A exigência de captar o âmago da sociedade numa era de Take away- uma reflexão de três fotógrafos, patente na Galeria Kulungwana

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Por Mauro Brito

Idaí? É assim que falam por meio dos seus aparelhos fotográficos os três fotógrafos convidados para deixar o seu olhar, mesclado com a profundidade da situação, como quem presenciou e faz parte do problema, não apenas como observadores. Essa observação não é simples e rasa, é um olhar atento e activo, que os permitiu folhear os capítulos da enciclopédia da vida. Não é apenas sobre impactos de uma catástrofe, mas narrativas de singulares e profundas lições de vida de gente que sabe dar a volta por cima dos problemas do quotidiano.

Micas Mondlane, Amilton Neves e Emídio Jozine assumem que é a melhor forma que têm de comunicar, na boleia da imagem, tal como ela se apresenta. Sem fugir das bases que a fotografia exige que se tenha.

É certo que as calamidades naturais devastaram parte da zona norte e centro do país, e vizinhos, causando enormes perdas, para o choque e solidariedade de muitos. Como actores e cidadãos, partiram com a missão de contar como melhor sabem fazer, e nada melhor, porque as imagens falam por si. O olhar captou, sem filtros nem mediadores, nos aproximando da situação da cidade da Beira em concreto

Fizeram-no como uma chamada de atenção, para apelar a sensibilidade  em relação aos problemas que o mundo  enfrenta, sem deixar ninguém de fora: o aquecimento global e mudanças climáticas.  E não menos importante, a resiliência. Mais necessária do que nunca.

Fazem arte como formas de propor diálogos com a sociedade da qual fazem parte.

Dizem ser difícil fotografar situações como esta, que é o caso de uma calamidade que deixou muitos danos com impactos directos e indirectos. “É um acto complexo, sobretudo conservar a estética, porque é um registo carregado de emoção, intensidade e dor, que a certo momento nos envolve e não há como ficar alheio ao que está a acontecer. Toca-nos porque antes de ser fotógrafo, sou um ser humano, que está ali a presenciar o caos, miséria e desespero. Então, passamos a fazer parte do problema a partir daquele instante” diz Amilton Neves. No final de tudo, é importante documentar, fotografando, independentemente do assunto a tratar. A fotografia não está ali para julgar ou analisar nada, mas para captar a essência dos factos e comunicar.

Partilham da opinião de que este trabalho é de responsabilidade social, sendo todos parte da natureza, é inconcebível estar à margem. A natureza dá-nos a resposta de como nós cuidamos dela, independentemente de onde estivermos, mais cedo ou mais tarde, teremos a sua resposta, explicam. Exemplo disso são as mudanças climáticas que hoje estão a causar danos no mundo todo. Sem deixar de lado o tema da poluição plástica no mar, de sacos e garrafas plásticas, exploração desenfreada de recursos, a caça furtiva, queimadas, etc. Tudo isso tem consequências, mas nos esquecemos que tudo isto é parte de um ciclo, nos isolamos desses problemas que criamos. Por isso, devemos tomar toda responsabilidade e cuidar da terra para que haja equilíbrio ecológico. Ela é generosa, desde que saibamos usufruir daquilo que ela nos oferece.

Através da fotografia, podem parar o tempo, deixar a poeria baixar e colocar o público em reflexão atemporal.

Para apurar a fotografia, defendem cultivar segredos como a paciência e o olhar, que são indispensáveis ingredientes que faz  os fotógrafos. Não apenas portador de uma máquina fotográfica. “É o exercício que irá definir quem é fotografo ou não. Por outro lado, olhar  para o exterior, como se sente o outro, a relação  com o próximo que nesta era tem sido de take away. Não constituindo um exercício de construir uma relação de proximidade, de amor, de afecto, que necessita de tempo e de paciência.

Segundo Emídio Jozine “O exercício do clique inicia muito antes de pegarmos na câmara, é um exercício de reconhecimento. num processo de contínuo, de olhar e dar valor ao que se observa, mantendo respeito na fotografia captada.”

Não olham a fotografia como o fim, mas o princípio, porque ela multiplica-se nos sentidos e significados,

IDAI expos um pouco da nossa consciência sobre as mudanças climáticas, moramos num mundo como se fôssemos isentos de qualquer responsabilidade, como se o planeta fosse apenas nosso, mas nós somos tão somente, participantes dessa vivencia, não somos os seres superiores e que devem dominar tudo. Que deveremos compartilhar o espaço.

Devemos parar e olhar para o nosso estilo de vida, reflectir sobre o consumo massivo de recursos.  

Sensibilizar, contar histórias, e sempre conservando o amor pela fotografia, porque sem isso não seria possível absorver com delicadeza e profundidade a essência  da vida, que não há nada que tenha mais valor que isso.

A exposição IDAI está patente na Galeria Kulungwana, até o dia 6 de Setembro.

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