EXPOSIÇÃO “DESARMONIA FLUENTE” Um percurso pelos nossos labirintos

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OS fios frágeis que suportam a existência humana e os fragmentos de memória individuais são algumas das metáforas possíveis de ler-se na exposição “Desarmonia Fluente” de Jorge Dias e Filipa Pontes patente na Fortaleza de Maputo.

São, nesta mostra, duas formas singulares de ver o mundo e de, naturalmente, trabalhar a arte. Tal está evidente nos tipos de material que ambos levaram para aquele património gerido pela Universidade Eduardo Mondlane.

Jorge Dias propõe “Coisas entre Linhas”, um conceito iniciado em 2004. É uma continuidade. Trata-se de esculturas circulares, suportadas por linhas de algodão, as que, noutros tempos, as mulheres usavam para tecer crochés.

Com este material, que pode simbolizar, em função da forma de linha curva, que se fecha, movimento, continuidade, auto-fecundação ou ainda o eterno retorno, entre outros, o artista diz não pretender construir nenhuma narrativa concreta, se não sugerir, provocar o subjectivo.

A fragilidade das linhas, a suportar o volume dos corpos circulares, explica Jorge Dias, “é um caminho para um diálogo com o espaço, onde está à mostra a fortaleza, que significa fortaleza, resistência”.

O artista vai mais longe ao sugerir que outra via de leitura possível é que as linhas podem ainda significar as conexões humanas com o mundo, em que vivem e a condição de busca de equilíbrio pode ser lida no suporte, que as mesmas dão aos círculos.

“Nós não temos controlo de nada na nossa existência”, atirou a dado momento, quando explicava que ambas instalações, à semelhança de todas as outras, que fez, terem sempre números ímpares. Assume que desconhece a razão para tal opção e reconhece que não se sentiria confortável, se fosse diferente. A obra, que está no interior do pátio, tem 11 bolas e a que está no exterior, 21.

Às vezes, observou, “andamos à busca de lógica, de verdades, como forma de assegurarmos as nossas fragilidades”. E as cores, amarela, na de 21, pendurada na muralha, é, justamente, pelo efeito, que esta cor tem e, a de onze, é por ser alheia às colorações do espaço.

Esta instalação, que já esteve, com diferentes discursos e provocações, na Fundação Fernando Leite Couto, na Mediateca do BCI, entre outros, vai, nesse percurso, reinventando-se discursivamente. Uma pergunta então toma o cenário: o que, na vida, é, realmente, estático?

Filipa Pontes, por sua vez, continua o seu projecto Dicionários De Artista, que é ampliado, transpirando para fora dos livros de artista, que o compõem.

A obra “A Experiência do Lugar” expande o projecto através da construção de espaços dialogantes, entre a energia dos desenhos, que habitam os livros de artista e resíduos da presença física e emocional nos lugares vivenciados.

Uma rede invisível de fragmentos, com significado pessoal, é trazida a público com o intuito de iluminar novos entendimentos sobre a impermanência da identidade, a inconsistência da tradição e a potência do devaneio.

Com recurso a elementos sonoros, vídeo, pão, pedra, panos de cozinha (e outras finalidades), a artista parece querer recordar que a vida é esse fio, que sustenta-se em fiapos de memória. É como se concordasse ou ampliasse o conceito do nosso colega Hélio Nguane, na sua coluna “Retalhos e Farrapos”.

O que Filipa Pontes propõe é uma experiência que humaniza e universaliza as experiências corriqueiras. Exemplo disso são as três fotografias de uma paisagem, em que o sussurrar dos pássaros, que se podem ouvir nos headphones ali disponíveis, conduzem ao lugar em concreto.

A artista, pelo repertório que expõe, parece não parar de perguntar: o que há de mentira na frase, que diz que a vida é o último suspiro, antes da morte?

A exposição estará patente até 31 do mês corrente.

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