O plano dos ratos

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Nos dias que correm, os ratos da cidade já conhecem o Jerry. E estão motivados a desafiar o gato, até porque perceberam que mesmo o Tom, um gato que é celebridade de televisão, não escapa as artimanhas de um rato esperto.

É essa uma das explicações possíveis para o seu recuo nos prédios e pátios da zona. Já estava naquele ponto de constranger os moradores que, na sala de estar, com a visita, recebiam um “olá” dos ratos, depois do cortejo nas escadas.

Não por razões revolucionárias, mas por afecto mesmo, uma vizinha criava gatos. Ali era a China dos gatos.
Gradualmente, não se sabe se por deliberação presidencial, os pequenos gatinhos foram se acomodando na casa dos vizinhos, onde se sentissem bem. Fixavam residência.

A presença dos gatos alterou o quadro. Os ratos que no seu livre trânsito pelo território conquistado até morriam atropelados, bazaram.
Mas algo me diz que eles têm um plano. Não se perde um território dominado, de forma pacífica. O Jerry ensinou-lhes.
Não havendo ratos, os gatos comem o que há. Assuntos de ração para animais de estimação ou, no caso, de circunstância, é matéria para televisão. Não sai dali.

As acusações que foram caindo sobre os gatos eram inacessíveis para um humano comum, mesmo os do bairro não acreditavam que apenas dois gatos fossem capazes de esvaziar uma bacia de magumba, em questão de instantes. São habilidosos e normalmente vem muitos. Eu já vi.

Um incrédulo, num canto afastado do seu quintal, a fumar um GT, contempla, atento, um gato. Não desvia o olhar. O animal, observa, fazia cálculos. É provável que tenha prestado atenção às aulas de física que passam na TVM. Com sorriso nos lábios, o meu vizinho atento, repentinamente é surpreendido com um salto para a grelha, há pouco, abandonada pela cunhada. Petrificado, espanta-se.
Quando reage, um dos quatro pedaços de frango, de acordo com o número do agregado, estava no focinho do gato.
Não querendo ser o sacrificado, largou o cigarro e correu atrás do pedaço. “Pode ser o meu”, pensa.
Quando chega próximo, já o gato está com o naco, o peito, a trepar o muro, que por erro de cálculo, era maior que o previsto. A carne caiu, para o alívio do rapaz. Ufa…

O herói regressou para exibir o seu troféu, no rosto da cunhada que não consegue ficar distante do marido, serralheiro de boa reputação. Abandona as panelas para cercar contra as marandzas.
Estavam então servidos todos os ingredientes necessários para uma guerra entre os moradores do bairro e os gatos. Descrentes das Convenções e Tratados das Nações Unidas, que nunca conseguiram impedir o Israel de invadir, a força, o território palestiniano, decidiu-se convocar uma reunião entre as partes para negociar o status quo.

Dia marcado, relógio britânico. Um dos homens levanta-se para contar que estava, há dias, sem os canais a cabo porque um gato pariu as crias nas escadas que dão acesso a antena. O residente diz que o técnico não teve coragem, por temer o semblante ameaçador do gato. “Já estão a causar constrangimentos”, disseram, os homens, em uníssono.
Os gatos, em sua defesa, alegaram que:

-Companheiros, nós estamos em crise. Os ratos fugiram e não temos como nos alimentar (acho que esse era o plano dos ratos, matá-los de fome).
Em coro, ali no Clube da Esquina, onde decorria o evento, miaram, com melodia “os ratos já não sabem morrer na calçada”.
Não sei como terminou porque tive de me mudar, como a maioria dos meus vizinhos. Na última conversa que tivemos disseram-me que já apoiam aos palestinianos.

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