GABRIEL CHIAU (1939-2019) O céu ganhou uma estrela da marrabenta

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A marrabenta é uma das criações mais ilustres nascida da cultura moçambicana. Essa história é feita por pessoas, entre as quais Gabriel Chiau. Um dos protagonistas desse processo, Chiau ocupa uma posição que jamais será esquecida.

A 15 de Novembro de 1939, o professor da Missão Suíça, Ruben Manhatel Chiau e a esposa Lídia Jaquite Ntseco, no actual Hospital Geral de Chamanculo, celebravam o primeiro suspiro do seu sétimo filho.

O casal, satisfeito pelo nascimento do primeiro rapaz e penúltimo rebento, mal sabia que, naquele instante, as artes moçambicanas viam chegar um dos seus criadores maiores, que hoje cintila entre os mais emblemáticos.

A infância de Gabriel é vivida uma parte no bairro da Machava, no município da Matola, onde o pai esteve a trabalhar, depois a família regressou ao Chamanculo. Neste percurso, ao final do dia, junto à lareira, o agregado reunia-se para orar e cantar. Numa entrevista que o músico concedeu à Rádio Mais, terá contado ser aquele um ritual que tornou-se tradição na família. Talvez o progenitor fosse guiado por aquele repto atribuído a Santo Agostinho: “quem canta, reza duas vezes”.

“Recordo-me que em algumas festas, que promoviam na igreja, o meu pai concorria e ganhava. Isso incentivou-me”, contou, numa entrevista cedida ao Semanário Domingo, publicada a 10 de Agosto de 1997.

A mão de Chemane e o pulmão do Masekela

Educado à base de preceitos religiosos da Igreja Presbiteriana, as lições musicais tornaram-se ainda mais sólidas, quando integrou a banda da igreja, onde teve o privilégio de aprender com o maestro Justino Chemane.

Ter tido lições com o autor do Hino Nacional, frisou na entrevista ao “domingo”, foi uma luz. “Eu queria saber o que ele sabia, jamais saberei ser grato”, disse.

Chemane, prosseguiu, na altura apreciava muito o trompete. É nesse período que Gabriel Chiau tem lições elementares de trompete, que nunca mais largou. Esta experiência espevitou um sonho nele: ser etnomusicólogo, formação que enterrava o anterior anseio de ser serralheiro-mecânico. “Andei à procura de estudar para tocar como Hugh Masekela”, revelou.

Tanto a serralharia assim como a etnomusicologia foram sendo adiadas devido às circunstâncias de pobreza em que se encontrava. Até chegou a frequentar, tendo feito a quinta classe, na então Escola Industrial, hoje 1º de Maio, mas desistiu para empregar-se, em 1958, nos Caminhos-de-Ferro de Moçambique (CFM), como “gai-gai”, figura a que o sistema colonial designava de “contramarca”. A sua função era arrumar e contar as mercadorias que chegavam ao Porto de Maputo.

Na entrevista ao “domingo”, em 97, contava os últimos dois anos para a reforma, sua queixa era não ter progredido na carreira. Numa das citações, disse: “vivi a minha profissão como um indivíduo sem alternativa (…) não realizei os meus sonhos, tive uma vida dura.”

Junto de outros grandes

Levado pela mão de Tiago Brita, que fora seu colega na banda da igreja, Gabriel Chiau conhece o Centro Associativo dos Negros de Moçambique, que passa a frequentar, regularmente, apesar da chatice do pai. Aliás, nessa altura integrou o Conjunto João Domingos.

Foi a partir de instrumentos de sopro que se integrou, mas recorda que aprender o trompete não foi fácil. “No princípio doíam-me os dentes”, contou, a explicar que o desconforto vinha da obrigatoriedade de calçar o instrumento entre os dentes. Já tinha aprendido a ler partituras, o que lhe dava ainda mais vantagem.

Gabriel Chiau ainda fez parte  da Orquestra Djambo. Em meio a este ambiente conhece mais gente do meio. Surge então um convite para os músicos do Centro irem tocar na Rádio Clube através do locutor José Mendonça.

