas se abram à luz do mundo.

            Esses plásticos são tão chatos de romper. Cadê uma tesoura? Que bonitas essas páginas tão novas, embora tão velhas. Quase nenhum amarelecido em quase cinquenta anos! É a ausência do contato com o ar. É o ar que envelhece a gente. O tempo se irmana às intempéries.

            Abro numa página aleatória. Dezoito. Lembro que no meu livro, que talvez exista perdido em algum sebo ou biblioteca, esse trecho bem do início estava sublinhado e com uma exclamação ao lado. Sou quase capaz de ver essas marcas, ainda nítidas na memória. Era o meu jeito de me comunicar comigo mesma no futuro, para que voltasse a ele: “(…) queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não existe mas é crua, é viva, o Tempo.”. Mas o que eu poderia entender de envelhecimento naquele tempo? No entorno dos meus quarenta anos? Só que mesmo bem antes disso eu já pensava na morte. Desde menina, quando comecei a formar ideia sobre alguns abismos. A morte me deixava perplexa. Era uma presença sem corpo nem fato. Sua matéria é o medo.

            Sim, eu sempre temi te entregar meu corpo. Embora tu sempre espreites. Sei que te enlaçavas em minhas coxas, duras e jovens, quando eu te desafiava com minhas inconsequências. Eras tu entre meus seios, nas palpitações de meu coração, quando algum ódio viscoso espumava em meu sangue. Eu te sangrava todo mês entre minhas pernas. Lembro do susto quando te vi pela primeira vez nessa forma, rubra em meu sexo quase infantil. Eras tu no cansaço, nas noites de sono, na embriaguez dos sentidos e em todas as formas de quase chegar ao incomunicável do teu cerne. O próprio livro aberto em minhas mãos me diz que “o corpo é quem grita esses vazios tristes”. Já sou quase capaz de dizer o inominado. Mas é bom que seja assim, que não venhas. Melhor sonhar tua rudeza.

            Esbarro com uma passagem que agora me grifa: “(…) e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida.” Mas o que está acontecendo comigo? Que dor é essa? Meus braços estão formigando, o peito aperta, o ar me falta… Infartar agora seria um clichê insuportável!

            Não estou bem. Ninguém está bem. Estamos todos morrendo. Mas agora, em especial, realmente não me sinto nada bem. Imagino que a morte me ronde há tempos. Com quase noventa anos, já passei do prazo de validade. Meu corpo já mudou tanto e tantas vezes, que o que sinto agora pode ser apenas mais uma dessas mudanças. Apego-me firme a essa ideia tola. Não quero morrer. Mas o ar me falta. Já não consigo respirar direito. E meus pulmões sempre foram bons, apesar dos cigarros fumados há, pelo menos, setenta anos. Nunca me fizeram mal.

            Acho que vou morrer! Nenhum menino-porco (ou deus) e nenhum Logos feito carne hão de me salvar o corpo. Já começo a esquecer a cor do tempo. A morte não existe, mas está a cada instante mais presente, quase palpável. Porém, quando ela estiver aqui, eu estarei ausente.

            Minha vista escurece. Não estou conseguindo mais respirar. Penso na terra toda arreganhada para me receber. Como esse livro. Gaia, nos teus escuros entregarei o meu corpo. E se algum espírito houver, que a minha carne então, aonde quer que eu for, se faça o Verbo do princípio. Aquele que, antes do nome, designa a própria palavra e mora na intimidade fecunda do impronunciável.

***

Teofilo Tostes Daniel, nascido em 1979, é poeta e escritor nas horas cheias. Nas horas vagas, é cantor e compositor, devoto da leitura e do ócio. Nas plenas, partilha desejos, sonhos, risos e criações com sua companheira, Fabiana Turci. Em horário comercial é analista de comunicação do Ministério Público Federal. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, onde se formou em Produção Editorial pela UFRJ, e mora em São Paulo desde 2006, onde publicou o livro de contos “Trítonos – intervalos do delírio” (Patuá, 2015) e “Poemas para serem encenados” (Casa do Novo Autor, 2008). Tem ainda contos, poemas e artigos publicados em coletâneas, revistas literárias e culturais. Faz ensaios abertos com palavras em https://teofilotostes.wordpress.com.

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