Esquizofrenia Sagrada

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Cláudia Gomes da Cunha
Cláudia Gomes da Cunha

Texto de Cláudia Gomes da Cunha

– uma pista: talvez tenha relação com os Gêmeos surgirem no céu enquanto o Leão me recebia.

Eu não tenho duas caras:
Eu tenho mil.

Eu comporto mil mulheres dentro do meu receptáculo:
as que gritam com as mandrágoras
as que choram mais que carpideiras
as que riem em eterno sarcasmo
as que esmagam serpentes com os saltos finos
as que se dedicam à cheirar e degustar rosas
as que geram o mundo em parto contínuo
as que desenham na própria pele com a ponta do punhal
as que penteiam bonecas e trocam de roupinha
as que fazem chás de toda uma floresta
as que colocam fogo em tudo o que já não serve
as que tecem o manto do tempo enquanto fazem vigília nos portais da Morte.

Todas essas e ainda outras
aparecem nas frestas dos meus olhos
dependendo da ocasião.

E os que assistirem as aparições,
para o bem ou para o mal,
dirão:

– Agora ela se mostrou de fato!
É nessas horas que a gente vê como a pessoa realmente é.

As que riem, desprezam ignorância.
Eu sou a de antes e sou a de agora.
Eu fui a de antes e não serei a de agora.

Eu fluo
e passam por mim
todas as mulheres que eu sou
sejam elas minha tia, minha avó ou a porca de estima da infância de minha mãe.

Guarda para não esquecer:
o que te digo, o que te escrevo,
pode não ser o que penso.
Não há garantias.
O meu pensamento
só a mim pertence
e ele muda
de acordo com o coro das vozes que ecoam em mim como um canto gregoriano enquanto eu danço um torto ballet contemporâneo
e sangro.

Pintura de João Timane

* * *

Cláudia Gomes da Cunha nasceu em em 02.08.1984 no município de Vila Velha, no estado do Espírito Santo, no Brasil. Roteirista, formada em Roteiro Cinematográfico pela ECDR (Escola de Cinema Darcy Ribeiro), também trabalha em outras áreas da escrita que envolvam criação e storytelling. É autora dos livros “Mariazinha em verso & prosa”, “Sarau da Mariazinha”, “Cordel da Mariazinha” e “Hecatombe Hipotética”. Em 2006 foi premiada no I Concurso de Literatura da Apolo, no concurso nacional de poesia da ABEPL (Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas Literárias) e no concurso da prefeitura de Porto Alegre / RS “Histórias do trabalho”. Apesar de não estar associada à nenhuma instituição específica,  costuma incentivar à leitura em projetos de zonas periféricas do Rio de Janeiro através da contação de histórias e intermediação da leitura.

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