Numa outra entrevista, cedida ao nosso matutino, publicada a 19 de Outubro de 1997, Gabriel Chiau explicou que daí surgiu a necessidade de fragmentar os grupos. Coube ao poeta José Craveirinha organizar esse processo. É quando se cria o Conjunto Harmonia, de que fez parte.

“O Conjunto Harmonia foi, para mim, o grupo principal, onde aprendi danças tradicionais como o xigubo, a marrabenta, xingomana, xiparatuana fena e outros”, contou na entrevista à Rádio Mais.

Na ocasião, ainda criticou o que, actualmente, designa-se marrabenta e a sua respectiva dança.

“Andam a saltar de um lado para o outro. Não conhecemos a marrabenta assim, e desta forma deturpam aquilo que nós chamamos de marrabenta”, disse, a defender que, tal resultava do desprezo que há das bases. “Ignoram os mais velhos”, atirou.

Reparou que houve uma geração que procurou reencontrar-se com o folclore, apontando músicos como Hortêncio Langa e Salimo Mohamed. Depois destes, acusou, não se verifica isso. “Está a marrabenta a morrer como o xirhonga e o xichangana.”

Ídolo: Louis Armstrong

Gabriel Chiau integrou ainda outro projecto, o grupo Quenguelequedze, antes de criar o seu quinteto com o qual interpretava um repertório com autores de quilate como Nat King Cole, Frank Sinatra e Louis Armstrong – seu ídolo.

“Apostei no trompete porque admirava Louis Armstrong, pois na altura pairavam os músicos americanos. É por essa razão que, para além da voz, usava igualmente o trompete”, esclareceu.

Na entrevista que cedeu ao “Notícias” terá brincado com o facto de ter algumas aparências que o autor do eterno “What a Wonderful World”, questionando se entre os escravos levados para os Estados Unidos da América não poderia ter um antepassado seu que esteja na árvore genealógica do Armstrong.

“Se lhe colocarem as fotos de ambos, poderá ter dificuldades de apontar quem é quem”, atirou Gabriel Chiau.

O seu quinteto era constituído por Filipe Tembe, Edmundo Tembe, Manuel Gueruta e Júlio Macuácua.

Conforme contou, na cerimónia de homenagem ao músico na Universidade Pedagógica de Maputo, há poucas semanas, Filipe Tembe, no princípio, uma vez que eram colegas, mentiam aos chefes, nos Caminhos-de-Ferro, que iam a cerimónias fúnebres de familiares para irem dar espectáculos.

A farsa funcionou até serem vistos em público pelos superiores. “Depois disso não tínhamos mais de mentir, era só informar aos chefes, que eles autorizavam”, contou o músico.

Gabriel Chiau, na entrevista à Rádio Mais, no ano passado, detalhou ainda que esta operação incluía o cálculo da hora do evento a contar com os ensaios para não criar incompatibilidade com os seus superiores.

Este músico fez furor nas décadas 50, 60, 70 e 80 com temas como “Mabilindade ao ni tenderi”, “wene unga yale”, “nkata uya kwine”, “Huma Kumppflilu-mapflilo”. Em várias ocasiões queixou-se de ter sido plagiado e nunca ninguém ter dado por isso.

Entre as dores que sempre transmitiu estão canções suas que acusou o grupo Marrabenta Moçambique de ter gravado na Europa sem a sua autorização e de nunca ninguém ter-se dignado a desculpar-se.

Ainda na década noventa, Gabriel Chiau atacou o mercado da música, que considerava injusto, pois, não havia estrutura para que ele se desenvolvesse de forma saudável e com possibilidades de desenvolvimento e envolvimento de mais pessoas.

O último suspiro

O corpo do compositor e intérprete Gabriel Chiau foi a enterrar no último sábado, no Cemitério de Texlom, província de Maputo, perante centenas de pessoas, que quiseram assim prestar a última homenagem.

Antes do enterro, o corpo foi velado na Igreja Presbiteriana de Chamanculo, numa cerimónia aberta. Familiares, amigos, antigos estadistas moçambicanos, membros do governo, amigos e apreciadores da sua música, participaram.   

Nas mensagens fúnebres, a descrição que se fazia do músico era de homem nobre, sempre aberto ao próximo. Resumindo: a sua grandeza não enterrou a humildade.

“Era nobre. Acolhia a todos. Sentiremos muito a sua falta”, disse Moisés Chiau, um dos filhos de Gabriel Chiau. Os seus netos disseram terem sido afortunados por tê-lo como avó, afinal “transmitia-nos mensagens e ensinamentos valiosos. Sentiremos a sua falta.”

Joaquim Chissano, antigo estadista moçambicano, na sua intervenção, disse que o músico foi-se, mas a sua família ficou “contaminada” com a sua boa forma de viver e de cooperação com os outros.

“O Senhor chamou-o. Espero que a sua obra, no que diz respeito à música, seja levada avante pelos filhos. E nós vamos viver os valores que ele nos ensinou”, afirmou Chissano.

Armando Guebuza, antigo Presidente da República, afirmou que a voz de Chiau não se apagou. Será sempre ouvida através do seu repertório musical. “Entre nós desenha-se como um dos maiores expoentes da nossa cultura. Continuará a nos recordar o que de melhor se produziu entre os anos 50 e 70. Um digno representante do seu Chamanculo.”

Por sua vez, Domingos do Rosário, representante do Ministério da Cultura e Turismo, disse que “nos despedimos hoje de um ícone e exemplo singular de auto-superação, de génio criador e inconformado, que colocou o seu nome e o do nosso país na lista restrita dos maiores executantes de música do nosso planeta”, destacou.

Acrescentou que “se foi o grande mestre, mas deixa-nos um preciosíssimo legado, que devemos prosseguir, como forma de valorizar a sua nobre e valiosa lição de vida social e a sua forma de ser e estar na cultura”.

O cantor Aniano Tamele afirmou que Chiau é uma referência obrigatória na música moçambicana. Um verdadeiro professor de música.

Porque não tinha disco, Aniano Tamele, Roberto Auze, Maguwene Tamele, David Abílio e Bernardo Domingos decidiram, através de fundos próprios, gravar um disco com Gabriel Chiau, que lhe ofereceriam no aniversário de 80 anos.

“Queríamos gravar o disco dele. Gravámos 10 músicas e ele participou em boa parte delas, mas não concluímos. Faltam duas. Nem sempre ele conseguia ir ao estúdio e às instituições que se tinham comprometido a nos ajudar nesta causa, não cumprimos com a  palavra”. Ainda assim, “tentaremos concluir o trabalho. Pedimos apoio”.

Por sua vez, o presidente do Conselho Municipal de Maputo, Eneas Comiche, que é ainda amigo da família do falecido, disse que a cidade despede-se de um ídolo, que desde a década de 1960 encantou com boa música.

“A melhor homenagem que faremos ao cantor consiste no seguimento de suas boas práticas, no desempenho do seu trabalho, realizado com afinco e muita dedicação ao longo de mais de seis décadas”, disse.

O autarca recordou que as suas canções, para além de exaltarem o amor, a pátria, constituíram uma arma de luta contra o colonialismo português e de edificação de um género musical, marcadamente moçambicano, com particular destaque para a marrabenta.

Gabriel Chiau, prosseguiu, faz parte da geração de artistas, que no pós-independência construiu o ideal de moçambicanidade através da cultura. O malogrado sempre esteve na trincheira dos que valorizam os ritmos locais.     

“Como resultado do seu trabalho, Chiau transformou-se numa figura incontornável no panorama da música ligeira do nosso país, deixando, por isso, o seu nome gravado, em letras de ouro, no panteão dos melhores artistas, de que há memória, na rica história cultural de Moçambique”, acrescentou.

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